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Trump ameaça Irão com guerra e Espanha com confronto comercial

A cimeira da NATO na Turquia foi pródiga em ameaças: o presidente dos Estados Unidos disse que está farto de aturar iranianos e espanhóis, por motivos não exatamente idênticos, mas que têm pontos em comum. Em Ancara, Luís Montenegro também reagiu.

O presidente dos Estados Unidos afirmou que o cessar-fogo com o Irão acabou, apelidou os líderes iranianos de “escumalha” e de mentirosos – e assegurou que as tropas norte-americanas estão prontas para acabar o que começaram: varrer o país do mapa. O que, por esta altura, pode já ter começado. Ao mesmo tempo, disse que vai riscar do mapa comercial dos Estados Unidos qualquer contacto com a Espanha – o que sucede por um motivo paralelo ao do Irão: a falta de empenhamento do governo de Pedro Sánchez na NATO e enquanto aliado dos Estados Unidos.

“No que a mim me diz respeito, acabou”, disse Trump sobre o cessar-fogo e sobre as negociações em curso para o fim da guerra. O preço do petróleo já disparou de imediato e os iranianos responderam um pouco depois. O Ministério das Relações Exteriores iraniano condenou os ataques militares dos Estados Unidos contra instalações ao longo da costa sul do país, realizados esta quarta-feira, alertando que Washington será responsabilizado pelas consequências do aumento da tensão. Em comunicado divulgado na quarta-feira, o ministério disse que os EUA lançaram ataques nas primeiras horas do dia contra vários centros de monitorização e vigilância no litoral sul do Irão – numa "violação flagrante" da primeira cláusula do memorando de entendimento mediado pelo Paquistão.

O comunicado dizia que os ataques, juntamente com a decisão do Departamento do Tesouro dos EUA, na noite anterior, de revogar a autorização de venda de petróleo do Irão, violaram os acordos relativos ao Estreito de Ormuz, acrescentando que a continuidade da agressão militar israelita e dos atos terroristas contra o Líbano tornou ineficazes "partes importantes e fundamentais" do acordo. O ministério adiantava ainda a obrigação jurídica internacional de todos os governos, em particular dos países vizinhos na costa sul do Golfo Pérsico, de impedir que estados agressores usem o seu território ou instalações para realizar atos hostis contra o Irão. “Qualquer cooperação na prática do crime de agressão contra o Irão equivale a cumplicidade e participação nesse crime”, afirmou. O ministério também pediu ao Conselho de Segurança da ONU e ao seu secretário-geral, António Guterres, que cumprirem as suas responsabilidades na manutenção da paz e da segurança regional e internacional.

A decisão de Trump de acabar com o cessar-fogo surgiu inesperadamente – e numa altura em que o Irão está concentrado nas cerimónias fúnebres do antigo líder supremo Ali Khamenei. Trump afirmou na Turquia, onde estava para participar na cimeira da NATO, que “não quero lidar mais com essa gente”, apelidando os líderes iranianos de “escumalha”, “mentirosos” e “pessoas violentas e cruéis que se tivessem uma arma nuclear, usá-la-iam”.

Os mercados globais de energia rapidamente incorporaram a informação: o preço do barril de brent, referência para a Europa, voltou a ultrapassar os 78,5 dólares, subindo 5,92%, depois das declarações de Trump. Já o WTI para entrega em agosto, referência para os Estados Unidos, subia 5,32%, para 74,19 dólares. Até ao fecho dos mercados, as cotações pouco evoluíram.

A chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, considerou que os novos ataques norte-americanos e iranianos “complicam ainda mais as já difíceis negociações” entre Washington e Teerão. Kallas lembrou que, “ao abrigo do memorando, Teerão compromete-se a reabrir o estreito de Ormuz”, mas “os seus recentes ataques a navios nas proximidades do estreito violam esse compromisso e ameaçam interromper o restabelecimento do fornecimento de energia”.

Por seu lado, o primeiro-ministro português, Luís Montenegro, que também esteve em Ancara, pediu que o processo de paz no Irão tenha "menos perturbação e mais consistência", reiterando o apelo para que se encontre uma "solução de cessar-fogo que permita restabelecer a normalidade" na região. Em conferência de imprensa no final da cimeira de chefes de Estado e de Governo da NATO, Luís Montenegro afirmou, citado pela agência Lusa,  que o Governo tem sempre defendido que a "via diplomática, negocial é a correta para restabelecer a normalidade no Médio Oriente". Por isso, "aquilo que nós desejamos é que este processo [de paz] possa ter menos perturbação e mais consistência ao longo do tempo. É algo que não depende de nós, depende das partes envolvidas", afirmou.

O primeiro-ministro insistiu que o desejo do Governo português é que, "não obstante algumas polémicas intermitentes na relação entre as partes envolvidas, possa preponderar o que é essencial: uma solução de cessar-fogo que permita restabelecer a normalidade naquela região". Montenegro defendeu que a normalidade no Médio Oriente é fundamental para garantir a "navegabilidade no Estreito de Ormuz", com as consequências que isso tem do ponto de vista económica, mas também assegurar que o Irão "não tem uma arma nuclear" e que a segurança da Aliança não é "colocada em causa por esta via".

 

Espanha na lista negra

Pouco depois, Trump voltaria a atacar um país europeu, a Espanha, ameaçando-o de romper totalmente as relações comerciais bilaterais para punir o que considera ser uma má postura do país no contexto da NATO. Trump afirmou que ordenou ao secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, que interrompesse as relações comerciais com a Espanha, classificando Madrid como um “parceiro terrível” na aliança militar. “A Espanha é uma causa perdida. Não queremos mais fazer negócios comerciais com a Espanha”, disse Trump. “Aliás, eu gostaria de os cortar. A Espanha é um parceiro terrível na NATO: não participam, não pagam. Não quero ter nada a ver com a Espanha. Cortem todo o comércio com a Espanha, incluindo visitas”, completou.

Espanha disse desde a primeira hora que não iria cumprir o objetivo de gastar 5% do PIB em defesa e conseguiu mesmo um acordo interno na NATO que acomodava essa decisão. Quando a Espanha decidiu não gastar os 5% do PIB em armas, Trump ameaçou de imediato a Espanha com o fim do comércio bilateral. Mas só agora parece decidido a concretizar a ameaça – o que ocorreu numa conferência de imprensa em Ancara, capital da Turquia, no quadro da cimeira da NATO, e ao lado do secretário-geral da aliança, Mark Rutte.

Em resposta, e segundo as agências internacionais, o gabinete do primeiro-ministro espanhol afirmou que recebeu as declarações de Trump com "tranquilidade e normalidade" e acrescentou que as relações bilaterais beneficiam ambos os países. “O nosso país mantém uma excelente relação social, cultural e económica com os Estados Unidos, e não é nossa intenção que isso mude”, disse o gabinete, que lembrou que a relação comercial dos EUA com a União Europeia “não pode ser individualizada em relação a nenhum Estado-membro”.

De acordo com os dados consolidados do comércio externo espanhol, as importações espanholas a partir dos Estados Unidos foram de 30,2 mil milhões de euros em 2025, enquanto que as exportações para aquele mercado não foram além dos 16,7 mil milhões. Ou seja, Espanha acumulou um défice de mais de 13,4, mil milhões.