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Remessas: Dinheiro dos emigrantes vale cada vez menos no PIB

Todos os anos as remessas que os portugueses enviam do estrangeiro batem novos recordes. E, no entanto, valem cada vez menos quando as comparamos com a riqueza produzida por Portugal. Tão pouco que, se continuarem assim, vão atingir nos próximos anos o valor mais baixo em democracia.

Em valor absoluto, os emigrantes enviaram 4.388 milhões de euros no ano passado, segundo o Banco de Portugal, um crescimento de 2,14% face a 2024. Constitui um novo recorde, como foi noticiado em fevereiro. E como tinha sido em todos os anos anteriores desde 2020 — quando a pandemia começou, as remessas atingiram 3.768 milhões de euros, superando ligeiramente um recorde com quase 20 anos.
E o que se passou nesse interlúdio? Após 2001, houve um trambolhão sem paralelo nas últimas cinco décadas: em dois anos, até 2003, os emigrantes passaram a enviar um terço a menos de remessas (2,4 mil milhões). Do valor mais alto de sempre ao mais baixo desde 1986 foi um ápice. Porquê? O Observatório da Emigração, do ISCTE, já explicou que a quebra terá decorrido da entrada no euro (2002 foi o ano de transição) e da mudança nos critérios de registo de transferências.
Durante quase uma década, com altos e baixos, o valor não sairia da casa dos 2 mil milhões, até que, em 2010 (um ano antes da Troika), as remessas recomeçaram uma escalada que não mais seria interrompida: 16 subidas consecutivas até 2025, igualando o número de subidas registadas entre 1976 e 1991.
Contudo, estes valores carecem de contexto. Os 3,7 mil milhões de 2001, por exemplo, equivaleriam a 6 mil milhões no ano passado se ajustados à inflação (socorremo-nos do conversor do INE). Ou seja, quase 2 mil milhões a mais do que o valor registado em 2025.
Mas mais relevante ainda é perceber qual a dependência do país face a essas remessas. E a verdade é que caiu no ano passado pelo quinto ano consecutivo — de 1,87% do PIB em 2020 para 1,43%. É o valor mais baixo desde 2011 (1,38%). Mais: em todo o período democrático, as remessas só tiveram um peso menor de 2008 a 2011 (que apanha a crise financeira global e a quase falência do país): entre 1,3% e 1,39%.
Depois, no período da Troika, o PIB andou pelas ruas da amargura — incluindo três recessões consecutivas entre 2011 e 2013 — e as saídas do país registaram números sem precedentes nas últimas décadas: mais de 40 mil novos emigrantes permanentes por ano entre 2011 e 2015 (incluindo mais de 50 mil em 2012 e 2013), segundo dados do INE. Com menos PIB e mais emigrantes, o peso das remessas na riqueza do país só podia aumentar. Passou de 1,35% para 1,85%, o segundo maior valor desde 2002 e ligeiramente abaixo dos 1,87% de 2020, ano de profunda recessão.

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