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Primeiro-ministro britânico em viagem de risco à China

Desde 2018 que nenhum primeiro-ministro britânico visita oficialmente a China. Keir Starmer tenta resgatar o bom entendimento tradicional com o Império do Meio, apesar de saber que pode expor-se à ira de Washington.

O primeiro-ministro britânico, o trabalhista Keis Starmer, chegou esta terça-feira à China para uma visita oficial de três dias, oito anos após a última estada de um chefe de governo do Reino Unido no Império do Meio – no mesmo período de tempo, o presidente francês, Emmanuel Macron, esteve ali três vezes. Leva na bagagem a possibilidade de fechar acordos com impacto na depauperada economia do seu país – de que precisa ‘desesperadamente’ para tentar induzir o crescimento da economia britânica, mas também, por essa via, para ‘salvar’ o seu lugar, ameaçado tanto pela oposição como pela esquerda do seu próprio partido, que o acusa de assumir sem qualquer resultado palpável uma agenda liberal demasiado próxima dos conservadores.

A viagem é em si um risco político que Starmer com certeza calculou. É que, apesar de Londres exibir tradicionalmente uma relação especial com os Estados Unidos, nomeadamente na área da economia, os entendimentos com a atual administração da Casa Branca, liderada por Donald Trump, pouco de substancial têm trazido aos britânicos. É verdade que as tarifas impostas por Trump ao Reino Unido são de apenas de 10% - um terço mais suaves que os 15% impostos ao conjunto da União Europeia – mas ainda nada de muito substancial daí saiu. O primeiro-ministro britânico sabe que a viagem à China pode despertar a ira de Trump – exatamente como aconteceu com o primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, que esteve quatro dias no Império do Meio já este mês. Na sequência dos acordos assinados entre o Canadá e a China, Trump ameaçou aumentar as tarifas aos produtos importados do Canadá até aos 100%. Nada indica, antes pelo contrário, que com o Reino Unido não possa acontecer o mesmo.

Mas o ‘desespero’ de Starmer em dar um impulso positivo à economia do seu país é mais forte que o temor que o inquilino da Casa Branca lhe possa causar. Até porque o Reino Unido é de há muito um parceiro privilegiado também no caso da China. De facto, desde que a transferência de Hong Kong do Reino Unido para a China correu a contento das partes (apesar das críticas posteriores de Londres à falta de liberdade dos cidadãos do enclave na sequência das maciças manifestações de 2019 e 2020), que os dois países têm mantido alguma proximidade.

Do outro lado, quando Starmer e os seus antecessores tentaram transformar o entendimento especial com os Estados Unidos em algo de economicamente palpável, nunca conseguiram, com Trump, chegar muito longe. Para os anais ficará para sempre a forma pouco simpática, para se dizer o mínimo, como Trump tratou, no seu primeiro mandato, a então primeira-ministra Theresa May.

É este, portanto, o ‘risco calculado’ com que Keir Starmer começa a visita à China. A China e o Reinos Unido são parceiros comerciais importantes. Desde longa data, as relações comerciais entre os dois países mantêm um desenvolvimento estável. Segundo salienta a imprensa chinesa na preparação da visita, em 2025, o volume total de comércio bilateral ultrapassou 103,7 mil milhões de dólares, com o volume dos serviços a chegar aos 30 mil milhões de dólares; e o stock de investimento nos dois sentidos situou-se em cerca de 68 mil milhões.

Segundo a imprensa britânica, Starmer será acompanhado na visita por um grupo composto por representantes provenientes de 50 grandes empresas britânicas dos setores financeiro, farmacêutico, industrial e da área da inovação, o que representa as elevadas expectativas do país no aprofundamento das relações comerciam bilaterais com a China. O império do Meio é o terceiro maior parceiro comercial do Reino Unido e a China é responsável por 370 empregos britânicos.

Mas Starmer enfrenta ainda contestação à visita no seu próprio país. Os conservadores acusam o primeiro-ministro de subserviência aos interesses chineses, numa altura em que o contexto geopolítico aconselha exatamente o contrário. Por estes dias, tem sido alvo de forte controvérsia o facto de o Estado Chinês estar a construir em Londres um mega-edifício onde irá instalar a embaixada – e que será povoada por cerca de 200 funcionários. Parte deles, dizem os conservadores, serão com certeza espiões.