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Nike atinge mínimos de 12 anos: Estará a estratégia 'Win Now' condenada?

Elliot Hill, que entrou na empresa em 1988 para sair em 2020, regressou como CEO em outubro de 2024 com um plano de restruturação (ou turnaround) chamado Win Now [ganhar agora]. Analistas consultados pelo JE referem que a queda nas ações coloca pressão sobre a administração e mostra impaciência dos investidores, mas que isso não significa que o processo de recuperação esteja em causa. Mesmo com as dificuldades, assinalam os especialistas, a Nike continua a ter um portfólio de marcas valioso.

A Nike, a cotada mais valiosa no setor desportivo, tem feito uma verdadeira travessia no deserto no mercado bolsista. Em pleno processo de restruturação (ou turnaround), executado por Elliot Hill, que entrou na empresa em 1988 para sair em 2020, para depois regressar como CEO em outubro de 2024, a estratégia não tem convencido os investidores. A descrença levou a que as ações atingissem o nível mais baixo em 12 anos a 18 de agosto. Estará a estratégia 'Win Now' condenada? Analistas consultados pelo Jornal Económico (JE) defendem que apesar dos desafios que a marca, com origem no estado norte-americano do Oregon, enfrenta isso não significa que o seu plano de recuperação esteja em causa.

O especialista de mercados na Freedom24, João Lampreia, salienta, ao Jornal Económico (JE), que apesar da fragilidade do quadro geral, seria "prematuro" considerar o “Win Now” [nome dado à estratégia de turnaround da marca de Oregon] um "fracasso". O analista diz que a estratégia envolve um "regresso gradual" às categorias desportivas, o "reforço" do canal grossista e um "maior controlo" sobre a distribuição, pelo que os seus efeitos podem não ser imediatamente visíveis. "A questão fundamental é saber se a Nike será capaz de compensar a pressão de curto prazo sobre as receitas através da aceleração do crescimento na categoria de corrida, da reconstrução das relações com os retalhistas e da melhoria da qualidade das vendas", acrescenta.

O analista da ActivTrades, Henrique Valente, considera, ao JE, que a desvalorização das ações "não compromete", por si só, o plano de recuperação da Nike, mas "cria alguns entraves e aumenta a pressão" sobre a administração para apresentar resultados. "Uma cotação mais baixa reduz, por exemplo, a capacidade de utilizar ações para financiar aquisições, torna a remuneração em ações menos atrativa para captar e reter talento e pode incentivar cortes de custos ou acelerar mudanças estratégicas. Ainda assim, o impacto financeiro imediato é limitado. A Nike dispõe de cerca de nove mil milhões de dólares (7,7 mil milhões de euros à taxa de câmbio atual) em caixa, equivalentes de caixa e investimentos de curto prazo, o que lhe permite continuar a financiar o plano de recuperação sem depender da emissão de novas ações", assinala.

Para o head of trading do Banco Carregosa, João Queiroz, a desvalorização nas ações está a refletir a "crescente impaciência" dos investidores perante a duração e a complexidade do processo de recuperação, e "não necessariamente uma perda estrutural" da relevância competitiva da empresa.

"A desvalorização bolsista tem uma leitura ambivalente. Por um lado, aumenta a pressão sobre a equipa de gestão para apresentar resultados tangíveis num prazo razoável. Por outro, significa que uma parte substancial dos riscos associados à China, às tarifas, ao enfraquecimento do consumo e à execução do plano de recuperação já se encontra refletida na avaliação da empresa. O mercado deixou de pagar pela expectativa de recuperação futura e passou a exigir evidências concretas da sua materialização", explica ao JE.

O mínimo bolsista "não coloca em causa" a relevância global da Nike nem a força das suas marcas. "A questão central deixou de ser a capacidade da empresa para manter uma posição de liderança e passou a ser a velocidade com que consegue converter esse capital de marca em crescimento rentável. O sucesso do turnaround dependerá sobretudo da recuperação da China, da adaptação a um ambiente comercial mais protecionista e da capacidade de transformar inovação, canais de distribuição e notoriedade das suas insígnias em ganhos sustentáveis de quota de mercado e margem operacional", considera.

João Lampreia defende que a queda das ações tem um efeito duplo sobre a empresa. "Por um lado, aumenta a pressão sobre a administração. Com as ações a cerca de 40 dólares (34,51 euros), os investidores já não estão dispostos a esperar muito tempo pela confirmação de que a estratégia está a funcionar. Cada trimestre subsequente terá de revelar, pelo menos, uma melhoria consistente nos principais indicadores operacionais. Por outro lado, a cotação mais baixa significa que as expectativas do mercado se tornaram significativamente mais moderadas. Para uma história de recuperação, isto poderá constituir uma vantagem", considera.

Para o analista se a Nike conseguir primeiro estabilizar as vendas, depois recuperar as margens e só então regressar ao crescimento dos lucros, "poderá iniciar-se" uma reavaliação da empresa antes de esta recuperar totalmente o seu desempenho financeiro. "O mercado precisa simplesmente de observar uma mudança de direção. Por isso, a atual valorização da Nike não deve ser automaticamente interpretada como prova de que as ações estão “baratas”. Pelo contrário, reflete um prémio de risco significativo associado à recuperação da empresa", alerta.

O especialista de mercado na Freedom24, João Lampreia, refere que a descida no preços das acções da marca desportiva não significa, por si só, que a Nike "esteja a perder" o seu estatuto de maior fabricante mundial de calçado e vestuário desportivo. "A empresa continua a dispor de escala, de uma rede de distribuição global e de uma das marcas mais fortes do setor. No entanto, o mercado mostra-se cada vez menos disposto a pagar um prémio por estas vantagens sem evidências de um regresso ao crescimento. É precisamente por isso que a atual cotação das ações é relevante, não tanto enquanto mínimo técnico, mas como indicador do nível de exigência colocado ao programa de recuperação liderado pelo CEO Elliott Hill", assinala.

Mas mesmo perante os atuais desafios, a Nike "continua a deter" um dos portefólios de marcas mais valiosos do setor, liderado pela insígnia Nike e pelo icónico símbolo Swoosh, complementado por ativos como a Jordan Brand e a Converse, que "preservam um elevado valor estratégico e comercial", assinala João Queiroz.

Esta diversidade confere à empresa uma "flexibilidade" que muitos concorrentes não possuem. "Em teoria, poderia mesmo considerar a alienação parcial ou total de algumas destas marcas para libertar capital, simplificar a estrutura do grupo ou acelerar a criação de valor para os acionistas, embora não existam sinais de que essa hipótese esteja atualmente em avaliação", considera.

João Queiroz defende que o principal foco de preocupação da empresa permanece na China. "O mercado chinês, que já representou perto de um quinto das vendas da marca e hoje pesa aproximadamente 13%, continua a enfrentar problemas de procura, pressão promocional e concorrência crescente de operadores locais", descreve. "Num contexto marcado por tarifas, tensões geopolíticas e cadeias de abastecimento cada vez mais regionalizadas, a capacidade de adaptação às preferências locais passou a ser um fator tão relevante quanto a notoriedade global da marca. A recuperação da Nike na China será, por isso, um dos elementos decisivos para restaurar crescimento e rentabilidade", reforça. João Lampreia refere que a Grande China "continua a ser o mercado mais desafiante" para a Nike. "No exercício fiscal de 2026, as receitas da região ascenderam a 5,85 mil milhões de dólares (cinco mil milhões de euros), face a 6,59 mil milhões de dólares (5,69 mil milhões de euros) um ano antes e a 7,55 mil milhões de dólares (6,51 mil milhões de euros) no exercício fiscal de 2024. Assim, em dois anos, a região perdeu cerca de 23% das suas receitas. A taxas de câmbio constantes, a queda em 2026 foi de 13%", revela.

O que contrasta com outras geografias. "A América do Norte voltou a apresentar crescimento, beneficiando do reforço das parcerias com distribuidores, de um pipeline de inovação mais sólido e de uma gestão de inventários mais disciplinada. Paralelamente, a empresa está a reduzir a dependência de campanhas promocionais, privilegiando vendas a preço integral e protegendo as margens. A estratégia "Win Now", liderada por Elliott Hill, procura precisamente recentrar a organização na inovação, no desporto e numa execução comercial mais próxima da procura real dos consumidores", diz.

João Lampreia salienta que o principal problema da Nike "não está" numa única região ou num único trimestre fraco. "A Nike está a ter de reestruturar simultaneamente o seu portefólio de produtos, a distribuição e as relações com os retalhistas", refere.

A isto acresce um aumento da competição no setor. "No segmento de corrida de performance, a empresa tem enfrentado o rápido crescimento da On e da Hoka, enquanto, na China, as marcas locais Anta e Li-Ning estão a ganhar terreno. Ao mesmo tempo, a Adidas está a tentar recuperar quota nos segmentos de performance e lifestyle", diz.

E ainda existe mais outro desafio para a marca de Oregon. "Não precisa apenas de crescer em linha com o mercado, mas de recuperar parte da procura que, nos últimos anos, se transferiu para marcas mais especializadas", assinala. "Esta mudança é particularmente evidente no segmento de corrida. Os consumidores têm menor tendência para encarar o calçado desportivo como uma categoria única, e as distinções entre corrida, treino, basquetebol, atividades outdoor e lifestyle tornaram-se mais relevantes. Isto cria uma oportunidade para as marcas de nicho, que conseguem adaptar mais rapidamente os seus produtos a necessidades específicas", salienta.

Existem ainda alguns indicadores-chave que assumem uma "importância fundamental" para o mercado.

"O primeiro é a América do Norte. Esta é a região mais avançada no âmbito da estratégia “Win Now”, pelo que é aqui que a Nike terá de demonstrar, em primeiro lugar, uma recuperação sustentável. O segundo é o Running. Por enquanto, este é o principal argumento quantitativo a favor da ideia de que o problema da Nike poderá estar efetivamente relacionado com o ciclo de produto, e não com uma perda irreversível da atratividade da marca. O terceiro é o canal grossista. O crescimento deste canal confirma que a Nike é capaz de reconstruir as relações com os retalhistas e recuperar uma presença física mais abrangente. O quarto é a China. Mesmo uma estabilização, em vez de um crescimento, seria um sinal positivo importante após vários anos de declínio. O quinto são a margem bruta e a margem lucros antes de juros e impostos (EBIT). No exercício fiscal de 2026, a margem bruta situou-se nos 42,9%, face a 42,7% um ano antes, mas significativamente abaixo dos 44,6% registados no exercício fiscal de 2024. A margem EBIT situou-se nos 8,3%, face a 12,7% dois anos antes. É precisamente a recuperação das margens que deverá, em última análise, traduzir as melhorias operacionais num crescimento do lucro por acção (EPS)", elenca.

Os cenários para a Nike

João Lampreia descreve a situação atual da marca desportiva em três cenários. O otimista passa por uma implementação bem-sucedida do “Win Now”: recuperação sustentada do canal grossista, aceleração do crescimento do segmento de Running [corrida] para taxas de dois dígitos, estabilização ou regresso ao crescimento na América do Norte e melhoria gradual da situação na China através de uma distribuição e de uma estratégia de marca mais controladas. "Neste cenário, as margens começam a recuperar já nos exercícios fiscais de 2027–2028, e o mercado atribui um prémio à retoma do crescimento. O potencial para uma reavaliação da cotação das ações situa-se num regresso à faixa dos 70 dólares–90 dólares (60,39 euros-77,65 euros) ou mais no médio prazo", assinala.

O cenário base passa pelo sucesso parcial da estratégia: "O Running e o canal grossista continuam a crescer, mas a China permanece fraca, enquanto a divisão digital recupera lentamente. As margens estabilizam, mas não regressam aos níveis históricos. O crescimento das receitas mantém-se nos baixos dígitos. Neste cenário, as ações são gradualmente reavaliadas, mas sem uma recuperação acentuada – uma faixa entre 45 dólares e 60 dólares (38,82 euros e 51,76 euros), acompanhada por uma melhoria moderada dos fundamentais", descreve.

E o cenário pessimista seria o “Win Now” não produzir os resultados esperados: "A pressão na China intensifica-se, a concorrência nos segmentos de performance aumenta e a transferência para o canal grossista não compensa o declínio do canal Direct-to-Consumer [direto ao consumidor]. As margens continuam sob pressão, enquanto o crescimento das receitas estagna ou se torna negativo. Neste cenário, o mercado continua a reduzir as avaliações e as ações poderão permanecer na faixa dos 30 dólares–40 dólares (25,88 euros-34,51 euros) ou até testar novos mínimos", diz.