Não é a primeira vez que Jorge Azevedo é reconhecido com diversos prémios nacionais e estrangeiros pela sua prestação como franquiado da poderosa cadeia McDonald’s, mas não é comum que, num universo de cerca de 60 mil franquiados em todo o mundo, que ‘o’ prémio, o Fred L. Turner Golden Arch Award vá parar à prateleira de qualquer empresário que tenha decidido cruzar a sua carreira com uma das mais conhecidas marcas globais da restauração – ou de qualquer setor da atividade económica.
Jorge Azevedo, que se prepara para viajar até à cidade norte-americana de Las Vegas para receber o prestigiante prémio, passa assim a fazer parte de um muito restrito universo de cerca de 1% dos franquiados da mega-empresa que conseguiram ser com ele agraciados.
Entre outras razões que ponderaram para que Jorge Azevedo obtivesse a distinção está o facto de ter como ativo nove restaurante da insígnia, quando a médio por franquiado é de 3,5. É um reconhecimento da própria McDonald’s, uma vez que não são os franquiados, ou qualquer outro empresário, que decidem quando e onde abrir um restaurante. Essa tarefa está exclusivamente nas mãos da empresa norte-americana, que tudo decidi nessa matéria: quando e onde será aberto um novo espaço McDonald’s. E por quem: se escolheu Jorge Azevedo nove vezes, para já, por alguma razão há de ser.
Uma delas é o restaurante mais emblemático do país, instalado no antigo Café Imperial, um dos espaços mais belos da Avenida dos Aliados. ‘Vestido’ à ‘Belle Epoque’ e fazendo lembrar filmes dos tempos em que Paris era uma festa, o espaço recuperou e preservou os espantosos vitrais do topo nascente e tudo o que recebeu de herança de um lugar que, se não fosse um McDonald’s, haveria de ser um moderno balcão de uma instituição financeira, entretanto fechado para cortar nos custos operacionais – como aconteceu a vários outros espaços naquela mesma artéria central do Porto. “Tivemos que adaptar os bastidores às limitações impostas pela arquitetura do Café Imperio”, explicava ao JE, enquanto revelava alguns dos segredos do ‘back office’. Por exemplo: a Coca-Cola servida no McDonal’d é uma mistura entre água gaseificada e uma espécie de mosto que só se encontra precisamente na torneira que serve os clientes.
Responsável pela área oriental do Porto – a área ocidental foi destinada pela McDonald’s a outro franquiado e o ‘confronto territorial’ é particularmente desaconselhado pelo master franchise – os nove restaurantes de Jorge Azevedo asseguram cerca de 500 postos de trabalho – que já não são aquele lugar certo para fazer uns trocos para as férias de verão. Desde logo, explicou, os seus restaurantes não empregam jovens com menos de 18 anos de idade – o que, evidentemente, fez aumentar os custos operativos, mas também transmitiu mais previsibilidade ao negócio e mais concórdia com a autoridade tributária.
Ao contrário do que pudesse pensar-se, a circunstância de alguém ser franquiado da McDonal’s tem um ‘caderno de encargos’ peado: o franquiado não pode ter outra atividade profissional, tem de constituir uma empresa por cada restaurante que possua, não pode ter sócios e os processos de venda ou herança são previsivelmente complicados. “A McDonald’s faz os contratos com determinada pessoa, não com uma empresa, um grupo, ou qualquer entidade que possa ser anónima”, explica – para concluir que essa relação torna o os dois lados mais empenhados no sucesso e menos expostos a situações imprevistas. De algum modo, tudo está regulado, tudo está no seu lugar, ninguém tem dúvidas sobre direitos e obrigações. As suas nove empresas são suas a 98%, ficando os restantes 2% destinados a “um familiar direto”. Outro ‘efeito’ McDonald’s: os balanços são para manter em recato.
Aos 67 anos, nascido em Angola, Jorge Azevedo chegou ao universo McDonald’s em 1995, depois de responder a um anúncio. O processo teve início dois anos antes, e a opção surgiu depois de o empresário tem passado por uma escola de hotelaria e ter debutado profissionalmente no Meriden Porto (depois Sheraton). Depois partiu para África: Angola, Moçambique e Guiné Bissau – país onde estava quando respondeu a um anúncio da McDonald’s francesa. Ao longo do processo, teve oportunidade de regressar a Portugal, mais propriamente a Castel Branco, para trabalhar na unidade local do Hoti Hotéis, onde era feliz. “Vais deixar o Hoti Hotéis para ires vender hambúrgueres?”, perguntou-lhe o patrão em 1995. Sim, era isso mesmo que ia fazer. mais de 30 anos volvidos, ainda não se arrependeu.
No final de 2024 – ainda não há valores para 2025 – a rede McDonald’s nacional, composta por 219 (das quais 18 são exploradas pela própria McDonald’s) faturou 757 milhões de euros. Feitas as contas, dá 3,4 milhões por unidade. A multiplicar por nove, dá 31 milhões – mas é só uma conta.