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Páscoa. Algarve com ocupação acima de 80%, mas "apreensivo com efeito da guerra nos combustíveis"

Presidente do Turismo do Algarve assume um acelerar de reservas nas últimas semanas. André Gomes alerta que os empresários da região estão “a engolir os custos” para não aumentar os preços por causa do conflito no Médio Oriente, mas que o cenário mudar com o prolongar da guerra.

Com otimismo e confiança, mas ao mesmo tempo com um sentimento de apreensão. É desta forma que o presidente da Região do Turismo do Algarve (RTA) olha para o período da Páscoa que se aproxima, mas com um olho no conflito que tarda em terminar no Médio Oriente. Em entrevista ao Jornal Económico (JE), André Gomes aborda as consequências da guerra para o setor do turismo e faz um balanço do primeiro trimestre do ano na região e deixa criticas sobre a forma como o Governo olha para o Algarve, nomeadamente nas questões da habitação e na revisão dos instrumentos de gestão territorial.

Quais são as expetativas para o período da Páscoa?

São positivas, acima de tudo, alavancadas naquilo que é a confiança, a estabilidade, a segurança, a diversidade e a qualidade da oferta do Algarve. Estamos com taxas de ocupação superiores a 80% em muitos dos concelhos da região. Normalmente no período da Páscoa, o Algarve tem sempre uma grande apetência por parte da visita daqueles que são os seus principais mercados, logo à partida o mercado nacional que mais uma vez reforça a sua importância para o Algarve.

Em janeiro tivemos a capacidade não só de crescer em valor, mesmo com menos atividade, crescemos 3% em proveitos, e 1,7% tanto em hóspedes como dormidas a nível do mercado nacional. São ótimos sinais no que diz respeito àquilo que é a apetência por parte dos portugueses em continuar a viajar para a região, em particular na Páscoa.

Que impacto pode ter o conflito no Médio Oriente?

Temos visto um acelerar de reservas nas últimas duas semanas, mas também é verdade que as pessoas quando fazem reservas não dizem que tinham reserva para o Dubai, cancelaram e agora vieram para o Algarve. Também estou a registar como positivo que não estamos a verificar uma subida de preços como aquelas que viemos a verificar nos últimos anos.

Também temos aquela que tem sido a tendência já perfeitamente confirmada desde a Covid, das pessoas fazerem reservas mais em cima da hora, à espera de verem como é que está o tempo, se arranjam melhor preço ao nível do hotel, de alguma promoção.

Mas sinceramente, neste momento estou mais apreensivo por aquilo que podem ser os efeitos desta guerra ao nível da subida do preço dos combustíveis. Porque aí sim, impacta de uma forma inequívoca tudo na vida das pessoas, na atividade turística, na conectividade e se neste momento ainda oiço alguns empresários da região dizerem que "estão a engolir os custos", se isto perdurar, não sei durante quanto tempo vão conseguir engolir esses custos e não aumentar os preços.

Estou otimista e confiante com aquilo que vai ser o desempenho da atividade, quer na Pascoa, quer no futuro, mas também com alguma cautela e apreensão em função de que não se sabe quanto tempo mais é que pode durar este conflito.

Essas taxas acima de 80% falamos de que municípios?

Estamos a falar daqueles onde temos maior concentração do ponto de vista da nossa oferta hoteleira: Albufeira, Loulé, Portimão, que por norma são os mais procurados.

Como analisa este primeiro trimestre?

Tenho poucas dúvidas que do ponto de vista daquilo que é um setor tão importante para a economia nacional, poderemos não ter tido o melhor arranque do ano em função das condições climatéricas. Mas estamos em crer que temos tudo para, durante o ano, recuperar eventualmente um ligeiro atraso que possamos ter no início do ano. Não só o Algarve, mas a nível nacional.

Estas tempestades podem mudar o paradigma do turista internacional sobre Portugal?

É daqueles fatores de risco que implicam com a nossa atividade e acho que vão implicar cada vez mais no futuro. A questão das alterações climáticas é completamente incontrolável, mesmo naquilo que foram as críticas feitas em relação à resposta dada pelo Governo.

Com estas alterações climáticas que estratégias tem o Algarve para continuar a atrair turistas?

Acho que vem reforçar aquilo que tem sido a estratégia que temos vindo a seguir nos últimos anos que é demonstrar claramente que o Algarve é muito mais do que sol, praia e golfe. É um destino de ano inteiro, de todo o território, litoral, interior.

Temos apostado em duas vertentes. Por um lado, a aposta naquilo que é a diversificação da oferta, com aposta no turismo de natureza. O turismo náutico sabemos que é muito importante para a região na perspetiva da atração não só dos grandes eventos, mas também dos congressos também fora da época alta.

Por outro lado, a aposta na diversificação daquilo que são os nossos mercados emissores. O mercado nacional contribui muito para isso. As segundas residências dos portugueses na região, a possibilidade que os portugueses têm de em qualquer fim de semana prolongado vir até ao Algarve.

Mas depois também a aposta em outros mercados, até para além daquilo que são os nossos mercados mais consolidados, como o britânico, o irlandês ou o holandês, que continuam a procurar muito a região na época alta.

Mas claramente estamos a apostar em mercados como o norte americano, o canadiano, o norte e centro da Europa, muito alavancado naquilo que é a captação de novas rotas e da conectividade que temos conseguido obter através do aeroporto de Faro. São mercados, onde muitos deles nem sequer têm apetência para viajar fora na época alta.

Termina este ciclo como presidente em 2028. O que falta fazer?

Ainda falta fazer muito. Não obstante termos concretizado já muitos dos objetivos a que nos propusemos quando nos candidatamos em 2023, ainda temos muito trabalho a fazer.

Prosseguimos com os objetivos que temos estipulados no nosso plano de marketing estratégico, nomeadamente a redução da sazonalidade. Terminamos 2025 com a taxa de sazonalidade mais baixa da história do turismo do Algarve, é algo que nos satisfaz bastante, conseguimos reduzir 5% a taxa de sazonalidade das dormidas entre 2015 e 2025, baixámos de 45% para 40%.

Isto mostra bem aquilo que tem sido a capacidade de todos os agentes do setor público, privados, empresas, municípios e associações em coordenação connosco, de contribuirmos para essa redução da taxa de sazonalidade. Esse é claramente um dos desafios que temos que continuar a prosseguir.

Na gestão dos fluxos turísticos também vemos bons sinais. Há um ou dois anos atrás, quando apresentámos a revisão do nosso plano de marketing estratégico, vimos que em 2024 tivemos 21 milhões de dormidas e 70% estavam concentradas em apenas três dos 16 municípios: Albufeira, Loulé e Portimão.

Fechámos 2025 e o peso destes três municípios, apesar dos seus presidentes de câmara, eventualmente poderem não gostar muito desta novidade reduziu para 63%. Isto quer dizer claramente que quando conseguimos crescer em atividade naquilo que são os números globais de 2025, conseguimos distribuir a atividade por todo o território, dando a conhecer os municípios do interior, vendo crescimentos exponenciais em outros municípios da região, que não só Albufeira, Loulé, Portimão.

Além das alterações climáticas, que outros desafios considera priotários resolver?

Tenho que acrescentar aquilo que são os desafios transversais, não só ao Algarve e ao setor do turismo, mas a Portugal. Desafios como a questão da habitação, a mobilidade. Continuamos a ter o desafio de qualificar a nossa mão de obra, mas creio que temos encontrado respostas, quer ao nível da qualificação dos recursos humanos que temos, quer ao nível da integração também de novos recursos humanos que precisamos para trabalhar na região.

Mas, claramente, a questão da mobilidade e da habitação é fulcral para uma região como o Algarve, que durante anos tem conhecido um défice muito grande de investimento estrutural por parte do Estado.

Parece-me incompreensível que, estando em 2026 e tendo terminado uma eletrificação da linha ferroviária na região por altura das últimas eleições legislativas, neste momento ainda não temos nenhum material circulante, não temos testes efetuados, não temos nada a trabalhar ainda na região do Algarve.

Temos uma Via do Infante que volvido um ano sem portagens, está com um nível de degradação. Não se compreende como é que o Estado, as concessionárias, não investem ao nível daquilo que é a pavimentação do piso.

Urgem soluções de mobilidade que nos permitam precisamente fazer com que não só os residentes e trabalhadores da região, mas também os turistas que nos visitam, circulem por toda a região algarvia.

A questão da habitação. Acha que o Governo olha para o Algarve como uma região de turismo e férias?

Infelizmente, acho que isso é histórico. O Algarve só é lembrado e reconhecido por parte dos governos na altura do verão, em agosto, quando muitos dos membros dos governos, vêm cá passar férias, mas esquecem-se que o Algarve é uma região de ano inteiro.

É uma região que tem apenas meio milhão de população residente, é um défice que tem e por isso precisamos de soluções de habitação para fixarmos mais residentes, mais jovens na nossa região, para podermos receber mais trabalhadores para os diversos setores de atividade que temos na região, não só no turismo, mas a nível da saúde, da educação, da segurança.

Precisamos de respostas ao nível da habitação e para isso, creio que os municípios em particular, mas também algumas entidades regionais, têm um papel fundamental, porque são de facto elas que têm a competência na gestão dos instrumentos dos territórios. E parece-me também a esse nível, incompreensível que tenhamos estado nos últimos 20 anos com esses instrumentos de gestão do território por rever, suspensos.

De que instrumentos falamos?

Estamos a falar de planos regionais alguns deles antes do ano 2000. É incompreensível que estejamos tantos anos com limitações impostas por estes instrumentos de gestão do território, que urgem ser revistos e adaptados àquilo que são as necessidades da região, mantendo o foco naquilo que é não só a preservação do território natural, que é claramente uma das nossas principais joias.

Fomos abençoados porque temos cerca de 40% do nosso território protegido de alguma forma por parque natural e isso é claramente também um grande ativo que a região tem. É isso que nos tem permitido também trabalhar muito, nomeadamente o turismo de natureza.

Mas também há que olhar para aquilo que são as necessidades das nossas comunidades, dos residentes, dos serviços, para dar respostas e para que a região possa efetivamente continuar a crescer e dar o contributo que tem dado para a economia nacional.

O volume de investimento para este ano é superior a 2025?

Em termos daquilo que são os nossos orçamentos é ligeiramente superior, não ao nível daquilo que é o Orçamento de Estado. É uma crítica que vou continuar a fazer. As verbas para as entidades regionais de turismo continuam a ser as mesmas desde 2016, ao cêntimo.

Basta pensar na taxa de inflação para perceber que, por via do Orçamento de Estado, o Governo está a cortar a capacidade das entidades regionais de fazer mais trabalho com todos os agentes do setor, reconhecendo aquilo que é a capacidade que as entidades têm para trabalhar a este nível.

Acho que não há uma entidade tão representativa de uma região e de um setor tão primordial para a região como é a Entidade Regional de Turismo do Algarve. Temos na nossa Assembleia Geral 16 municípios, 14 associações representativas dos diversos segmentos da atividade turística na região, os sindicatos.

Infelizmente do ponto de vista do financiamento do Orçamento de Estado, continuamos a perder capacidade todos os anos. Felizmente, fruto daquilo que tem sido a ação do nosso Secretário de Estado [Pedro Machado], mas também por força daquilo que tem sido a disponibilidade por parte do Turismo de Portugal temos vindo a ver a capacidade de reforçar as nossas verbas para a promoção por essa via.

Reconheço muito aquilo que é o trabalho, a dedicação, o empenho das nossas equipas ao nível do turismo do Algarve, que trabalham diariamente para fazerem deste destino reconhecido do ponto de vista internacional e nacional.

Mas vejo a incapacidade de valorizarmos esses recursos humanos do ponto de vista da progressão na carreira, do ponto de vista da retribuição, até do ponto de vista salarial, precisamente por aquilo que são as limitações que o Orçamento de Estado nos coloca.

Qual o valor do orçamento para este ano?

Grosso modo, entre Orçamento de Estado, Turismo de Portugal e algumas candidaturas a fundos europeus que vamos buscar estamos a falar entre sete e oito milhões de euros. Cerca de mais meio milhão, mais coisa menos coisa face ao ano anterior.

A componente desportiva, não só com o golfe e Moto GP, mas com o regresso da Fórmula 1 no próximo ano é uma das grandes apostas da região?

Sem dúvida. Aliás, foi um compromisso que assumimos precisamente na altura da minha eleição e uma das grandes apostas que esta Comissão Executiva decidiu fazer, que é a captação dos grandes eventos internacionais.

O regresso da Fórmula 1 era algo que almejávamos desde a pandemia. Tivemos a oportunidade de receber a prova dois anos seguidos e desde essa altura que a porta se manteve aberta. A concretização desse facto para 2027 e 2028 é extremamente satisfatório.

De salientar já este ano o regresso do Algarve aos grandes palcos mundiais do golfe com o PGA Tour Championship, que irá decorrer nos próximos cinco anos. A partir de outubro vamos voltar a receber os grandes eventos equestres em Vilamoura, com uma forte aposta e um grande investimento por parte de privados na reconversão e requalificação de todo o Centro Hípico.

Estes grandes eventos permitem-nos trabalhar, quer a marca Algarve, quer a marca Portugal em mercados tão longínquos e importantes ao nível daquilo que é o acrescento de valor que podem trazer para a atividade na nossa região, como por exemplo os Estados Unidos e o Canadá.