Se a incerteza é o novo normal, a guerra dos Estados Unidos da América (EUA) e de Israel no Irão, escalada para toda a região, acrescenta uma nova camada, densa, de imprevisibilidade e “os investidores odeiam a incerteza”, como garante o mantra dos mercados, mesmo se tem sido o pano e fundo desde a pandemia de covid-19, em 2020, e das crises que lhe sucederam.
Este quadro é inibidor dos negócios, do investimento. Mesmo assim, as fusões e aquisições (M&A, na sigla inglesa) em Portugal têm-se mantido em níveis altos, face ao histórico.
Para já, o mercado ainda não o impacto da guerra no Médio Oriente e das consequências do estrangulamento do Estreito de Ormuz.
“Ainda não sentimos qualquer efeito, mas se o conflito se prolongar não podemos excluir essa possibilidade”, diz Tomás Vaz Pinto, coordenador de Corporate e M&A da ML, ao Jornal Económico (JE). “Portugal está longe dos vários conflitos, mas num mundo global será sempre afetado se a guerra se prolongar”, sublinha.
“Neste momento, não estamos a observar um abrandamento das operações em Portugal, pelo contrário, a atividade tem-se mantido sólida”, reforça Tiago Valente de Oliveira, sócio de Corporate e M&A da CMS Portugal. Mas acrescenta: “Trata-se de um evento recente e com contornos imprevisíveis”.
O fator tempo é determinante. A ofensiva dos EUA e de Israel iniciou-se a 28 de fevereiro e a resposta iraniana foi generalizada, procurando alargar o perímetro do conflito para tentar aumentar o custo político do atacante. Foram atingidos nove países, diretamente por ataques das forças do Irão ou por ações de grupos aliados, como o Hamas ou o Hezbollah.
“O novo conflito introduz um fator adicional de instabilidade na economia mundial e nos mercados de capitais, com impactos inevitáveis no mercado global de M&A”, considera João Vaz, partner de Transactions & Corporate Finance da EY-Parthenon.
“Em particular, o risco de disrupções no mercado energético tende a pressionar os preços da energia, com efeitos em cadeia sobre o custo de bens e serviços, alimentando expectativas inflacionistas e, potencialmente, condicionando a trajetória das taxas de juro”, acrescenta.
O Estreito de Ormuz é um dos pontos estratégicos mais sensíveis da economia mundial. Liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e ao oceano Índico e é a via fundamental de escoamento da produção da Arábia Saudita, Iraque, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Qatar. Por aqui passa cerca de 20% do petróleo consumido no mundo e cerca de 20% do gás natural liquefeito. Mas não só: produtos refinados e outros bens. Em média, antes do conflito, transitavam diariamente cerca de 100 navios de carga e energia, a maioria petroleiros ou transportadores de gás. Desde o dia do conflito, o tráfego colapsou e foi reduzido praticamente a zero. Pelo menos 15 embarcações foram atingidas ou danificadas por ataques com drones, mísseis ou minas. São as consequências disto que o mercado receia.
Por isto, os investidores reforçam a prudência nas decisões.
“No mercado de M&A, este contexto traduz-se sobretudo numa maior seletividade, em processos de decisão mais longos e numa crescente complexidade na estruturação das transações, com maior foco na mitigação de risco”, diz João Vaz.
“O que pode acontecer é algum alongamento dos processos de decisão ou maior cautela na avaliação de risco, mas o interesse estratégico dos investidores, particularmente internacionais, mantém-se bastante sólido”, aponta André Matias de Almeida, sócio da Proença de Carvalho.
Otimismo, mas...
André Matias de Almeida considera que, apesar do contexto geopolítico instável, as operações continuam a ser impulsionadas por tendências estruturais, em vários setores, como a transição energética, “a consolidação em setores fragmentados e a procura por plataformas de crescimento no sul da Europa”.
A perspetiva de evolução é, portanto, positiva. “Continuamos otimistas”, garante Tomás Vaz Pinto.
“Mantemos um pipeline robusto e diversificado, com apetite equilibrado. Esperamos continuidade na atividade em setores resilientes e algum reequilíbrio de valorizações à medida que a visibilidade sobre custos de capital se concretiza”, diz Tiago Valente de Oliveira.
Apesar do agravamento recente da incerteza geopolítica e do risco de volatilidade nos mercados energéticos e financeiros, as perspetivas para o resto de 2026 no mercado de M&A em Portugal permanecem globalmente positivas.
“O impacto do novo conflito deverá ser sobretudo indireto, refletindo-se mais nas condições de financiamento e no aumento da prudência dos investidores do que numa retração efetiva da atividade”, aponta João Vaz.
Agora, tudo depende do tempo que durar o conflito e das suas consequências para o instável novo normal. Essa é a ressalva.