Num contexto internacional marcado por profundas incertezas geopolíticas, tensões militares e disputas económicas, o antigo presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, defendeu em Luanda a necessidade de um novo equilíbrio nas relações internacionais, sustentado no reconhecimento da dignidade dos Estados, na cooperação estratégica e numa redistribuição mais justa da influência global.
A posição foi manifestada durante a segunda edição do “The Chairman’s Talk – Leadership in a Shifting World”, iniciativa promovida pelo fundador e chairman do Emerald Group, N’gunu Tiny, que reuniu líderes empresariais, membros do governo angolano, diplomatas e diversas figuras políticas e económicas nacionais e estrangeiras.
Na conversa mantida com o empresário, Durão Barroso considerou que o mundo atravessa um período particularmente delicado, caraterizado pela fragmentação da ordem internacional e pela ausência de clareza quanto ao modelo que sucederá ao atual sistema global.
“Estamos a viver um momento especialíssimo nas relações internacionais. Temos um mundo muito polarizado, fragmentado, volátil, imprevisível e talvez até bastante perigoso”, afirmou o antigo chefe do executivo europeu, acrescentando que o sistema internacional se encontra numa fase de transição que gera ansiedade política, económica e social.
Segundo Durão Barroso, os conflitos armados atualmente em curso, nomeadamente na Ucrânia e no Médio Oriente, refletem precisamente essa instabilidade de uma ordem internacional em mutação.
Grande parte da reflexão incidiu sobre a crescente afirmação do chamado “Sul Global” e sobre o papel que África deverá desempenhar na nova configuração das relações internacionais. Embora tenha manifestado reservas quanto à própria expressão “Sul Global”, por considerá-la geograficamente imprecisa e conceptualmente redutora, o antigo dirigente europeu reconheceu que os países emergentes reivindicam hoje um espaço mais relevante na definição das decisões globais.
“O que está em causa é um reequilibrar das relações internacionais num sentido de maior justiça”, afirmou, salientando que muitos países anteriormente marcados por experiências coloniais procuram agora uma posição internacional compatível com a sua soberania, ambição económica e afirmação política.
Durão Barroso insistiu na ideia de que a questão central não é apenas económica ou financeira, mas sobretudo ligada ao respeito institucional entre os Estados. “Da mesma maneira que as pessoas querem que a sua dignidade seja respeitada, os países também querem”, sublinhou.
Para o antigo presidente da Comissão Europeia, este reequilíbrio não deve ser entendido pelas grandes potências como um gesto de concessão política ou de solidariedade circunstancial, mas como uma necessidade estratégica para a estabilidade do próprio sistema internacional. “É do interesse daqueles que hoje detêm maior poder económico, financeiro, militar e tecnológico saber operar esta transição”, defendeu.
Na sua visão, as lideranças mais pragmáticas e estrategicamente inteligentes do mundo desenvolvido já compreenderam que a cooperação internacional e uma distribuição mais equilibrada da influência global são essenciais para evitar novas fraturas geopolíticas.
Ao mesmo tempo, deixou um apelo aos países emergentes para que rejeitem políticas assentes no ressentimento histórico. “O ressentimento é uma emoção legítima e compreensível, mas uma política baseada no ressentimento é uma má conselheira”, afirmou, advertindo para os riscos de discursos alimentados por inveja, radicalização ou antagonismos permanentes entre Norte e Sul.
Ao abordar a posição da Europa neste novo contexto internacional, Durão Barroso reconheceu dificuldades crescentes ao nível da competitividade económica, sobretudo face aos Estados Unidos e à China, particularmente em setores ligados às novas tecnologias e à inteligência artificial.
Ainda assim, defendeu que o modelo europeu continua a distinguir-se pelos níveis de qualidade de vida, proteção social, Estado de Direito e liberdades fundamentais. “A Europa continua a ser um dos espaços do mundo onde melhor se vive”, afirmou, citando indicadores sociais como a esperança média de vida e a mortalidade infantil em Portugal para ilustrar as diferenças relativamente aos Estados Unidos.
A conversa permitiu igualmente uma reflexão sobre o papel de África no atual redesenho geopolítico. Com experiência acumulada em dezenas de visitas ao continente africano ao longo da sua carreira política e diplomática, Durão Barroso mostrou-se particularmente otimista quanto ao futuro africano.
“O potencial de África é imenso”, afirmou, considerando que o continente deverá assumir um peso crescente tanto nas relações económicas internacionais como nos processos políticos globais.
Para o antigo governante português, o forte crescimento demográfico africano constitui um dos principais fatores de transformação da economia mundial nas próximas décadas, podendo posicionar o continente como um dos novos centros de gravidade do sistema internacional.
Durante o encontro, Durão Barroso abordou ainda as relações transatlânticas, defendendo que os EUA continuam a ser a principal potência mundial, tendo em conta a conjugação do poder militar, financeiro, tecnológico e monetário. Apesar das atuais incertezas e divisões internas, sustentou que Washington mantém uma influência sem paralelo nas estruturas globais de poder.
Nesse contexto, considerou natural que Portugal preserve uma relação estratégica próxima com os Estados Unidos, lembrando simultaneamente a histórica vocação atlântica portuguesa.
“O mundo está em transformação e há uma deslocação dos centros de gravidade”, concluiu Durão Barroso, defendendo uma ordem internacional mais equilibrada, cooperativa e inclusiva, capaz de integrar os interesses das diferentes regiões do planeta sem comprometer a estabilidade global.
“O mundo está numa transição perigosa”
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José Manuel Durão Barroso participou na “The Chairman’s Talk”, com N’Gunu Tiny. Avisou que o mundo atravessa um dos períodos mais delicados da história recente. E defendeu maior cooperação internacional e uma integração mais justa do chamado Sul Global na arquitetura política e económica mundial.