A muito esperada reunião do gabinete de segurança de Israel terminou, ao cabo de três horas, sem que, segundo avança a imprensa hebraica, o tema do cessar-fogo tenha sequer sido debatido. Esse ‘esquecimento’ indica, sem qualquer dúvida, que a linha dura do executivo – a extrema-direita e os ultras religiosos – venceu o ‘braço de ferro’ que mantinham com aqueles que advogavam a aceitação do acordo (60 dias de cessar-fogo e a entrega faseada dos reféns).
Dito de outra forma: a única solução em cima da mesa (do governo) é a extensão das ações militares em Gaza – que deverá ocorrer ao mesmo tempo que o executivo apoiará qualquer ato de ocupação da Cisjordânia por parte dos colonos. Dando indicações claras nesse sentido, a reunião acabou a tempo de alguns ministros jantarem em Jerusalém com o Conselho Regional de Binyamin, entidade que administra 44 colonatos e postos avançados judaicos no sul da Cisjordânia.
A reunião ocorreu ao mesmo tempo que uma parte do país se envolveu em protestos que chegaram a atingir um grau elevado de distúrbios. O dia de protestos em massa, organizado em todo o país, pretende insistir na aceitação do acordo para trazer de volta os 50 reféns (20 deles possivelmente vivos) ainda mantidos em Gaza e manifestar oposição aos planos do governo de intensificar a guerra com a iminente conquista da Cidade de Gaza.
Ainda segundo os jornais israelitas, Israel deu a entender ao Egito que não está interessado no acordo por fases e que negociará apenas um acordo abrangente – ou seja, a libertação imediata de todos os reféns vivos.
O encontro serviu também para dirimir clivagens internas. O ministro da Defesa, Israel Katz, e o Chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel (IDF), tenente-general Eyal Zamir, anunciaram que chegaram a um entendimento sobre o processo de nomeação do exército, após tensões entre os dois no início deste mês, devido a uma ronda de promoções no topo da hierarquia. Em declaração conjunta, ambos concordam que o procedimento para nomeações para as IDF continuará a incluir consulta prévia. Assumiram ainda o compromisso da cooperação plena, a manutenção da continuidade do comando e o fortalecimento da capacidade do exército de enfrentar os desafios de segurança. “O processo de nomeação nas IDF é um pilar da gestão de pessoal, e continuaremos a fazer tudo para promovê-lo de forma tranquila e profissional”, diz a declaração. No início deste mês, Katz recusou aprovar uma lista de promoções anunciadas por Zamir – que incluía 14 oficiais promovidos a brigadeiro-general e vários outros cargos de alto comando – dizendo que o seu chefe de gabinete tinha mantido uma discussão sobre o assunto "sem coordenação e acordos prévios".
Democratas dos EUA com Israel
Entretanto, o Comité Nacional Democrata – órgão que controla o Partido Democrata dos Estados Unidos – rejeitou uma resolução que pedia o embargo da venda de armas a Israel e o reconhecimento do Estado palestiniano, exigindo um cessar-fogo imediato em Gaza. Ninguém estava à espera que a resolução fosse aprovada, mas esta foi a medida mais recente a expor profundas divisões dentro do Partido Democrata sobre Israel. De algum modo, é a primeira fissura no sólido edifício do apoio norte-americano a Israel, igualmente seguido sem hesitações tanto pelos republicanos como pelos democratas.
Foi apresentada uma resolução alternativa, que pedia um cessar-fogo e o aumento da ajuda humanitária em Gaza, a libertação imediata dos reféns e uma solução de dois Estados. No entanto, depois da rejeição da proposta mais ‘radical’, esta segunda foi retirada e não chegou a ser votada.