A aposta de Rachel Reeves, ministra britânica das Finanças, em impostos e despesas está a levar o Reino Unido a uma crise de dívida ao estilo da que sucedeu na década de 1970 e ao resgate do Fundo Monetário Internacional, alertaram economistas que têm sido citados pela imprensa.
Desde a pandemia, o endividamento público do Reino Unido tem apresentado uma trajetória ascendente acentuada. No final do ano passado, a dívida aproximava-se dos 100% do PIB e o défice fiscal era superior a 5%. Há números que indicam que, se nada mudar, a dívida pública atingirá 270% da produção anual nos próximos 50 anos.
O governo trabalhista liderado por Keir Starmer tem tentado atuar do lado da despesa. Ainda recentemente, quis cortar o pagamento de combustível de inverno para os reformados mais ricos, mas o plano acabou revertido após encontrar forte oposição do próprio partido. No mês passado, o Estado lançou mais um empréstimo de 21 mil milhões de libras, o maior endividamento líquido mensal (exceto no ano da pandemia), e 3,6 mil milhões a mais do que o previsto.
Com a França a seguir o mesmo caminho, o Fundo Monetário Internacional tem aconselhado os governos a "colocarem as suas finanças em ordem". A ‘receita’ é a de sempre: aumentar impostos, cortar gastos e melhorar a eficácia para impulsionar o crescimento económico.
Um ex-economista do Banco da Inglaterra disse ao jornal ‘Sunday Telegraph’ que os custos de empréstimo no Reino Unido são maiores do que na Grécia e que haverá um colapso económico a menos que a chanceler do Tesouro (ministra das Finanças) reverta o curso em que o país se encontra. Para todos os efeitos, muitos economistas acreditam que, independentemente de conservadores e trabalhistas, o país precisa de encontrar uma solução que seja credível junto aos mercados de títulos. Um porta-voz do Tesouro rejeitou as alegações dos economistas citados pelo jornal, considerando-as infundadas, e recordou que o FMI apoiou a estratégia fiscal do Reino Unido no passado mês de maio.
“Uma parcela cada vez maior de famílias está a tomar empréstimos não para gastar, mas para sobreviver, e está a pagar caro por isso. Mais pessoas estão a usar crédito para pagar por consumos essenciais”, refere o economista Richard Murphy. Não é uma história sobre consumo irresponsável: “é uma história sobre milhões de pessoas incapazes de cobrir os custos básicos da vida com os seus salários e pensões”.
Mas este é outro assunto. Quanto à dívida pública, o economista considera no seu blogue que “o Partido Trabalhista prefere que nos concentremos na suposta crise da dívida pública, que é simplesmente a consequência da injeção de dinheiro do Estado na economia para que esta possa funcionar. Essa dívida, quando estruturada com títulos, é voluntariamente mantida por instituições financeiras, é totalmente passível de pagamento e está totalmente sob o controlo do governo e do Banco da Inglaterra”.
Seja como for, Richard Murphy assegura que o ‘país real’ está exangue: “primeiro porque a receita familiar no Reino Unido estagnou, na melhor das hipóteses, em termos reais para a maioria da população desde 2008. Em segundo lugar, o custo de consumos essenciais, como alimentação, energia, aluguer e transporte, aumentou drasticamente – a inflação nessas áreas atingiu mais duramente os rendimentos mais baixos. Em terceiro lugar, ao mesmo tempo, a rede de segurança social foi minada. O Crédito Universal está repleto de atrasos, sanções e limites. Os serviços de apoio do governo local foram reduzidos ao mínimo”.
“Esta crescente crise da dívida das famílias é social e economicamente corrosiva. Prejudica a saúde mental, desestrutura famílias, limita as oportunidades de vida das crianças e, em última análise, enfraquece a economia devido à perda de produtividade e ao aumento da pressão sobre os serviços públicos”.