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Startups fundadas por mulheres têm mais dificuldade em atrair investimentos

Conseguir investimento num capital de risco é difícil, mas os dados mostram que se a startup for fundada por mulheres esta dificuldade ainda se agrava mais. Para contrariarmos esta realidade é necessário tomar medidas que criem condições para as mulheres prosperarem nesta área.

Investir em capital de risco é, como o próprio nome indica, um risco. Mas, continua a atrair investidores destemidos. Contudo, há um gender gap nos investimentos, com as empresas fundadas por homens a obterem mais investidores do que as fundadas por mulheres.

Lurdes Gramaxo, partner da Bynd VC, afirma que esta diferença não é por apenas uma razão, mas sim por um conjunto de fatores. “O capital de risco é um setor muito baseado em redes, confiança e histórico, e durante muitos anos essas redes foram maioritariamente masculinas, acabando por influenciar, mesmo que de forma inconsciente, a origem dos deals, perceção de risco e o perfil de empreendedor que chega primeiro ao radar dos investidores”, refere.

Este gap faz com que as mulheres tenham uma maior dificuldade em obter investimento para as suas empresas, apesar de, muitas das vezes, serem mais qualificadas do que os homens. Mas não é apenas de dificuldade no acesso ao capital, mas também no “acesso à oportunidade de estar no radar certo”, salienta.

Com os fatores estruturais e culturais a serem difíceis de mudar, as mulheres ainda são uma minoria no empreendedorismo e na liderança.

Os mais recentes dados do 2025 Female Innovation Index revelam que apenas 12% do capital de risco no ano passado foi destinado a startups fundadas por mulheres. Contudo, a partner da Bynd VC sublinha que este valor “não significa menor qualidade dos projetos: significa, sim, menos exposição e, muitas vezes, menor participação feminina no ecossistema e é aí que temos que atuar”.

Sendo o capital de risco um setor que vive de “decisões sob incertezas” os “vieses têm um impacto maior”, declara. Este é um ciclo que tende a perpetuar-se uma vez que “há menos mulheres fundadoras e em posições de decisão no investimento”.

Este é um problema que para Lurdes Gramaxo não se resolve com intenções, mas sim “com o tempo, com a exposição e com a mudança nas equipas e nos processos”.

O desafio das mulheres começa logo na área de estudos, com o setor tecnológico ainda a ser pouco apelativo. “A sub-representação das mulheres no setor tecnológico começa na formação, onde também é preciso atuar e vai-se diluindo ainda mais nas posições de liderança, o que impulsiona os problemas de equidade salarial na tecnologia”, declara.

Os dados da Ravio demonstram que apenas 21% dos cargos executivos na indústria tecnológica são ocupados por mulheres, enquanto 79% são ocupados por homens. “São necessários mais esforços na Europa para enfrentar este desafio, uma vez que a tecnologia evoluiu muito rapidamente e as estruturas organizacionais e sociais não acompanharam esse ritmo”, sublinha.

Para fazer frente a este problema é necessário “atuar em diferentes frentes em simultâneo”. Desde aumentar a diversidade nas equipas de investimento, a rever os processos de decisão e tem também de existir “maior visibilidade de role models femininos tanto no empreendedorismo como no investimento”, refere.

É também necessário incentivar as mulheres a irem para esta área, e para tal é preciso criar condições, tornar o caminho “mais acessível e sustentável”. “Também é importante mudar a forma como o risco é percebido. Muitas vezes, não há menos ambição, mas maior penalização do erro, o que influencia decisões de carreira”, declara.

Apesar se estar a fazer um caminho para valorizar o papel da mulher, este tem sido mais lento do que o desejável, contudo já “foram dados grandes passos para a igualdade”, aponta.

“No caso do capital de risco como em tantos outros sectores, não podemos negligenciar o talento feminino se quisermos realmente captar todo o potencial disponível no mercado, a diversidade não pode ser um mero princípio: tem de ser uma prática ativa de investimento”, afirma.