Cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém, já diz o ditado, mas ninguém em Wall Street está a fazer caso.
Vive-se uma grande euforia nos mercados com a entrada em bolsa da SpaceX.
A companhia de Elon Musk disparou 19% no seu primeiro dia a negociar em bolsa, com a companhia a valer 2,2 biliões de dólares.
Durante a negociação, chegou a disparar mais de 30%, revelando o interesse dos investidores na empresa de foguetões, a própria SpaceX, e satélites, através da Starlink, e também de inteligência artificial (IA), via xAI.
A oferta pública inicial (IPO) atingiu uma procura de 350 mil milhões de dólares, com 100 mil milhões a terem origem em investidores de retalho, segundo a "Bloomberg".
O IPO acabou por angariar 75 mil milhões de dólares, tornando-o no maior IPO de sempre com um grande avanço face aos 29 mil milhões do IPO da Saudi Aramco em 2019.
Pelo caminho, a SpaceX passou de startup a uma das cotadas mais valiosas do mundo, com Elon Musk a tornar-se no primeiro bilionário da história mundial.
A operação foi, sem dúvida, um grande sucesso. E Elon Musk foi um visionário no mercado de carros elétricos com a Tesla, no transporte espacial com a SpaceX ou na internet de banda larga sem fios, com a Starlink. Mas, apesar da excitação nos mercados, há muitas dúvidas e críticas no ar sobre a operação e sobre o futuro da SpaceX.
Uma das críticas feitas à operação é que a SpaceX foi valorizada a 100 vezes as suas receitas de 2025.
A companhia foi avaliada em 1,77 biliões de dólares, mas gerou perdas de mais de 4 mil milhões só no primeiro trimestre.
Outra questão é que Elon Musk controla 85% dos direitos de voto na SpaceX, detendo 40% do capital da empresa.
Outro risco é a capacidade que os gestores da SpaceX têm de autorizar compensação monetária aos executivo e também de aprovar negócios, como a compra de outras empresas detidas por Elon Musk, tudo de forma relativamente fácil, segundo uma análise feita pela Harvard Law School.
E há um historial. A SpaceX integrou este ano a xAI, startup de IA de Elon Musk, que já tinha integrado, por sua vez, a plataforma X em 2025.
A SpaceX conta com 10 mil satélites em órbita atualmente e espera atingir a meta de um milhão. Elon Musk também já prometeu construir centros de dados no espaço.
A senadora democrata Elizabeth Warren levantou esta semanas várias questões sobre o IPO, incluindo sobre a alteração das regras para acomodar a SpaceX em vários dos grandes índices, como o Nasdaq ou o Russell.
Destaque para o S&P 500 que decidiu manter a sua regra inalterada: uma cotada só pode integrar o índice após 12 meses de negociação.
A expetativa nos mercados é que também a OpenAI e a Anthropic não vão integrar o S&P 500 quando fizerem o IPO, pelo menos no seu primeiro ano.
A Starlink é o único negócio dentro da SpaceX que é rentável, contando com uma posição de mercado dominante, com mais de 10 milhões de clientes de internet de banda larga.
Já as unidades de negócios espacial e de IA geraram 1,4 mil milhões de dólares no primeiro trimestre, mas com perdas acima de 3 mil milhões, segundo a "CNBC".
Há um percurso também de promessas falhadas em vários projetos, como o Hyperloop, o táxi autónomo da Tesla, o Neuralink ou a colónia de Marte.
A SpaceX acumulou um défice de mais de 40 mil milhões de dólares desde que foi fundada em 2022, com esta unidade a ter perdas de 1,9 mil milhões só no primeiro trimestre.
Só o desenvolvimento do foguetão Starship custou 15 mil milhões de dólares. A companhia está agora a desenvolver os satélites V3 para expandir o serviço Starlink.
Já a receita por utilizador também caiu de 86 dólares para 66 dólares no primeiro trimestre deste ano face a período homólogo.
E apesar do número de subscritores ter dobrado no primeiro trimestre, a receita operacional foi apenas de 1,03 mil milhões para 1,19 mil milhões.
A SpaceX conta com 9.600 satélites em baixa órbita, servindo clientes em 164 países e territórios que procuram internet de qualidade em regiões onde não existe.
O prémio Nobel da Economia Paul Krugman, por seu turno, deixou duras críticas ao percurso de Elon Musk. "Existe um termo para empresas que parecem ter sucesso porque continuam a atrair novos investidores e continuam a atrair novos investidores porque parecem ter sucesso. Chamam-se esquemas de Ponzi. E Elon Musk é basicamente um esquema de Ponzi humano", escreveu na sua página no "Substack".
Paul Krugman recorda que a compra do Twitter foi um falhanço rotundo do empresário, com a fuga de anunciantes perante todas as alterações promovidas por Musk e a valorização da empresa a cair para metade do que valia na altura da compra.
Mas eis que Elon Musk viu a sorte bafejar: foi o maior financiador individual de Donald Trump e eis que os anunciantes começaram a regressar ao X de forma a tentar agradar a Musk e a Trump, escreve o professor da Universidade de Columbia.
Por sua vez, o professor da Universidade de Berkeley Robert Reich deixou críticas ao facto de as mudanças de regras dos índices permitirem a entrada do Space no curto prazo.
"Uma grande quantidade de poupanças e pensões dos norte-americanos vai automaticamente estar ligada ao valor de mercado do SpaceX. Ao mesmo tempo, toda a infusão automátiva de investimento vai aumentar artificialmente o valor do SpaceX, pelo menos no curto-prazo".
Mas o antigo ministro do Trabalho de Bill Clinton deixa mais críticas. "Os SpaceX 'insiders' vão poder vender as suas ações mais cedo do que o habitual num IPO. (…) Isto significa que podem gozar da subida das ações com a força dos milhões de investidores dos índices e podem sair do SpaceX antes da maré mudar", escreveu no "Guardian".
"Musk é agora bilionário, mas muitas pessoas inocentes podem ser afetadas por este IPO, talvez antes de darem conta", acrescentou.
Elon Musk revelou a sua satisfação pelo sucesso da operação. "É difícil de acreditar que uma pequena empresa que começámos num armazém em El Segundo gerou o maior IPO de sempre", disse o empresário na sexta-feira.
Já o investidor Jim Chanos pediu cautela: "historicamente, sem dúvida que no século XX e XXI, sempre que houve um grande IPO, os investidores geralmente foram aconselhados a serem mais cautelosos ou a reduzirem o seu risco", disse à "Bloomberg".
Gigantes de inteligência artificial preparam entrada em Wall Street a valer 12 vezes o PIB português
Três gigantes da Inteligência Artificial (IA) preparam a sua entrada em bolsa este ano. Juntas valem 3,6 biliões de dólares (3,1 biliões de euros) e prometem trazer muito capital a Wall Street. O valor é 12 vezes superior à riqueza gerada anualmente pela economia portuguesa, uma pipa de massa.
A OpenAI foi a tecnológica mais recente a juntar-se à lista de empresas que preparam a Oferta Pública Inicial (IPO em inglês) este ano, tendo entregado a documentação esta semana junto do regulador de mercado norte-americano, o SEC, revelou a "Bloomberg".
Das três gigantes da IA, a SpaceX de Elon Musk é a que vale mais: 1,8 biliões de dólares (mais de 1,5 biliões de euros). Segue-se a Anthopic, responsável pelo 'chatbot' Claude, com 965 mil milhões de dólares (840 mil milhões de euros) e a OpenAI com 852 mil milhões (740 mil milhões).
A companhia liderada por Sam Altman disse que ainda não decidiu o timing do IPO, admitindo que pode "demorar um pouco", pois há certas questões que prefere realizar enquanto não estiver em bolsa, não dando detalhes, e reconhecendo que até pode vir a acelerar o processo se for no seu melhor interesse.
A OpenAI foi responsável pelo disparo na IA generativa com o lançamento do ChatGPT no final de 2022, com o 'chatbot' a tornar-se sinónimo de IA para uma boa parte do mundo.
Mas a concorrência não dorme e a companhia está a enfrentar uma concorrência cada vez mais feroz, com a Anthropic e a Google a acelerarem.
A "Bloomberg" sublinha que a companhia falhou metas internas de receitas e de crescimento, com vários executivos a saírem da empresa.
Se se confirmar o calendário, o mundo vai assistir a um novo duelo entre os arqui-rivais Sam Altman e Elon Musk. O fundador da SpaceX já tentou processar a OpenAI e o seu presidente, mas não conseguiu.
Estas gigantes tecnológicas além de desenvolverem inteligência artificial, necessitam de comprar chips valiosos e espaço em centros de dados para alimentar o trabalho dos seus 'chatbots'.