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Nestlé aposta no café, nutrição e petcare e desinveste nos gelados e água engarrafada

A multinacional suíça Nestlé anunciou uma transformação estratégica, concentrando-se no negócio do café, nutrição e petcare, enquanto se afasta de gelados e água engarrafada por serem um motivo de "distração do foco". O objetivo é acelerar o crescimento, aumentar a eficiência e reforçar marcas de alto potencial global.

 

A Nestlé, empresa multinacional do setor alimentar e bebidas quer acelerar a transformação do seu portefólio e concentrar-se nas áreas onde vê maior crescimento e rentabilidade. Nos resultados anuais de 2025 e na atualização estratégica divulgada em Vevey, na Suíça, o grupo anunciou que vai focar o negócio em quatro pilares: café, nutrição humana e animal (petcare) e posições regionais fortes em alimentação e snacks, enquanto continua a sair de segmentos considerados menos estratégicos, como os gelados e a água engarrafada.

As áreas prioritárias, lideradas pelas categorias de café, petcare e nutrição, representam já cerca de 70% das vendas globais, refletindo a aposta nas marcas mais fortes e nos segmentos com maior potencial de crescimento. No segmento alimentar, a empresa pretende simplificar o portefólio e racionalizar marcas.

Os negócios de Café e Petcare continuam a afirmar-se como potências globais, sustentados por marcas de referência: no café, incluem-se Nescafé, Nespresso e Starbucks; no segmento Petcare, destacam-se Pro Plan, Purina ONE e Friskies. Na Nutrição, está em curso a criação de uma terceira potência global através da integração das unidades de Nutrição com a Nestlé Health Science, um movimento que deverá reforçar o foco estratégico, simplificar estruturas e gerar sinergias capazes de acelerar o crescimento.

Saída dos gelados e da água

No segmento de Alimentos e Snacks, prossegue uma gestão disciplinada do portefólio, assente na racionalização direcionada de marcas. Este processo inclui negociações avançadas para a venda dos restantes negócios de gelados à Froneri. A multinacional confirmou que está em negociações avançadas para vender o seu negócio remanescente de gelados à Froneri, parceira criada em conjunto com a PAI Partners. A empresa já tinha separado grande parte desta atividade nos últimos anos.

Philipp Navratil, CEO da Nestlé, afirma que “há momentos em que decidimos que focar significa sair de alguns negócios”, salientando que o negócio de gelados é “forte, mas pequeno, e é uma distração para nós”. Caso o negócio vá para a frente a Nestlé já avançou que não pretende sair da joint venture, que está avaliada em cerca de 15 mil milhões de euros, como já havia noticiado o jornal económico.

Já na Nestlé Águas e Bebidas Premium, foi iniciado no primeiro trimestre de 2026 um processo formal de contacto com potenciais parceiros, prevendo-se que o negócio venha a ser desconsolidado a partir de 2027.

Crescimento moderado num contexto difícil

No final de 2025, a Nestlé anunciou que irá reduzir globalmente cerca de 16  mil colaboradores até 2027 (cerca de 15 200), incluindo 12 000 quadros superiores (cerca de 11 400), com uma poupança operacional anual prevista de 1 000 milhões de francos suíços (cerca de 950 milhões de euros) até 2027. Até agora, já conseguiu 20% das poupanças previstas, adiantando-se ao plano. Com o programa de poupanças em compras, a empresa espera alcançar 3 000 milhões de francos suíços (cerca de 2 850 milhões de euros) até 2027.

Quanto às vendas, em 2025 atingiram 89,5 mil milhões de francos suíços (cerca de 98 mil milhões de euros), uma queda de 2% em termos reportados, penalizadas pelo efeito cambial. O crescimento orgânico foi de 3,5%, sustentado por aumentos de preços de 2,8% e crescimento real interno de 0,8%.

O lucro líquido situou-se nos 9,033 mil milhões de francos (9,9 mil milhões de euros), menos 17% do que no ano anterior. A margem operacional subjacente fixou-se em 16,1%, pressionada por custos mais elevados, mas em linha com as previsões da empresa.

Por categoria, confeitaria e café foram os maiores impulsionadores do crescimento orgânico. Por região, os mercados desenvolvidos cresceram 2,3%, equilibrado entre preço e volume, e os mercados emergentes 5,4%, maioritariamente devido ao aumento de preços. Por canal, o crescimento orgânico foi 3,4% no retalho e 5,4% fora de casa. O e‑commerce cresceu 13,5%, representando 20,5% das vendas totais do grupo.

A Nestlé está a reforçar o investimento em marketing e inovação e vai aumentar o financiamento das suas plataformas de crescimento, que já representam 30% das vendas e registam crescimentos anuais entre cerca de 7% e 9%, bem acima do ritmo médio do grupo. Só em 2026, serão investidos mais 600 milhões de francos (630 milhões de euros) nestas áreas. No comunicado destacam o café gelado, os produtos terapêuticos e suplementos para animais de companhia, a nutrição médica e o KitKat.

Ao mesmo tempo, a empresa continua a executar um programa de eficiência, tendo já alcançado 20% das poupanças anuais previstas de 1.000 milhões de francos (1,05 mil milhões de euros) em custos administrativos.

A integração da divisão de Nutrição com a Nestlé Health Science visa reforçar a liderança na categoria e gerar sinergias. Com esta reorganização, Anna Mohl deixará a comissão executiva no final de fevereiro de 2026.

Perspetivas para 2026

Para 2026, a Nestlé prevê um crescimento orgânico entre 3% e 4%, com aceleração do crescimento real interno e melhoria da margem operacional ao longo do ano. Philipp Navratil, CEO da Nestlé, diz em comunicado: “Estou otimista com o nosso desempenho durante 2025, que reflete as ações direcionadas que tomámos num ambiente externo desafiador”. O responsável destaca ainda que “o crescimento real interno foi positivo em todas as zonas e negócios globais”, acrescentando que a empresa aumentou o investimento em marketing, alcançou uma margem operacional de 16,1% e geraram 9,2 mil milhões de francos suíços (cerca de 9,5 milhões de euros) em fluxo de caixa.

Navratil afirma ainda que estão a acelerar a estratégia, explicando que o grupo está a concentrar o portefólio em quatro negócios, liderados pelas marcas mais fortes. Estão também a reforçar o marketing e inovação e a aumentar o investimento em plataformas de alto potencial de crescimento, que representam 30% das vendas. Acrescenta que a empresa está a intensificar eficiências e a fortalecer a posição financeira, sustentada por “uma cultura de desempenho que recompensa a excelência e os resultados”.

Apesar dos progressos, reconhece que embora ainda haja muito a ser feito, estão confiantes de que uma execução mais rápida e uma estratégia mais focada irão permitir uma melhoria sustentada em 2026 e nos anos seguntes. Num setor alimentar em rápida transformação, a Nestlé procura assim recentrar-se no essencial — e fazê-lo com escala global.

Com a formação da nova unidade de negócios integrada de Nutrição, a estrutura de Gestão Global de Negócios da Nestlé Health Science será extinta. Anna Mohl, CEO da Nestlé Health Science, deixará o Conselho Executivo em 28 de fevereiro de 2026 e optou por procurar oportunidades fora da Nestlé.