A ação de “Um Julgamento, depois do Inimigo do Povo”, tem lugar no presente, marcado pela polarização política, pelas fake news, pelas questões ambientais, pelas ruturas familiares, pela violência da linguagem nas redes sociais... E, não menos importante, pela busca da verdade. E “a verdade tem de prevalecer”, dispara o ator Wagner Moura. Mudam-se os termos, permanecem as ameaças, cerca de 150 anos depois da obra de Ibsen ser publicada. Como as que querem vergar a democracia e a liberdade de expressão.
“Noventa por cento da peça é texto original, dez por cento é de Ibsen”. Palavras da encenadora e realizadora brasileira Christiane Jatahy – nomeada esta semana ao Prémio Internacional Václav Havel, precisamente por esta peça – na conferência de apresentação de “Um Julgamento, depois do Inimigo do Povo”, na tarde de quarta-feira, no CCB, em Lisboa.
Inspirada no original, de 1882, do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen, o novo texto coloca o ator Wagner Moura no centro da ação. Ele é Thomas Stockmann, médico de uma estância balnear numa pequena cidade cuja economia depende do turismo termal. Quando descobre uma grave contaminação nas águas, decide alertar as autoridades na (vã?) tentativa de proteger residentes e visitantes. O confronto entre o imperativo moral e os interesses económicos leva a comunidade a declará-lo “Um Inimigo do Povo”.
Como chegámos aqui? Com o reencontro, há dois anos, da encenadora e do ator brasileiro, e a vontade de trabalharem juntos. “Sem pressão”, diz o ator. Ou seja, “não há deadline, não há condicionantes”. À distância, pois Wagner tinha uma agenda intensa em Los Angeles, e Christiane dividia-se entre o Brasil e a Europa. Chegaram a bom porto. Com a colaboração de um terceiro par de mãos, o argumentista e dramaturgo Lucas Paraizo.
A peça foi estreada no ano passado em Salvador da Baía, terra natal de Wagner Moura, e marcou o seu regresso aos palcos, 16 anos depois de interpretar Hamlet. Émais conhecido do público português pelos papeis no cinema, do Capitão Nascimento no filme de José Padilha, “Tropa de Elite” (2007) – que venceu o Urso de Ouro em Berlim – à sua interpretação do famoso narcotraficante Pablo Escobar, na série “Narcos” (Netflix). E, mais recentemente, como protagonista de “O Agente Secreto”, filme de Kleber Mendonça Filho, que lhe valeu, em Cannes, o prémio de melhor ator.
Regressando a este “Um julgamento”, onde Thomas e o seu adversário, o irmão e também presidente da câmara, Peter, representam tomadas de posição opostas perante o mundo. Thomas simboliza a ciência, a luta pela saúde e bem-estar da comunidade em detrimento dos interesses económicos, ao passo que Peter dá primazia ao lucro financeiro que o turismo traz aos cofres da câmara, agora em risco devido à denúncia do seu irmão. Que será julgado por um júri que integra 11 elementos do público, sorteados aleatoriamente. A incógnita sobre o veredicto é, à partida, garantida. Será?
As palavras importam
“Não me interessava trazer respostas, mais fazer perguntas, escutar o público e ver como reage ao texto hoje”, afirma a encenadora. Para Wagner Moura, a peça coloca o foco numa pergunta que é, para si, crucial, nos dias de hoje. “O que é a verdade?”. “Sou uma pessoa de esquerda”, mas reconhece que “a direita civilizada faz perguntas importantes.” A sustentabilidade dos apoios sociais, “quem vai pagar? Esse é um debate que me interessa.”
A encenação aposta no diálogo entre teatro e audiovisual. Projeções, câmaras ao vivo e contracenas gravadas em vídeo criam uma dimensão que expande o palco. Para Christiane Jatahy, é importante dar espaço “à câmara como mediação”. Explica que essa síntese é algo que tem vindo a desenvolver nos últimos 18 anos. Aquilo a que chama de “fricção entre teatro e cinema.” E pesquisa. Muita pesquisa para dar maior densidade à dramaturgia. No caso de “Um Julgamento, depois do Inimigo do Povo”, verdadeiro estudo sociológico, as perguntas do júri são, na maior parte, formuladas pela primeira vez em cada cidade onde a peça é apresentada. Isso exige que Wagner improvise nas respostas.
O ator confessa, de forma descontraída, que é “Ibsen quem responde”. Volta sempre ao dramaturgo norueguês, cujo texto não ganhou nem uma ruga. E volta, também, aos ensinamentos do jornalismo, a sua formação inicial. À importância do fact checking, do rigor, da fonte credível. Da responsabilidade perante o Outro, sublinha. “A verdade acabou e isso me assusta”, diz. “Os factos não importam mais” na era da pós-verdade. Por isso “as palavras importam”, salienta Christiane. “É importante defender o jornalismo e o papel do jornalista”, acrescenta Wagner. Da ascensão da extrema-direita no mundo, dos Bolsonaros ‘desta vida’, aos perigos que a Democracia enfrenta, tudo isto passou pela conferência, espécie de espelho do desatino do mundo, plasmado nesta peça. Mas sem cair em tiques propagandísticos. “Tenho horror a peça panfletária”, afiança Christiane Jatahy. “A melhor reação ao medo é a ação”. Incluindo no palco, através do poder da palavra.
Depois de Lisboa, a peça segue até França, integrada no Festival de Avignon. O elenco conta, também, com Danilo Grangheia e Júlia Bernat in loco, e Marjorie Estiano, Jonas Bloch, Salvador Moura, Antonio Falcão, Henry Soares Paes Leme e José Moura em vídeo. Um espetáculo que resulta de uma coprodução entre CCB (Lisboa, Portugal), Holland Festival (Amsterdão), Festival d’Avignon (França), Edinburgh International Festival (Escócia) e DeSingel (Bélgica).
O meu imperativo moral é melhor que o teu?
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Depois de Salvador, Rio de Janeiro e Amesterdão, “Um Julgamento, depois do Inimigo do Povo”, chega a Lisboa. Wagner Moura enche o palco, transformado em tribunal. Entre verdade e ‘fake news’, onde fica o imperativo moral?