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Private Equity em segundo melhor ano de sempre com investimentos de 900 mil milhões em 2025

O setor de Private Equity viveu um autêntico "momento de viragem" em 2025. Após um período de estagnação, o mercado recuperou com força, registando o segundo melhor ano de sempre em valor de buyouts (aquisições de empresas). No entanto, por detrás dos números recorde, o "Global Private Equity Report 2026" da Bain & Company deixa um alerta: os dias de ganhos fáceis, impulsionados por taxas de juro baixas, ficaram no passado.

A Bain & Company publicou o seu Global Private Equity Report 2026 e uma das principais conclusões do relatório é que 2025 foi o segundo maior ano de sempre para a atividade de Private Equity (PE), tanto ao nível de investimentos como de saídas (exits) a nível global.

Os investimentos subiram acentuadamente para 900 mil milhões de dólares, o que traduz um aumento de 44% em relação a 2024 e faz do ano passado o segundo melhor ano de sempre em termos de valor empresarial.

Por outro lado, o valor dos desinvestimentos globais suportados por aquisições saltou 47% em termos homólogos, para 717 mil milhões de dólares, sendo também aqui o segundo melhor ano de sempre em termos de valor.

O relatório destaca o ressurgimento do private equity (PE) global que está a ganhar força após uma retoma na realização de negócios no ano passado, que viu tanto as operações de buyout quanto as saídas dispararem para registar os seus segundos maiores valores de sempre.

Após três anos anteriores de relativo marasmo, os avanços marcam um ponto de viragem para o PE e preparam o terreno para uma recuperação contínua em 2026 e nos anos seguintes, conclui o 17.º Relatório Global de PE anual da Bain & Company, lançado esta segunda-feira.

Mas o relatório alerta que o setor atinge um ponto de inflexão crítico, uma vez que a concorrência intensificada e exigências intensificadas dos investidores por alto desempenho desafia os fundos a oferecer estratégias diferenciadas e de elevado desempenho.

Em conversa com o Jornal Económico, Álvaro Pires, partner da Bain & Company, descreve o principal desafio que paralisou o mercado de fusões e aquisições (M&A) nos últimos anos e as razões para o otimismo depois dos dados de 2025.

"Portanto, que 2025 tenha sido um ano bom, ou o segundo melhor da história, é uma notícia muito boa para a indústria. Ou seja, há aqui uma criação do momento bastante mais positivo"

Álvaro Pires, partner da Bain & Company, explica que a indústria vinha de um contexto de "bastante dry power acumulado", e que em 2025 baixou de 1,3 biliões de dólares para 1,2 biliões de dólares, menos 100 mil milhões de euros. Isto significa que foi aplicado em investimentos esse "dry power".

Dry power refere-se a capital disponível e comprometido por investidores (LP - Limited Partners), mas que ainda não foi investido ou chamado pelos gestores do fundo (General Partners). É essencialmente dinheiro em caixa ou ativos de alta liquidez esperando por oportunidades de investimento ideais.

A acumulação de capital sem investimento deve-se à incerteza que se gerou com a crise da pandemia, "não havia deals", diz Álvaro Pires.

"Nesse contexto as transações nos últimos anos tinham de ser de grande qualidade. Mas a maior parte dos portfólios estava um bocado congelados ou parados à espera de dias melhores. A indústria evoluiu nessa altura para uma média de anos no portfólio bastante elevada", acrescenta.

"O tempo médio de permanência de um fundo no capital de uma empresa está em  4,5 anos. O que é bastante alto para a indústria, e se os fundos não vendem, também não distribuem. Por outro lado,  muitos dos investidores de private equity são reinvestidores e estão à espera dos retornos para reinvestir noutros fundos de private equity", explica o partner da Bain.

"Portanto, que 2025 tenha sido um ano bom, ou o segundo melhor da história, é uma notícia muito boa para a indústria. Ou seja, há aqui uma criação do momento bastante mais positivo", acrescenta.

Álvaro Pires refere ao Jornal Económico que assistiu-se a grandes empresas a investirem em fundos de private equity,  porque estão com balanços bastante sólidos liquidez para investir. "Portanto, essa situação levou a que se começou a haver compras por parte das grandes corporações de ativos de private equity", refere.

Outro fator positivo em 2025, segundo o partner da Bain & Company, é que o mercado de IPO começou a abrir nos Estados Unidos. "Depois, as taxas de juros baixaram e estabilizaram, o que foi muito importante", diz ainda Álvaro Pires.

"Temos muitos deals feitos em 2018, 2019,  2020, 2021, com taxas de juros muito baixas, e que agora precisam ser vendidos e as taxas de juros estão muito mais altas. Quando a dívida é zero, isso é gasolina para o private equity. Mas depois, o custo de financiamento aumentou muito e há aqui um desbalanço de financiamento entre o que compra e o que vende.  Esse foi um dos fatores que levou a que houvesse poucas transações nesses anos. Por quê?  Porque o que vende, comprou com financiamento barato, o que, tipicamente, levou a que ele tivesse mais disponibilidade para pagar um preço mais alto. Agora, os que compram, como têm financiamento mais caro, querem pagar um preço mais baixo.  Portanto, há aqui um mismatch", diz Álvaro Pires para justificar que esta foi também uma das razões que nos últimos anos levou a poucas transações.

O termo "mismatch" refere-se a uma distância entre a expectativa de quem vende e a realidade de quem compra, causada pela mudança drástica nas taxas de juro entre 2021 e 2024. O vendedor (Sell-side) comprou empresas entre 2018 e 2021, quando o dinheiro era "quase gratuito" (taxas próximas de 0%). Ora com financiamento barato, foi possível pagar preços muito elevados (valuations altas). Agora, para não ter prejuízo, o vendedor quer vender por um preço ainda maior do que pagou. Mas o comprador (Buy-side) enfrenta hoje taxas de juro muito mais elevadas. Como o custo de pedir dinheiro emprestado para comprar uma empresa subiu, o comprador tem menos capital disponível para o preço final. Para manter a rentabilidade, ele tem de oferecer menos.

Ou seja, muitos fundos de Private Equity têm um ciclo de vida de 3 a 5 anos para investir e vender as suas participações. Aqueles que investiram no "pico" (2020-2021) estão agora sob pressão para vender e devolver capital aos seus investidores, mas encontram um mercado onde os compradores não conseguem acompanhar os preços antigos devido ao custo de financiamento.

Em 2025 as taxas de juro estabilizaram e dessa forma estabilizou o preço de dívida, o que permite perspectivar melhor o deals a fazer.

Álvaro Pires diz quem em 2025 a dimensão dos negócios foi "um mix", lembrando que a Global Payments anunciou um acordo definitivo para adquirir a concorrente Worldpay por 24,25 mil milhões de dólares. "Há deals muito grandes que elevam o valor total do mercado. Mas, em geral, eu diria que o crescimento viu-se em todos os segmentos", disse.

"Em 2026 a subida do segmento da saúde e queda de tecnológia é uma tendência"

No que toca a setores, "healthcare, claramente, foi um setor bastante dinâmico. Pelo contrário um setor que começa a dar alguns sinais de travão é a tecnologia", explica. A justificar a queda de deals de tecnologia está o facto de "haver uma preocupação crescente que algumas aplicações ou funcionalidades no futuro, possam ser ultrapassadas por aplicações de AI, chat GPT e ao menor custo".

Em 2026 a subida do segmento da saúde e queda de tecnológia é uma tendência, diz o partner da Bain que antevê uma retoma antecipada de grandes transações no mercado de Private Equity este ano, após um período de estagnação causado por juros altos e incerteza económica.

Álvaro Pires espera o regresso dos chamados "mega-deals" — aquisições de empresas maduras e de grande dimensão (Large Caps), com valores superiores a 1 bilião de dólares (Revival Large Cap). O partner fala em fundos para corporações, ou seja, quando um fundo de PE compra uma divisão de uma grande empresa (spin-off) ou a própria empresa cotada em bolsa (Take-private); e em negócios entre fundos de private equity (Secondary Buyouts), quando um fundo de PE vende uma empresa do seu portfólio a outro fundo de PE.

"Vejo que há cada vez mais fundos internacionais, de Londres, americanos, europeus ou espanhóis, a olharem cada vez com mais atenção para o mercado português"

"Cada vez a indústria tem mais players e tem mais competição pelo que os ativos bons vão ter mais procura. Toda esta dinâmica é positiva para Portugal porque o contexto é favorável a que os fundos procurem oportunidades boas em todas as geografias", revela, acrescentando que "vejo que há cada vez mais fundos internacionais, de Londres, americanos, europeus ou espanhóis, a olharem cada vez com mais atenção para o mercado português que historicamente , não tem sido muito coberto".

"Há ativos grandes de fundadores que têm escala suficiente para atrair grandes fundos. Empresas com mais de 20 milhões de EBITDA. Acho que um exemplo desses foi a Logoplaste, que tem estado aberta a ofertas de investidores", referiu.

Depois a indústria nacional de fundos de Private Equity também tem crescido e investido em empresas mais pequenas, com 5 milhões de EBITDA, mas acabam por servir de plataforma muito boa para a internacionalização dessas empresas, explica. "Nós temos visto exemplos da Crest  a vender ativos a fundos europeus porque, cada vez mais, os fundos internacionais veem os fundos portugueses como uma boa origem de ativos. O que é positivo porque no fundo, o que falta para Portugal é mais pipeline de empresas", diz.

 

Mercado europeu com aquisições de 235 mil milhões e vendas de 240 mil milhões em 2025

No que toca ao mercado europeu a indústria de Private Equity viveu um "ano de transição" em 2025. Após um período de estagnação, o mercado (o valor de negócios e saídas) aproximou-se dos níveis recorde de 2021/2022, impulsionado por um segundo semestre de forte aceleração.

O ano passado acabou por ser de altos e baixos para o private equity, já que o ritmo acelerou significativamente no segundo semestre, com o valor do investimento a aumentar 59% e o valor de saída a aumentar 174% em relação ao segundo semestre de 2024.

O relatório da Bain diz que o valor total das transações de Buyout (aquisições de empresas) em 2025 atingiu os 235 mil milhões de dólares, enquanto o valor das saídas (exits) saltou para os 240 mil milhões de dólares — um crescimento homólogo de 65%.

O número de negócios caiu 6% em termos homólogos, indicando uma recuperação impulsionada mais por transações maiores do que por um volume maior.

A recuperação não foi no entanto uniforme, concentrando-se geograficamente na região DACH (Alemanha, Áustria e Suíça), que registou um aumento de 136% no valor dos negócios, seguida pelos Países Nórdicos (+124%) e Espanha (+56%).

O valor das aquisições (investimentos) aumentou cerca de 10% face ao ano anterior, para aproximadamente 235 mil milhões de dólares, impulsionado pela região DACH e pelos países nórdicos, por setores em crescimento como a saúde, os serviços públicos e a energia, e por negócios entre mil milhões e 10 mil milhões de dólares.

Nos investimentos o intervalo de mil milhões a 10 mil milhões de dólares apresentou assim o maior crescimento (+32% em relação ao ano anterior), enquanto os negócios acima de 10 mil milhões de dólares - ao contrário dos EUA, onde impulsionaram a recuperação - caíram para cerca de 5% do valor total (contra cerca de 12% em 2024; ou seja, uma queda de 56% em relação ao ano anterior), só com uma transação dentro deste escalão em 2025 (a TenneT Germany) o que compara com duas em 2024.

Ainda na Europa, em termos setoriais, os investidores privilegiaram nichos de crescimento e infraestruturas essenciais. O setor da Saúde liderou com um crescimento impressionante de 174%, acompanhado por Utilities e Energia (+39%). Em contraste, o setor tecnológico registou uma contração de 25% no valor investido, sinalizando uma maior cautela e foco em ativos com fluxos de caixa mais previsíveis.

"Os múltiplos de avaliação mantiveram-se estáveis em cerca de 11x na Europa Ocidental, enquanto o dry powder europeu atingiu os 325 mil milhões de dólares — um valor 15% acima da média dos últimos cinco anos, concentrado sobretudo em fundos levantados entre 2022 e 2023"

Segundo relatório os múltiplos de avaliação mantiveram-se estáveis em cerca de 11x na Europa Ocidental, enquanto o dry powder europeu atingiu os 325 mil milhões de dólares — um valor 15% acima da média dos últimos cinco anos, concentrado sobretudo em fundos levantados entre 2022 e 2023.

Apesar do abrandamento na captação de fundos (fundraising) verificado em 2025, o dry powder (capital disponível para investir) dos fundos europeus atingiu os 325 milhões de dólares no ano passado, o que traduz uma queda de 2% face a 2024, mas um aumento de 15% face à média dos últimos 5 anos. A maior parte do capital disponível (cerca de 60%) está concentrada nas consideráveis ​​​​safras de 2022-2023 (grupos de investimentos ou fundos iniciados nesses anos).

Isto significa que foi investido capital dos fundos que estava parado.

Nos desinvestimentos verificou-se que no mercado europeu o valor das saídas aumentou cerca de 65% em termos homólogos, para aproximadamente 240 mil milhões de dólares, impulsionado pelas saídas estratégicas, enquanto os volumes se mantiveram estáveis.

No que toca aos desinvestimentos no Private Equity na Europa, o relatório relata que as saídas foram impulsionadas pela força das vendas estratégicas (sponsor-to-strategic) que cresceram 82% num ano, seguido pelo canal seguido pelo 'sponsor-to-sponsor' (+56%). Já o número de saídas manteve-se praticamente estável (-1% num ano).

Ou seja, apesar do aumento no valor das saídas, impulsionado sobretudo por vendas estratégicas (sponsor-to-strategic), o volume de transações permaneceu estável.

Liquidez calcanhar de Aquiles na Europa

A liquidez continua a ser o "calcanhar de Aquiles" da indústria. As distribuições como percentagem do Valor Ativo Líquido (NAV) fixaram-se nos 15%, o quarto ano consecutivo abaixo das médias históricas. Este cenário levou a um prolongamento dos períodos de detenção dos ativos, que se aproximam agora dos sete anos.

"O valor das saídas aumentou cerca de 65% para cerca 240 mil milhões de dólares, impulsionado por vendas estratégicas, embora o volume de transações tenha estagnado. O tempo médio de detenção (hold period) aproximou-se dos 7 anos".

Portanto, apesar melhoria do ritmo de saídas, a liquidez manteve-se restrita na Europa em 2025, com períodos médios de investimento (permanência nas empresas) próximos dos 7 anos.

"O problema principal está no dinheiro que os fundos devolvem aos investidores (o chamado DPI -  Distributions to Paid-In Capital). Em anos recentes, analisando os fundos criados entre 2017 e 2021, os gestores têm entregado menos dinheiro do que o habitual em comparação com o passado", diz o relatório.

Por outro lado, e à medida que os períodos de investimento se expandem, os retornos caem.

O relatório alerta ainda para o impacto direto na rentabilidade. Embora o múltiplo sobre o capital investido (MOIC) possa crescer com mais tempo de gestão, a Taxa Interna de Rentabilidade (IRR) tende a enfraquecer após o sexto ou sétimo ano, pressionando os gestores (GPs) a acelerar a criação de valor.

O relatório da Bain & Company refere que "embora anos adicionais possam sustentar um MOIC (Multiple on Invested Capital) mais elevado através de melhorias operacionais, os dados ao nível do fundo mostram que o TVPI  (Total Value to Paid-In) tende a estabilizar após o oitavo ano, e a TIR (Taxa Interna de Rentabilidade) começa a diminuir logo no sexto ou sétimo ano, sublinhando a importância de acelerar a criação de valor no início do investimento".

Ou seja, embora manter uma empresa por mais tempo possa aumentar o retornp total através de melhorias operacionais, os dados mostram que o valor acumulado do fundo tende a parar de crescer após o oitavo ano. Além disso, a rentabilidade anual começa a cair logo ao sexto ou sétimo ano. Isto reforça que é fundamental acelerar o crescimento e a valorização da empresa logo no início do investimento.

Fundraising sob pressão na Europa

A captação de capital para aquisições caiu cerca de 40% face ao ano anterior, para aproximadamente 90 mil milhões de dólares, em grande parte devido à ausência de captações acima dos 5 mil milhões de dólares.

O relatório explica que a angariação de fundos (fundraising) permaneceu muito difícil, uma vez que as distribuições fracas continuaram a limitar a capacidade dos LPs (Limited Partners, ou investidores institucionais) de assumirem novos compromissos.

Limited Partners (LPs) são investidores passivos em fundos de private equity (geralmente investidores institucionais, fundos de pensão ou famílias de alto patrimônio). Por contraste com os General Partner (GP) que são as sociedade que gerem ativamente um fundo de investimento, assumindo responsabilidade total pelas decisões de investimento, operações e resultados.

Mas há boas notícias. Na Europa Ocidental, investir em fundos que compram empresas continua a dar mais retorno do que a bolsa, em todos os horizontes temporais e independentemente do tempo de espera. Já nos EUA, nos últimos 5 a 10 anos, a bolsa rendeu mais do que esses fundos (superam o buyout nas TIR a 5 e 10 anos) . Os melhores fundos (aqueles que estão acima da média) continuam a ganhar da bolsa em qualquer parte do mundo.

Portanto, no geral, a captação de capital no Private Equity na Europa aumentou ligeiramente para 338 mil milhões de dólares em 2025 (+4% em termos homólogos), mas, embora o volume total de dinheiro captado tenha crescido ligeiramente, a forma como esse capital foi distribuído entre as diferentes estratégias mudou drasticamente, já que houve uma mudança no tipo de investimento. Os fundos focados na compra de empresas já estabelecidas (buyouts) sofreram uma queda drástica de 43% em termos homólogos. Isto porque a subida das taxas de juro tornou o financiamento destas operações muito mais caro, reduzindo a rentabilidade esperada.

Uma década de baixas taxas de juro impulsionou mais de metade dos retornos de buyouts (aquisições) permitindo saídas, distribuições e captação de fundos (fundraising) mais céleres. Mas a conjuntura de juros baixos acabou.

Agora que os juros subiram e essa ajuda acabou, os problemas apareceram, sendo que os fundos mais bem adaptados apresentam um melhor desempenho e outros necessitam de reavaliar o seu posicionamento num ambiente mais desafiante.

Como os gestores de fundos não conseguiram vender as empresas que já possuíam (devido ao mercado de IPOs parado na Europa), os investidores não receberam o seu dinheiro de volta e, portanto, tiveram menos capital para reinvestir em novos fundos de buyout.

A conclusão é que o ano de 2025 foi um bom ano para alguns fundos, mas a recuperação manteve-se limitada à medida que os mercados normalizaram após o período excecionalmente favorável que teve o pico de atividade de fusões e aquisições em 2021.

A conclusão é também que na Europa, o ano de 2025 foi bom para alguns fundos, mas a melhoria não chegou a todos.

Por outro lado, os próximos dez anos não serão tão fáceis. Pois com juros mais altos e mais concorrência, os fundos têm de ser muito mais rigorosos a avaliar onde colocam o dinheiro e a provar que conseguem tornar as empresas mais valiosas.

A Bain defende que para ter sucesso agora, já não basta ter sorte ou esperar que o mercado suba. É preciso ter uma estratégia sólida, ser diferente da concorrência e ter um método de trabalho que funcione sempre, mesmo quando o cenário é difícil.

Mercado Global de Private Equity

Após um período de estagnação, o mercado recuperou com força, registando o segundo melhor ano de sempre em valor de buyouts (aquisições de empresas), impulsionado em parte por transações superiores a 10 mil milhões de dólares nos Estados Unidos . O valor total aproximou-se do recorde de 2021.

Os investimentos subiram acentuadamente para 900 mil milhões de dólares, o que traduz um aumento de 44% face a 2024 e o segundo melhor ano de sempre em valor de transações. Já o valor global de desinvestimentos apoiadas por buyouts cresceu 47% em termos homólogos para 717 mil milhões de dólares, o segundo melhor ano de sempre em valor de saídas.

O relatório "Bain’s Global Private Equity Report 2026" destaca que apesar de 2025 ter sido um ano de viragem, com o valor de buyouts próximo dos recordes, subsistem desafios acrescidos na angariação de fundos e saídas.

A captação de recursos (fundraising) continuou difícil, uma vez que as fracas distribuições líquidas continuaram a limitar a capacidade dos LPs (Limited Partners) de assumirem novos compromissos.

Geralmente, o Private Equity rende mais que a bolsa, mas, e apesar de a longo prazo os retornos de buyout continuarem a superar os mercados de ações, períodos mais recentes mostram as ações dos EUA renderam mais do que a média destes fundos. Apenas os melhores fundos (os de topo) mantêm uma vantagem clara.

Os fundos de buyout do primeiro quartil mantêm o seu claro desempenho superior. Além disso, o private equity continua a proporcionar uma diversificação substancial face a outras classes de ativos em termos de exposição a empresas e setores, defende a Bain.

Torna-se claro que o ambiente de mercado para a realização de negócios está mais desafiante do que nunca. Alcançar os retornos pretendidos exige uma mudança estrutural no underwriting (análise de risco) dos negócios e na criação de valor, acrescenta.

“A boa notícia é que 2026 está a revelar-se promissor. As taxas de juro estão a descer, ainda que lentamente, e os pipelines de negócios estão bem abastecidos. Com os preços das ações elevados e a economia robusta — e salvo outro choque inesperado do tipo 'cisne negro' — as condições para a atividade de negócios e saídas são mais favoráveis do que têm sido há algum tempo”, afirmou Hugh MacArthur, presidente da prática global de Private Equity da Bain & Company.

“Por baixo da recuperação das manchetes, porém, existe uma realidade subjacente mais desigual — e muito trabalho ainda por fazer. O valor dos negócios tem estado altamente concentrado em mega negócios, favorecendo alguns grandes players. Muitos GPs continuam a enfrentar pressões de períodos de detenção mais longos, distribuições restritas e condições de captação de recursos que estão entre as mais difíceis que a indústria já experimentou. Com o fim dos ventos favoráveis que impulsionaram o setor na década de 2010, a dinâmica atual exige que a maioria dos players eleve substancialmente o seu jogo na criação de valor", acrescenta.

"A indústria está retida num ciclo de baixa rotatividade de capital.  Existem a nível global 32.000 empresas em carteira que ainda não foram vendidas, representando um valor de 3,8 biliões de dólares"

O relatório diz que mesmo com o salto no valor das saídas (exits) registado no ano passado, os montantes de capital que regressam aos investidores Limited Partners (LP) continuam a desapontar, travando a revitalização do Private Equity (PE).

"A métrica fundamental para isto — as distribuições aos LPs como percentagem do valor líquido dos ativos (NAV) — permanece estagnada abaixo dos 15% há quatro anos consecutivos, estabelecendo um recorde no setor. Este impasse de liquidez na indústria surge numa altura em que detém um stock de 32.000 empresas por vender, avaliadas nuns impressionantes 3,8 biliões de dólares, observa a Bain.

No caso dos fundos de buyout, os períodos de detenção no momento da saída rondam agora os sete anos — acima da média de cinco a seis anos verificada entre 2010 e 2021. Por sua vez, o atraso nas distribuições aos LPs é o principal motor da progressão lenta e difícil que muitas gestoras de Private Equity enfrentam na angariação de novos fundos, conclui a análise.