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O maravilhoso cinema de Agnès Varda

O Nimas organiza a maior retrospetiva em Portugal dedicada a esta cineasta incansável, generosa e visionária. E celebra a sua eterna curiosidade.

Um pequeno caderno aberto. Uma flor seca numa página, a fotografia de uma praia noutra. Foi assim que o olhar de Agnès Varda subiu desse caderno até ao rosto desta escriba, o sorriso a rasgar-se pela cumplicidade aquática. Ela, que dedicou um filme às “suas praias”, condescendeu, generosa, uns instantes de conversa com uma desconhecida. Ela que iniciou a sua carreira como fotógrafa, mas que rapidamente enveredou pelo cinema, percebeu que aquele gesto se queria cúmplice.
Professora, feminista, humanista, cidadã politicamente comprometida, Varda incorporou o pioneirismo do cinema moderno. O seu primeiro filme, “La Pointe Courte” (1955), foi realizado quando era ainda muito jovem e antes de mergulhar na Nouvelle Vague. Varda foi prolífica, entre ficção, documentário e curtas-metragens. Fez parte do movimento dos cineastas de esquerda – Groupe Rive Gauche –, no final dos anos 50, com Alain Resnais, Armand Gatti e Chris Marker, com fortes ligações ao movimento literário do nouveau roman. Leia-se Marguerite Duras e Alain Robbe-Grillet.
O filme “Cléo de 5 a 7” (1962) é exemplo de audácia e experimentalismo. Com “Sans Toit ni loi” (1985), Varda conquista o Leão de Ouro no Festival de Veneza. Em “Jane B. Par Agnès V.” (1987), Jane Birkin confessa o seu horror aos 40 anos. “Les Cent et une nuits de Simon Cinéma” (1994), reúne um elenco do outro mundo e faz uma humorada e extraordinária homenagem ao cinema.
As pessoas, a política, a vida em sociedade, os mecanismos de poder e de liberdade, o encontro com o Outro. Temas caros a Varda. Tal como a solidariedade para com as mulheres, que exerceu através da sua voz singular e complexa. Deu-lhes protagonismo mantendo a sua visão feminina e feminista, apesar de nunca ter subscrito o movimento.
No que à sua vida privada diz respeito, Agnès Varda teve uma longa e conhecida relação amorosa com o realizador Jacques Demy, até à morte deste, em 1990. No ano seguinte, fez-lhe uma bela homenagem em “Jacquot de Nantes”. Orastilho para “Les glaneurs et la glaneuse” (Os respigadores e a respigadora), marcadamente humanista, política e socialmente, revelou-nos a vida de quem resgata e aproveita os alimentos que os outros rejeitaram.
Com o seu olhar único, fez obras de uma grande originalidade, reinventando o cinema e acabando por se tornar um ícone, cuja obra continua a influenciar novas gerações de cineastas e artistas. Recebeu vários prémios, entre eles o Louis Delluc e os Cesars, ou nos festivais de Cannes – onde seria também galardoada com uma Palma de Ouro honorária em 2015 –, Berlim e Locarno, nos European Film Awards e, em 2017, um Óscar pelo conjunto da sua obra.
Foi a primeira mulher a receber este prémio. E, claro, continuou a ser... Agnès. Aberta ao novo, ao divertido, ao humano. E revendo-se, também, na tela, a si própria. Como em “Les plages d’Agnès” (2008), que já aqui invocámos. Documentário autobiográfico a partir das suas memórias, num comovente regresso às praias da sua vida. O Cinema Medeia Nimas dedica-lhe agora a maior retrospetiva de sempre, onde também figura o seu derradeiro filme – um documentário-análise da sua forma de ver e fazer cinema, a par do seu processo de envelhecimento. A mulher e a cineasta, ou a mulher que olha para a cineasta?

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