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Crise energética: UE pede contenção no consumo e prepara pacote semelhante a 2022

O Comissário Europeu da Energia quer saber o que pode fazer cada Estado-membro para induzir um corte no consumo: a fatura das importações cresceu 14 mil milhões . Em 2022, houve um teto para o preço do gás, entre outras medidas. Um encontro do G7 sobre o tema foi basicamente inconclusivo.

Num contexto em que o aumento dos preços das energias fósseis a partir de 28 de fevereiro já acrescentou 14 mil milhões de euros à fatura das importações da União Europeia, a enorme dependência energética da Europa não dá qualquer margem de manobra: perante uma crise global, a única saída é reduzir o consumo, a que se devem acrescentar  outros paliativos, como sejam a diversificação de fornecedores. Foi essa a conclusão a que chegaram os ministros da Energia da União Europeia, que, esta terça-feira, reuniram de urgência para discutir a segurança do aprovisionamento energético no quadro do conflito no Médio Oriente.

É neste contexto que a União Europeia está a considerar retomar as medidas com que enfrentou a crise energética de 2022, quando a Rússia reduziu drasticamente o fornecimento de gás. O Comissário Europeu da Energia e Habitação, Dan Jorgensen, disse que os planos do bloco incluíam propostas para reduzir as tarifas de rede e os impostos sobre a eletricidade. "Não sabemos quanto tempo esta crise vai durar. E como não sabemos a sua profundidade, também estamos a preparar diferentes oportunidades e possibilidades semelhantes às que utilizámos durante a crise de 2022", afirmou.

A União introduziu um conjunto de políticas de emergência em 2022, que incluíam um teto para os preços do gás em todo o bloco, um imposto sobre os lucros extraordinários das empresas de energia e metas para reduzir a procura de gás. Jorgensen afirmou que a guerra com o Irão provavelmente causará uma "interrupção prolongada" nos mercados de energia. "Não será algo breve, porque mesmo que houvesse paz amanhã, ainda haveria consequências, já que a infraestrutura energética da região foi destruída pela guerra", disse. Jorgensen afirmou que Bruxelas estava particularmente preocupada, a curto prazo, com o fornecimento europeu de produtos petrolíferos refinados, como o combustível de aviação e o gasóleo.

Depois do encontro, a União Europeia aconselha vivamente os governos a reforçarem a poupança de energia e a explorarem alternativas que lhes permitam subtrair-se à pressão sobre o abastecimento. O Comissário Europeu da Energia e Habitação, Dan Jorgensen, que liderou o encontro pediu às capitais dos Estados-membros que encontrem formas de reduzir o consumo de petróleo e gás, particularmente nos transportes. O quadro é de crise profunda e com tendência a aumentar – dado que não há nenhuma evidência de que o fim da guerra esteja próximo – e a União prepara-se para potenciais interrupções no fornecimento devido ao fecho do Estreito de Ormuz.

A União quer saber qual é o ‘estado da arte’ de cada Estado-membro, pelo que o Comissário quer que os ministros da Energia apresentem um relatório sobre a capacidade atual do mercado e proponham ações práticas para conter a procura. A escassez global é da ordem dos 11 milhões de barris de petróleo por dia e de mais de 300 milhões de metros cúbicos de gás natural liquefeito (GNL) diariamente. O consumo de petróleo na Europa anda aproximadamente entre 13 e 15 milhões de barris por dia e de aproximadamente 500 milhões de m3 de GNL diários.

Bruxelas quer que os governos da União também foram aconselhados a garantir o armazenamento adequado de GNL para o próximo inverno, sem provocar aumentos de preços ou perturbações no mercado – o que parece ser basicamente uma quadratura do círculo impossível de executar.

Portugal mais bem preparado

Portugal defende uma abordagem centrada na poupança de energia e no reforço das renováveis, numa lógica de resposta estrutural à crise. No plano industrial, o país pretende colocar na agenda a necessidade de apoio aos setores mais intensivos em energia, como cimento, vidro ou cerâmica, que enfrentam maiores dificuldades de eletrificação.

A ministra do Ambiente e da Energia, Maria da Graça Carvalho, considerou que a poupança de energia é “muito útil” para fazer face à imprevisibilidade dos mercados devido ao conflito no Médio Oriente. “A conservação de energia é sempre algo muito útil em crise ou sem ser em crise, especialmente, numa altura em que os preços estão tão altos e que há alguma incerteza em relação ao futuro”, afirmou, citada pela agência Lusa. A ministra disse que Portugal “está melhor do que os outros países” em termos de poupança energética. “Temos feito muito. Estamos melhor do que os outros países, em termos de renováveis, de poupança de energia, na eletrificação das habitações e dos transportes”, argumentou.

“Se o preço está caro e se pode haver um cenário de problema de abastecimento o que temos de fazer é poupar, sem criar alarmismos, sem prejudicar a economia“, defendeu.

G7 não tomou medidas concretas

Recorde-se que os ministros de Energia e Finanças do G7 afirmaram na segunda-feira que estão a monitorizar de perto o impacto do conflito com o Irão sobre o setor energético e a estabilidade económica global, e que estão preparados para tomar “todas as medidas necessárias” para garantir a segurança do mercado. Embora não tenham sido acordadas medidas concretas, como a liberação de reservas estratégicas, as discussões prepararam o terreno para a avaliação da União Europeia, que ocorreria no dia seguinte.

Embora por enquanto o fornecimento geral de petróleo pareça estável em termos de fornecimento (que não de preço), existem fortes preocupações com o diesel e o querosene para aviação, setores em que a Europa continua fortemente dependente das importações da Arábia Saudita e do Kuwait. Cerca de 20% do diesel consumido na União e no Reino Unido provém da região do Golfo. Dados da S&P Global Commodities at Sea mostram que as importações europeias de querosene de aviação e combustível para aviação atingiram 1,064 milhões de toneladas métricas em março, uma queda em relação aos 1,111 milhões de toneladas fevereiro.

O conflito já fez com que o preço do petróleo Brent subisse para 119 dólares por barril, face aos 70 dólares antes da guerra, e os analistas alertam que os preços podem chegar aos 200 dólares num cenário de encerramento prolongado do Estreito de Ormuz.