Dez anos depois da entrada no mercado imobiliário nacional, a iad Portugal demonstra ser uma aposta ganha do grupo sediado em França e que opera em mais seis territórios: Espanha, Itália, Alemanha, México, Reino Unido e Estados Unidos. Liderada no nosso país por Alfredo Valente, a empresa cresceu em todas as vertentes no ano de 2025 e quer continuar a sustentar, mas também reforçar a sua posição no mercado.
Em entrevista ao Jornal Económico (JE), o CEO faz um balanço dos dez anos de atividade em Portugal e da evolução que viu no mercado imobilário nesse período, abordando também a entrada da Inteligência Artificial (IA) no setor, bem como o impacto das mais recentes medidas do Governo no apoio ao acesso à habitação.
O volume de faturação superou as expetativas ou ficou abaixo do programado?
Os resultados consolidados de 2025 refletem um crescimento robusto e sustentado, em linha com as nossas expectativas e à luz do investimento contínuo que temos vindo a desenvolver na capacitação dos nossos consultores imobiliários e na expansão da rede a nível nacional, nomeadamente através de integrações e, mais notavelmente, da primeira operação de aquisição em Portugal.
Nesse período, vimos aumentar o número de consultores imobiliários independentes, que já ultrapassa os 1.000 profissionais, e obtivemos um volume de negócios de 22,3 milhões de euros, o que representa um crescimento de 37% face a 2024. No que refere aos imóveis transacionados, que se situaram nos 594 milhões de euros, face a 423 milhões de euros em 2024, registou-se um aumento de 40%.
O nosso crescimento em Portugal acompanhou o desempenho global do grupo iad, que encerrou o exercício com 450 milhões de euros de faturação em França e mais de 70 milhões de euros a nível internacional. A nível europeu, todos os países onde a iad opera, além de Portugal, registaram crescimento significativo, incluindo +40,5% em Espanha, +14,5% em Itália e +83% na Alemanha, reforçando a expansão internacional da rede e comprovando a relevância do nosso modelo de negócio inovador à escala global.
Que outros objetivos estão delineados para 2026?
Apesar de a nossa ambição apontar para crescimentos fortes, próximos dos 20%, o foco permanece em garantir um desempenho superior ao do mercado, privilegiando o reforço consistente da quota. A iad Portugal é, hoje, uma referência no setor imobiliário nacional, e pretendemos continuar a reforçar essa posição. Paralelamente, queremos consolidar a nossa presença a nível nacional, chegar a novos territórios e continuar a atrair talento empreendedor qualificado, contribuindo para a profissionalização do setor.
Que balanço faz destes 10 anos de atividade?
Quando a iad chegou a Portugal, em 2015, tínhamos uma missão muito concreta, o nosso propósito era implementar um novo modelo de negócio centrado em tecnologia e empreendedorismo, capaz de gerar uma transformação positiva no setor, tanto na ótica da otimização do serviço como na geração de oportunidades mais sólidas para os profissionais. Hoje, dez anos depois, essa visão não só se materializou, como está perfeitamente alinhada com aquilo que hoje vemos como o futuro do setor.
O que à data era percecionado como um modelo “alternativo” tornou-se progressivamente numa referência para a evolução do imobiliário, à medida que toda a sociedade se tornava mais digital. A iad Portugal é agora um ecossistema consolidado, com escala, tecnologia própria e, acima de tudo, uma forte componente humana, assente em flexibilidade e em estreita proximidade. É precisamente essa combinação entre inovação tecnológica e proximidade relacional que nos permite ocupar um lugar distintivo no mercado, e continuar a crescer.
Mais do que acompanhar o setor, temos a ambição de continuar a influenciar a sua evolução, porque acreditamos que o futuro se constrói com inovação, conhecimento, partilha de valor e capacidade de adaptação.
Que evolução viu no mercado imobiliário português durante este período?
O mercado imobiliário português viveu uma década de enorme dinamismo e sofisticação. Passámos de um contexto ainda marcado pela recuperação pós-crise para nos tornarmos num dos mercados mais atrativos da Europa, impulsionado por investimento internacional, turismo e novas dinâmicas urbanas, que viria depois a culminar numa crise habitacional, perante a escassez da oferta face à procura.
À medida que o mercado foi crescendo, em volume e em valor de transações, assistimos também a uma crescente profissionalização do setor, com maior transparência, mais exigência por parte dos clientes e uma crescente valorização do papel do consultor imobiliário enquanto especialista no processo de mediação. Paralelamente, a digitalização, parte do nosso ADN, deixou de ser opcional, tendo-se tornado estrutural.
Mesmo no atual contexto de grande incerteza geopolítica, assistimos a um mercado mais dinâmico, informado e competitivo, que exige modelos mais ágeis, como aquele que a iad Portugal representa.
Quais as vantagens e riscos da evolução da Inteligência Artificialno setor imobiliário?
Para nós, a digitalização sempre foi, acima de tudo, uma ferramenta de otimização voltada para as pessoas, libertando-as de tarefas operacionais e repetitivas para que se possam focar no que realmente cria valor, ou seja, a construção de relações, o aconselhamento especializado e o acompanhamento próximo dos seus clientes. Essa foi a nossa visão desde o início e, a meu ver, continua a ser um dos nossos principais fatores de diferenciação.
A Inteligência Artificial, em particular, tem sido absolutamente revolucionária, assumindo-se hoje como um motor de mudança não só operacional, mas estrutural. Hoje, em segundos, conseguimos simular a decoração de um imóvel, otimizar descrições comerciais, automatizar processos administrativos, qualificar leads ou até apoiar decisões com base em análises preditivas de mercado.
No entanto, há riscos que não podemos ignorar, como o impacto que a automatização de tarefas cada vez mais sofisticadas possa ter na desumanização do trabalho como hoje o conhecemos. Mas é importante lembrar que o imobiliário é, por natureza, um negócio de confiança indissociável de importantes momentos de vida. Se perdermos essa dimensão, perdemos forçosamente aquilo que nos distingue.
Existe também um desafio claro ao nível da capacitação, que é o facto de a tecnologia só criar valor se for bem utilizada, e que implica investir continuamente na formação dos profissionais para que saibam interpretar dados, usar ferramentas de forma crítica e manter uma abordagem ética, responsável e, sobretudo, humana.
Que impacto vai ter no modelo de negócio da IAD?
O impacto será, sobretudo, de aceleração e reforço da nossa atividade, e não de disrupção, já que a tecnologia é algo que nos acompanha desde a nossa origem, tendo sido integrada de forma muito consciente desde o primeiro momento. Como o nosso modelo é nativamente digital, escalável e orientado por dados, a Inteligência Artificial vem agora amplificar e otimizar estas características, e aumentar a competitividade e o desempenho dos nossos consultores.
Na iad Portugal, acreditamos que o futuro não será definido pela tecnologia isoladamente, mas pela forma como conseguimos integrá-la, porque se as novas ferramentas digitais libertam tempo, as pessoas dão-lhe sentido. É nesse equilíbrio que está, para nós, o verdadeiro futuro. Esta visão é a base do nosso posicionamento, porque não nos vemos como apenas uma rede imobiliária, mas como uma plataforma de empreendedorismo suportada por tecnologia, que vemos como um amplificador do talento humano, e nunca como um substituto.
Como olha para o futuro do setor imobiliário?
O contexto atual do mercado imobiliário é essencialmente mais exigente e sofisticado. Hoje, o consultor imobiliário já não é apenas um facilitador de negócios, é um parceiro e um especialista que assegura que os processos são cumpridos com transparência e confiança. À luz desta evolução, e olhando também para aquele que é atualmente o contexto geopolítico mundial, vejo o setor imobiliário a entrar numa fase de maturidade mais exigente, personalizada, digital e centrada no cliente.
A dimensão humana é um fator chave na escolha de casa, pelo que ter profissionais capacitados para antecipar necessidades, encontrar soluções e transmitir confiança é absolutamente fundamental. A especialização é também outro fator que poderá começar a tornar-se cada vez mais relevante, num setor altamente competitivo. Portugal deverá manter-se como um mercado relevante, tanto no contexto nacional, e em muito graças às medidas de apoio à habitação, como no plano internacional, o que exige que seja dada uma resposta estruturada e integradamaos desafios internos, como o desequilíbrio entre a atratividade externa e a acessibilidade interna.
Qual o impacto das medidas de apoio e acesso à habitação?
As medidas de apoio à habitação são absolutamente essenciais para apoiar as famílias portuguesas num cenário de aumento de preços, agravado pela atratividade externa de que falava há pouco. Este mecanismo de coesão social e de equilíbrio do mercado é fundamental, mas isoladamente não terá efeito pleno se não for acompanhado de um aumento sustentado do lado da oferta. O desafio da assimetria entre a oferta e a procura mantém-se, apesar de começarmos a assistir, finalmente, à entrada de nova construção no mercado, mas cujos efeitos ainda tardam em fazer-se verdadeiramente sentir.
Continua a ser necessário criar condições e confiança para construir mais, reabilitar mais e construir um mercado de arrendamento robusto e acessível, para que possamos aproximar-nos do equilíbrio que todos desejamos. Nesse processo, o setor assume também um papel de grande responsabilidade, contribuindo para maior transparência, melhor informação e uma intermediação mais qualificada, elementos essenciais para um mercado mais justo, equilibrado e funcional.