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Trump ataca a primeira mulher afro-americana a governar a Fed

Depois de atacar Jerome Powell, Trump persegue agora Lisa Cook, sem provas, com os mesmos argumentos já usados para tentar afastar outros adversários políticos da Casa Branca.

Poderia ser uma série distópica numa qualquer plataforma digital, mas está a acontecer em direto para todo o mundo. A guerra de Donald Trump contra a Reserva Federal norte-americana está a atingir proporções preocupantes. A independência da Fed está a ser colocada em causa e a pressão está a escalar em Washington, D.C. Trump quer taxas de juros mais baixas, mas Jerome Powell e companhia resistem a cortes cegos.

Debaixo de fogo pelos seus próprios apoiantes, devido à não divulgação dos ficheiros Epstein, relativos ao caso do pedófilo que manteve uma relação de amizade com Donald Trump, e com tentativas falhadas de chegar a um acordo de paz na Ucrânia, Donald Trump desespera por injetar liquidez na economia norte-americana. A sua solução é taxas de juros mais baixas, para que empresas e cidadãos consigam contrair empréstimos mais baratos.

Primeiro, o alvo foi Jerome Powell, mas como o bullying do presidente norte-americano não surtiu efeito, eis que a Casa Branca escolhe um novo alvo: a primeira mulher afro-americana governadora da Fed, que chegou ao cargo em 2022, confirmada pelo Senado, e cujo mandato termina em 2038.

Lisa Cook foi acusada, sem provas, por Donald Trump de cometer fraude para obter condições mais vantajosas para um crédito à habitação em 2021, ao comprar uma segunda habitação, argumentando que seria a sua residência primária.

Fundada há 111 anos, esta é a primeira vez que a Casa Branca tenta demitir um dos governadores da Fed.

A responsável era professora de Economia na Universidade do Michigan até ser nomeada por Joe Biden em 2022, contando no seu currículo profissional com a Universidade de Harvard e de Stanford. Serviu também como assessora económica de Barack Obama.

Donald Trump escreveu uma carta a Lisa Cook esta semana, a anunciar a sua demissão imediata do cargo, considerando que existem provas suficientes para a sua saída.

"Não me demito", respondeu publicamente Lisa Cook horas depois. "Não existe nenhuma causa legal" e o presidente "não tem autoridade" para a remover do cargo, defendeu, citada pelo Guardian.

"Vou continuar a desempenhar o meu cargo para ajudar a economia norte-americana", acrescentou a governadora, com o seu advogado a garantir que serão tomadas "todas as ações para travar a ação ilegal" de Trump.

Pode Trump despedir membros da Fed sem justa causa? O Supremo Tribunal dos EUA sugeriu em maio que os responsáveis do banco central gozam de uma proteção especial face à Casa Branca, dada a estrutura única do banco central.

A tática de ataque não é nova. Bill Pulte - diretor da Federal Housing Finance Agency - já atacou outros adversários de Trump com os mesmos argumentos, incluindo o senador democrata Adam B. Schiff, da Califórnia, e Letitia James, a procuradora-geral do estado de Nova Iorque.

Bill Pulte começou por acusar Lisa Cook inicialmente, via redes sociais, e já anunciou que reencaminhou o caso para a Procuradoria-Geral dos EUA.

Sobre o caso da alegada fraude, "existe neste momento pouca informação factual pública sobre o que aconteceu", disse ao NYT Kathryn Judge, professora de Direito na Universidade de Columbia. "É muito difícil tentar apurar se houve alguma malfeitoria. A fraude tem muitos elementos, incluindo intenção, (…) e não há nada no que foi revelado que forme a base de uma acusação de fraude."

Do lado financeiro e económico, "a grande questão para os mercados é: se Trump conseguir substituir Cook, pode ele vir a alterar a composição da Fed e como é que isto impactaria a percepção dos mercados sobre o investimento nos EUA", questionou Julia Lee, analista da FTSE Russell, citada pela BBC.

Se Trump suceder, isso significa o "fim da independência do banco central. O presidente vai conseguir controlar a Reserva Federal ao usar os inúmeros recursos do Governo dos EUA contra o seu próprio banco central", disse ao New York Times Peter Conti-Brown, professor da Universidade da Pensilvânia.

A administração da Fed conta com sete membros, com um nomeado recentemente por Trump, depois de Adriana Kugler ter-se demitido de surpresa no início de agosto. Trump nomeou um homem da sua confiança para o cargo: Stephen Miran.

Com este anúncio, a Casa Branca quer transformar os "reguladores financeiros de independentes para cãezinhos obedientes", comentou Rohit Chopra, que liderou o Consumer Financial Protection Bureau durante o mandato de Joe Biden.

No campo democrata, a senadora Elizabeth Warren acusou o presidente de querer controlar a todo o custo a Reserva Federal, acusando-o de violar a lei. "Este é o último exemplo de um presidente desesperado para ter um bode expiatório para cobrir as suas próprias falhas em reduzir o custo de vida dos americanos."

Lev Menand, professor de Direito na Universidade de Columbia e ex-membro da Fed de Nova Iorque, disse que este é um "despedimento ilegal", pois não recebeu uma notificação e não foi ouvida atempadamente. "A independência do banco central já estava por um fio depois disto", comentou ao NYT.

A popularidade de Donald Trump atingiu um novo mínimo, com 47% dos inquiridos a avaliarem muito negativamente o presidente no seu segundo mandato, segundo o inquérito da YouGov para a Economist.