Skip to main content

Ouro continua em queda depois de pior desempenho semanal desde 1983

Ao transacionar nos 4.462 dólares, durante a sessão de segunda-feira, o ouro já perdeu 20% do seu valor, entrando no chamado bear market (perdas superiores a 20% face a um pico) desde que atingiu os 5.589 dólares, no final de janeiro deste ano. Fortalecimento do dólar, perspetivas de manutenção de taxas de juros, e situação iraniana, são alguns dos fatores que explicam este movimento em baixa, assinala o analista da XTB Henrique Tomé.

O ouro na semana passada teve o seu pior desempenho semanal desde 1983, ao acumular uma desvalorização de 11%. Esta segunda-feira foi o continuar das desvalorizações. Durante o dia o metal chegou a cair 6% para os 4.331 dólares.

Com o decorrer da sessão de segunda-feira que ficou marcada pelo anúncio de cinco dias de tréguas entre Estados Unidos e Irão o ouro recuperou parte das perdas. Mas mesmo assim transacionava ainda em terreno negativo ao acumular uma descida de 3,19% para os 4.462 dólares (valores registados ao início da tarde).

Ao transacionar nos 4.462 dólares o ouro já perdeu 20% do seu valor, entrando no chamado bear market (perdas superiores a 20% face a um pico) desde que atingiu o máximo de 5.589 dólares, no final de janeiro deste ano. Fortalecimento do dólar, perspetivas de manutenção de taxas de juros, e situação iraniana, são alguns dos fatores que explicam este movimento em baixa, assinala o analista da XTB Henrique Tomé.

O estrategista da Fundstrat, Hardika Singh, referiu que yields mais elevadas "desempenharam um papel importante" na descida do preço desta matéria-prima, citado pela CNN. Já os estrategistas do ING consideram que o "ímpeto de alta" do ouro diminuiu e que alguns investidores estão a vender esta matéria-prima para "angariar dinheiro ou reequilibrar" as suas carteiras de investimento.

“Acredito que, na recente queda dos preços do ouro, os rendimentos mais elevados desempenharam um papel importante”, disse Hardika Singh, estratega económica da Fundstrat.

O analista da XTB assinala que este movimento, no preço do matéria-prima, é "uma rutura completa" para o lado negativo após meses de subida.

"Esta queda foi ainda mais acentuada pelo fortalecimento significativo do dólar americano, provocado pelas recentes decisões e declarações da Reserva Federal norte-americana (Fed), que elevaram as expectativas de manutenção de taxas de juro mais altas por mais tempo", acrescentou o Henrique Tomé.

Outro motivo que explica esta pressão, em baixa, no ouro, prende-se com a situação do Irão, que tem levado à subida no preço dos combustíveis e a "aumentar ainda mais as expectativas de uma política mais conservadora" por parte do banco central dos Estados Unidos", referiu o analista da XTB.

Já o cofundador da Coin Bureau, Nic Puckrin, citado pela CNBC, defendia que o que estamos a ver nos metais preciosos [como é o caso do ouro] indica que os bancos centrais e os países do Golfo "estão a utilizar" as reservas de ouro que acumularam nos últimos anos. "O foco mudou da acumulação para a preservação do capital. Isto irá impor um limite natural aos preços do ouro", afirmou Nic Puckrin.

O diretor da área de metais da High Ridge Futures, David Meger, citado pela Reuters, salientou que os preços mais elevados da energia, devido ao conflito no Médio Oriente, "estão a alimentar a inflação" — uma das razões pelas quais a Reserva Federal "pode não conseguir reduzir as taxas de juro, e isso mantém os preços do ouro sob pressão". David Merger, citado pelo mesmo meio, sublinhou que "não crê" que exista "falta de procura de ativos de refúgio. Acredito apenas que outras pressões estão a superar essa procura".

Henrique Tomé salienta também que a atual descida dos preços do ouro pode ser interpretada, em grande medida, como um "reposicionamento acentuado" após um prolongado mercado em alta que durou mais de um ano, que levou os preços do ouro a novos máximos históricos e atraiu um enorme capital especulativo.

"Após uma recuperação tão forte, é natural que uma parte do mercado decida realizar lucros - especialmente quando o risco de “taxas mais elevadas durante mais tempo” aumenta e o ambiente de liquidez se altera, como também foi evidente nas recentes correções acentuadas dos preços do ouro em março de 2026", refere o analista da XTB.

O analista da KCM Trade, Tim Waterer, salientou que as expetativas de corte nas taxas de juro pela Fed foram um "pilar" da subida no preço do ouro, contudo a subida do preço do petróleo "diminuiu as esperanças de flexibilização monetária, o que, de certa forma, minou o preço do ouro".

Na semana passada a Fed manteve inalterada a sua taxa de juro, entre os 3,5% e os 3,75%.

Henrique Tomé assinala que tendo em conta que o ouro é globalmente cotado em dólar, e face ao fortalecimento da moeda norte-americana, leva a que se "exerça automaticamente uma pressão descendente" sobre os preços do ouro.

"Historicamente, a relação entre o ouro e o dólar é claramente negativa: quando o índice do dólar sobe, a procura de ouro fora da zona do dólar enfraquece e os preços do ouro tendem a recuar, um padrão frequentemente observado durante períodos de fortes tendências ascendentes no dólar", referiu Henrique Tomé.

Descida do ouro pode continuar

Henrique Tomé considera que em termos teóricos a descida dos preços do ouro "pode continuar" enquanto o dólar mantiver a sua força relativa face às principais moedas, "apoiado por expectativas de taxas de juro reais mais elevadas e pela política restritiva da Fed", acrescentando que um dólar forte "reduz a atração do ouro como porto seguro para os investidores não americanos, aumenta o seu preço nas moedas locais e leva alguns participantes no mercado a transferir capital para ativos geradores de rendimento, o que limita ainda mais o potencial de procura do metal".

O estrategista de matérias-primas na TD Securities, Daniel Ghali, citado pela Reuters, salientou que no curto prazo "continua a ver" riscos de queda no ouro. "Existe um espaço considerável para o ouro desvalorizar, mantendo, ao mesmo tempo, o suporte da tendência da era do mercado em alta", acrescentou Daniel Ghali.

O analista da XTB defende que apenas um "enfraquecimento mais pronunciado" do dólar - seja devido a uma mudança na retórica da Fed ou a novos fatores de risco globais - "poderia criar as condições para travar esta liquidação e devolver ao ouro o seu papel de principal ativo de refúgio".