Os eleitores suíços votaram no domingo - numa iniciativa do Partido Popular Suíço (SVP), de direita – sobre a possibilidade de o país, a pátria da neutralidade, limitar a população a 10 milhões de habitantes até 2025. Segundo os primeiros resultados divulgados pelo governo federal, quase 53% dos eleitores rejeitaram a proposta, com uma participação nacional superior a 57%. Os resultados de muitos dos 26 cantões da Suíça ainda estavam pendentes ao início da noite, mas as sondagens indicam que o ‘não’ deve sair vencedor. Os resultados mostravam que cerca de dois terços dos eleitores na região de Genebra, a segunda maior cidade da Suíça e um centro onde se encontram as instituições da ONU e de outros grupos humanitários, opuseram-se à medida.
Um voto ‘sim’ exigiria que o governo suíço tomasse medidas para limitar o crescimento populacional até 2050 por via (única, dado que não se previa outro tipo de medidas) do controlo da imigração. O governo seria obrigado a limitar o asilo, o reagrupamento familiar e as autorizações de residência, e poderia ter que rescindir o acordo da Suíça com a União Europeia sobre a livre circulação de pessoas se a população atingisse 9,5 milhões antes de 2050.
O SVP, partido com o maior número de lugares no parlamento, fomentou e incentivou o sentimento anti-imigração ao longo dos últimos anos, principalmente em relação ao fluxo de trabalhadores da vizinha União Europeia. E não apenas de imigração oriunda de países externos à Europa, refira-se.
A realização do referendo colocou em risco os fortes laços da Suíça com a União Europeia, ancorados em acordos que fomentam o crescimento económico, os laços culturais e as viagens transfronteiriças. Os favoráveis ao ‘não’ às restrições rapidamente apelidaram o referendo de "Brexit suíço".
O ponto de partida do SVP era a constatação de que quase um terço da população suíça é imigrante. O número de pessoas que vivem na Suíça aumentou em quase um quarto na última geração, e os estrangeiros representam uma parcela fundamental da população suíça, que é de cerca de 9,1 milhões de pessoas. Ao contrário do que sucede noutros países europeus, a imigração levou para a Suíça mão de obra habilitada em áreas como a saúde, finanças, indústria farmacêutica e tecnologia. Mas a direita argumentava que a pressão da entrada de estrangeiros se faz sentir cada vez mais na habitação, nos programas sociais, mas também no estilo de vida do país. A esta lista, o SVP acrescentava ainda pressão sobre os recursos naturais e o turismo, o que levou o partido a chamar ao tema uma questão de “sustentabilidade.
O parlamento e a EconomieSuisse, uma importante associação empresarial, opunham-se à ideia do controlo da imigração. O próprio governo também não queria que o ‘não’ ganhasse. É que o executivo é formado por quatro partidos e apenas o SVP era a favor. O Partido Socialista, os liberais radicais do FDP, de centro-direita, e o centrista Die Mitte, eram todos contra a ideia das restrições.
Na democracia suíça, os eleitores têm voz direta na formulação de políticas por meio de referendos, geralmente realizados quatro vezes por ano. A maioria dos votos é enviada pelo correio, e a votação presencial termina ao meio-dia, horário local, no domingo.
Entretanto, noutro referendo realizado também este domingo, os eleitores votaram a favor da aprovação de uma emenda à Lei do Serviço Civil. Seis novas medidas na lei serão introduzidas no país. E são as seguintes: mínimo de 150 dias de serviço; os suboficiais e oficiais das forças armadas que mudarem para o serviço civil também passam a ter de cumprir uma penalização de tempo. Terão de trabalhar 1,5 dias no serviço civil por cada dia que restava no exército; os militares que já cumpriram todos os seus dias obrigatórios de treino no exército deixam de poder pedir a transferência para o serviço civil apenas para evitar missões extraordinárias; passa a ser obrigatório realizar uma missão de serviço civil todos os anos a partir do ano seguinte ao da admissão; haverá prazos mais rígidos para missões longas; e haverá restrição para estudantes de medicina – ficam proibidas as funções no serviço civil que exijam a realização ou a posse de estudos na área da medicina e da veterinária.