O que 2026 reserva para as commodities (matérias-primas)? O Jornal Económico (JE) ouviu os analistas. Estes projetam que o ouro e o cobre podem continuar em ciclo dourado, este ano, depois das fortes valorizações registadas em 2025. Em evidência podem estar também a prata e o alumínio.
Para o analista da ActivTrades, Henrique Valente, as matérias-primas que mais podem se destacar em 2026 são: ouro, cobre e alumínio. Já o head of trading do Banco Carregosa, João Queiroz, considera que os principais destaques, em 2026, nas matérias-primas, podem voltar a ser o ouro e a prata, bem como o cobre que poderia registar máximos nominais históricos. "A escolha destes três ativos para 2026 orienta-se pela continuidade das tendências estruturais que já se manifestaram em 2025, conjugadas com fatores macroeconómicos que deverão persistir", explica João Queiroz.
Henrique Valente, relativamente ao ouro, salienta que o consenso para este ano "continua favorável" a esta matéria-prima devido a vetores como a "procura por ativos de refúgio num contexto de incerteza geopolítica e macroeconómica". O analista da ActivTrades diz ainda que as compras por bancos centrais e a perspetiva de um dólar estruturalmente mais fraco "continuam a oferecer suporte" aos preços.
Para Henrique Valente o principal risco, para o ouro, passa por uma postura "mais restritiva" da Reserva Federal norte-americana (Fed) ou por um "aumento do apetite pelo risco" nos mercados financeiros, fatores que poderão "limitar ganhos adicionais".
Relativamente ao ouro, João Queiroz considera que esta matéria-prima "deverá continuar" a beneficiar de rendimentos reais em descida, com a Reserva Federal projetada para prosseguir com cortes nas taxas de juro face a uma moderação do crescimento económico.
O gestor de investimentos – Ações Globais de Mercados Emergentes da Aberdeen Investments e co-gestor do Aberdeen Future Minerals Fund, Ben Shrewsbury, destaca a "valorização impressionante" que o ouro tem tido nos mercados mas alerta que esta está "cada vez mais dependente" de factores que se podem revelar "transitórios" e "sustentados" por uma "combinação invulgar" de compras por parte dos bancos centrais, prémios de risco geopolítico e preocupações renovadas em torno da desvalorização cambial.
"Embora estes fatores justifiquem qualitativamente a força do preço, também introduzem fragilidade no caso de algum deles reverter. Também permanecemos cautelosos em relação às empresas mineiras de ouro, dada a sua alocação de capital estruturalmente mais fraca e a erosão das margens ao longo do tempo", assinala Ben Shrewsbury.
A Aberdeen alerta também que os movimentos recentes do mercado sublinham o "potencial de volatilidade" caso o sentimento se altere. "No último dia de negociação de janeiro, os mercados reagiram fortemente à nomeação surpresa de Kevin Warsh como o próximo presidente da Reserva Federal. Visto como um decisor político mais ortodoxo e menos influenciado politicamente, a nomeação de Warsh desafiou a narrativa predominante da desvalorização cambial", referiu a instituição.
"Além disso, apesar do apoio contínuo ao ouro físico, a Aberdeen observa que continua a ser necessária cautela em relação às ações de empresas de mineração de ouro e acredita que, a longo prazo, os investidores têm sido geralmente melhor servidos pela posse de ouro físico em vez de ações de empresas de mineração. A subida dos preços das commodities tende a ser acompanhada pelo aumento dos custos dos inputs, pela erosão das margens e pela diluição da alavancagem operacional", acrescentou a instituição.
"As principais instituições financeiras projetam que o ouro poderá atingir níveis entre os 4.500 dólares e os 4.900 dólares por onça, com potencial para alcançar os cinco mil dólares caso as condições macroeconómicas se mantenham favoráveis. A procura por parte dos bancos centrais deverá manter-se robusta, continuando o movimento de diversificação de reservas e redução da exposição ao dólar dos Estados Unidos. Os riscos geopolíticos persistentes e a incerteza política elevada em múltiplas geografias, incluindo eleições importantes no Brasil e noutros mercados emergentes, deverão reforçar a função do ouro como ativo refúgio e diversificador de carteira", explica João Queiroz.
Mas há quem projete valores superiores, em 2026, para o ouro. É o caso do UBS que no seu cenário de alta coloca esta matéria-prima nos 5.400 dólares. A estrategista para a área de commodities (matérias-primas) do ICBC Standard Bank, Julia Du, citada pela CNBC, prevê que o preço do ouro possa atingir os 7.150 dólares. E a responsável pela área de metais da MKS PAMP, Nicky Shiels, prevê que o ouro possa chegar aos 5.400 dólares este ano.
Esta quarta-feira o ouro transacionava nos 5.078 dólares no mercado spot enquanto que ao nível de futuros encontrava-se a 5.104 dólares.
Relativamente ao cobre, Henrique Valente sublinha que esta matéria-prima é uma das que reúne um "maior consenso positivo" para 2026. "A procura estrutural associada à eletrificação, às redes elétricas, bem como ao crescimento da inteligência artificial e da robotização, continua a crescer, enquanto a oferta permanece condicionada por baixos investimentos e constrangimentos operacionais. Este desequilíbrio mantém o mercado apertado e sustenta a expectativa de preços mais elevados ao longo do ano", assinala o analista da ActivTrades.
Sobre o cobre, João Queiroz considera que esta matéria-prima "deverá atingir máximos históricos nominais" em 2026, impulsionado pela "narrativa da transição energética e pela materialização de um défice estrutural" no mercado.
"A procura global fora da China está projetada para recuperar na segunda metade do ano, particularmente com o crescimento da eletrificação e das infraestruturas de centros de dados. A oferta permanece inelástica devido ao subinvestimento prolongado em capacidade mineira e aos longos prazos de desenvolvimento de novos projetos", explica João Queiroz sobre o desempenho que o cobre poderá ter em 2026.
"As instituições financeiras projetam preços médios acima dos nove mil dólares por tonelada na primeira metade do ano, com potencial para exceder os 10 mil dólares até ao final de 2026. As restrições comerciais e tarifas americanas sobre produtos de cobre semi-acabados poderão criar distorções adicionais nos fluxos comerciais, adicionando volatilidade, mas mantendo a pressão ascendente estrutural sobre os preços", acrescenta o head of trading do Banco Carregosa.
O gestor de investimentos – Ações Globais de Mercados Emergentes da Aberdeen Investments e co-gestor do Aberdeen Future Minerals Fund, Ben Shrewsbury, assinala que a instituição encontra uma "maior convicção" no cobre e nas empresas de mineração de cobre, onde tanto a "dinâmica da procura como a da oferta apontam para um défice estrutural duradouro, e onde as ações mineiras têm historicamente oferecido uma alavancagem mais limpa em relação à mercadoria subjacente".
Ben Shrewsbury assinala que a Aberdeen Investments acredita que os fundamentos do cobre estão "ancorados em tendências estruturais duradouras, em vez dos fluxos geopolíticos ou financeiros voláteis observados" no ouro.
"A procura está a acelerar à medida que a eletrificação global ganha ritmo, impulsionada pelas energias renováveis, pela expansão da rede elétrica, pelos veículos elétricos, pelos centros de dados e pelas infraestruturas digitais. Ao mesmo tempo, a oferta está a tornar-se mais restrita, uma vez que as minas existentes estão a amadurecer, as reservas de cobre estão a diminuir e os anos de subinvestimento limitam o fluxo de novos projetos", diz Ben Shrewsbury.
"Com o calendário de desenvolvimento para novas fontes de fornecimento de cobre a estender-se frequentemente por quase uma década, é improvável que preços mais elevados gerem uma resposta rápida da oferta. Isto aponta para um défice estrutural e para um período prolongado de aperto no mercado – um ambiente de ciclo longo no qual parece que as empresas mineiras de cobre estão bem posicionadas para gerar retornos atrativos", acrescenta o gestor de investimentos da Aberdeen.
Em novembro de 2025, o J.P.Morgan projetava que em 2026 o cobre poderia chegar aos 12.500 dólares no segundo trimestre, devido a uma "série de graves interrupções" no fornecimento, um valor que poderia baixar para uma média de 12.075 dólares para todo o ano. O banco previa que o "desequilíbrio" de mercado persistisse com um défice global de cobre refinado de aproximadamente 330 mil toneladas em 2026.
O Goldman Sachs projetou, a 23 de janeiro de 2026, que o preço do cobre se mantivesse sustentado nos 13 mil dólares no primeiro trimestre do ano, um valor que pode descer para os 11 mil dólares por tonelada até ao final do ano, influenciado por uma clarificação relativamente às tarifas norte-americanas.
O cenário base do Goldman Sachs é que uma tarifa de 15%, sobre o cobre, seja anunciada em meados de 2026 e implementada em 2027. "Qualquer atraso no anúncio ou na implementação poderá impactar drasticamente a direção dos preços do cobre este ano", refere o banco. "Assim que a incerteza relativamente à tarifa passar, é provável que os investidores se voltem a concentrar no grande excedente global do metal, exercendo uma pressão renovada sobre os preços", prevê a instituição bancária.
Sobre o alumínio Henrique Valente refere que é outra matéria-prima com "perspetiva construtiva" para 2026. Sobre esta matéria-prima o analista defende que o "crescimento da procura" ligada aos setores da energia, transporte e construção "contrasta com uma oferta limitada" por custos energéticos elevados e restrições ambientais. "Este enquadramento contribui para um mercado mais apertado e para um viés positivo nos preços, embora com menor intensidade do que no cobre", destaca Henrique Valente.
Relativamente à prata, João Queiroz considera que esta matéria-prima encontra-se numa posição "particularmente desafiante", tendo "rompido zonas de resistência técnica importantes" no final de 2025 e entrado em território de descoberta de preços após décadas de desempenho inferior relativamente ao ouro.
"As projeções apontam para níveis entre os 56 dólares e os 65 dólares por onça nas estimativas conservadoras, com modelos técnicos a sugerirem potencial para atingir os 72 dólares a 88 dólares. O défice estrutural de oferta pelo quinto ano consecutivo, aliado à procura industrial crescente proveniente de “tecnologias limpas”, painéis solares e eletrónica, cria fundamentos particularmente sólidos. O rácio ouro/prata, que poderá comprimir-se significativamente, sugere um potencial de valorização assimétrico favorável", salienta João Queiroz.
Apesar de João Queiroz adiantar que os desataques das commodities poder passar pelo ouro, prata e cobre, este alerta que apesar das perspetivas "estruturalmente favoráveis" para estes três ativos, importa exercer a "devida prudência" face à magnitude das valorizações projetadas e já registadas.
"Os níveis de preço antecipados para 2026, incorporam cenários macroeconómicos e geopolíticos excecionalmente favoráveis que podem não se materializar integralmente", alerta João Queiroz.
"A possibilidade de um cenário alternativo, no qual as políticas económicas dos Estados Unidos resultem em crescimento acelerado, redução dos riscos geopolíticos, subida das taxas de juro e fortalecimento do dólar, criaria ventos contrários substanciais para os metais preciosos", defende o head of trading do Banco Carregosa.
João Queiroz diz ainda que valorizações tão pronunciadas "aumentam a vulnerabilidade" a correções técnicas, particularmente se a procura de natureza financeira ou o investimento via fundos cotados registarem "reversões súbitas". Face a isto, o head of trading do Banco Carregosa considera que os investidores deverão, portanto, "manter uma postura equilibrada", reconhecendo que após desempenhos extraordinários, a volatilidade "tende a aumentar e os riscos de correção intensificam-se", particularmente num contexto em que a incerteza política e comercial global "permanece elevada".
Metais preciosos, café e cacau foram destaques em 2025
Relativamente a 2025, os principais destaques nas matérias-primas para Henrique Valente foram o ouro, café e cacau enquanto que João Queiroz considerou terem sido os metais preciosos (ouro, prata, e cobre).
Em 2025, o ouro subiu 66,5%, a prata (161,3%), e o cobre (42,1%) enquanto que o café subiu 10% e o cacau desceu 48,7%.
Henrique Valente salienta que o ouro, em 2025, beneficiou da "forte procura" por ativos de refúgio num contexto de "instabilidade geopolítica, incerteza económica e fraqueza" do dólar norte-americano. "A combinação destes fatores sustentou uma valorização expressiva ao longo do ano, reforçando o papel do metal precioso como proteção em períodos de incerteza", salienta o analista da ActivTrades.
Sobre a escolha do café, Henrique Valente sublinha que os preços estiveram em "forte alta" na entrada de 2025 dando seguimento aos ganhos de 2024, devido a fatores como os inventários reduzidos, o risco climático no Brasil e custos logísticos elevados. "O arábica atingiu um máximo histórico no início de fevereiro. Ao longo do ano, o mercado passou a antecipar uma normalização da oferta, apoiada nas projeções do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos para uma produção mundial recorde e na melhoria das condições meteorológicas no Brasil. Na reta final do ano, os preços perderam força, embora os inventários globais limitados continuem a deixar o mercado exposto a choques climáticos", descreve o analista da ActivTrades sobre o desempenho do café em 2025.
Relativamente ao cacau, Henrique Valente sublinha que o preço iniciou o ano de 2025 em máximos históricos tendo depois perdido força ao longo do ano. "O abrandamento da procura, refletido na queda das moagens, e a resposta gradual da oferta, sobretudo fora da África Ocidental, contribuíram para a normalização dos preços. Ainda assim, o clima continua a ser o principal fator de risco e o posicionamento fortemente pessimista nos futuros aumenta a probabilidade de episódios de volatilidade", salienta o analista da ActivTrades.
Relativamente às escolhas de 2025 [ouro, prata e cobre], João Queiroz justifica a seleção com a "magnitude excecional dos seus desempenhos face a um contexto macroeconómico e geopolítico particularmente favorável".
O head of trading do Banco Carregosa salienta que o desempenho excecional destes metais justifica-se por uma confluência de fatores estruturais. "No caso do ouro e da prata, a descida das taxas de juro reais, especialmente após os cortes da Fed, reduziu o custo de oportunidade de deter ativos sem rendimento, estimulando a procura por parte de investidores", explica João Queiroz.
"A procura por parte dos bancos centrais, particularmente de mercados emergentes como a China, que procuram diversificar as suas reservas reduzindo a exposição ao dólar, criou um suporte estrutural persistente. As tensões geopolíticas elevadas, incluindo os conflitos no Médio Oriente e na Europa de Leste, reforçaram o papel destes metais como “ativos refúgio”. No caso específico da prata, verificou-se adicionalmente um desequilíbrio estrutural entre oferta e procura, com o quinto ano consecutivo de défice de fornecimento aliado a uma procura industrial crescente, particularmente nos sectores relacionados com tecnologias limpas e transição energética", acrescenta João Queiroz.
João Queiroz refere que o cobre destacou-se pela sua "exposição" à narrativa da transição energética e eletrificação global. "A procura estrutural proveniente de investimentos em energias renováveis, veículos elétricos e infraestruturas de rede elétrica, aliada a uma oferta relativamente inelástica devido ao subinvestimento em novas capacidades mineiras, criou condições para uma valorização significativa. As restrições comerciais, incluindo tarifas dos Estados Unidos sobre produtos semi-acabados de cobre, e as expectativas de que o mercado entrará em défice estrutural nos próximos anos, sustentaram a pressão ascendente sobre os preços", refere o head of trading do Banco Carregosa.