A extrema-direita francesa, liderada pelo partido Rassemblement National (RN), de Marine Le Pen e Jordan Bardella, registou um aumento sem precedentes da sua implantação municipal no final das eleições a duas voltas para as regiões: conquistou 14 municípios qu até este domingo estavam nas mãos da direita moderada – incluindo Nice – e quatro da esquerda, totalizando 941.298 residentes. Manteve também o controlo de nove municípios,
A direita, que há seis anos conquistou 304 municípios em grandes cidades, manteve a maioria delos, como em Toulouse, onde Jean-Luc Moudenc foi reeleito contra um candidato do La France Insoumise (LFI). Também venceu em 26 cidades de esquerda, como Brest, Clermont-Ferrand, Avignon, Cherbourg, Istres e Alençon, representando uma população total de um milhão de habitantes.
A esquerda moderada conseguiu manter a maioria dos seus principais redutos, como Paris, Marselha, Nantes, Montpellier e Lille. Também conquistou 13 cidades que antes eram de direita, incluindo Saint-Étienne, Le Blanc-Mesnil e La Roche-sur-Yon. No entanto, perdeu cerca de cinquenta municípios, para a esquerda radical (seis deles), para o centro (14) e para a direita (26).
Segundo os resultados divulgados pelo Ministério do Interior após a contagem completa (excluindo a Polinésia), as listas do RN e seus aliados conquistaram 55 municípios com mais de 3.500 habitantes, incluindo 38 na segunda volta e 17 na primeira. Além disso, a RN elegeu 3.006 vereadores, quase o dobro do recorde anterior de 1.544 representantes eleitos, alcançado durante as eleições municipais de 2014. O partido de extrema-direita ainda enfrenta barreiras em grandes cidades como Toulon, Nîmes e Marselha, mas está consolidado nas regiões do sudeste e do nordeste.
Era claro para todos os partidos em confronto que as eleições municipais seriam um poderoso indicador – apesar de multiplicidade de declarações em contrário. E, nesse contexto, a dupla ronda serviu para confirmar que o RN pode antecipar que conseguirá bons resultados nas eleições presidenciais de 2027, que acontecerão em maio ou junho. E um bom resultado não é passar à segunda volta – como vem sucedendo – mas ganhar a segunda volta. O facto de ter conseguido diversas vitórias à segunda volta prova que o ‘cerco sanitário’ em sua volta – uma espécie de ‘todos contra um’ – está a deixar de funcionar, libertando o partido do estigma das coligações negativas que foram sempre forma de fazer perde Marine Le Pen.
O seu problema mais óbvio parece agora residir no facto de Jordan Berdella ter menos ‘tração’ que Marine Le Pen entre os franceses. Se finalmente ficar clarificado que a mais importante líder do partido será impedida de concorrer às presidenciais, o RN pode ter dificuldade em impor o seu atual presidente. Se por uma qualquer razão, Marine Le Pen conseguir ultrapassar o impedimento, tudo indica que será a próxima presidente de França – até porque terá a vantagem de poder exibir o que com certeza chamara de perseguição dos poderes tradicionais.
Vale a pena recordar que Marine Le Pen foi condenada por desvio de fundos europeus em 2025 e que a sentença implica cinco anos de inelegibilidade. Mas a líder da extrema-direita recorreu da decisão e o caso ainda está a ser analisado. O tribunal de recurso deve decidir ainda este ano: se a inelegibilidade for confirmada, Le Pen estará fora da corrida; mas, se a pena for reduzida para menos de dois anos, a possível candidata alegará que já a cumpriu. Resta ainda o caso mais difícil: pode haver uma suspensão da pena, o que criará uma questão juridicamente ambígua.
O outro extremo
Do outro lado, a extrema-esquerda do LFI conseguiu vitórias importantes em algumas cidades (Saint‑Denis e Roubaix), e manteve desempenhos relevantes, concorrendo sozinho ou em coligação com os socialistas e/ou os Verdes. Além disso, em grandes centros (como por exemplo, Paris), a LFI aumentou a sua representatividade e conseguiu avanços locais importantes, sobretudo no norte em certas periferias urbanas.
O partido concentrou as suas candidaturas para as eleições municipais em territórios já favoráveis ao voto em Jean-Luc Mélenchon, ou marcados pela presença dos seus representantes eleitos. Embora as alianças à esquerda tenham sido bem-sucedidas em Lyon, Nantes e Grenoble, levaram a derrotas significativas em Limoges, Brest, Besançon, Clermont-Ferrand, Poitiers e Toulouse, o LFI obteve importantes vitórias em Roubaix, La Courneuve e Vénissieux – mas perdeu Faches-Thumesnil.
Para todos os efeitos, nem o LFI nem, por acrescento, o seu líder, Mélenchon, deixaram de ser uma força a considerar. O que também é um bom indicador para as presidenciais de 2027. Convém não esquecer que Jean-Luc Mélenchon ficou a apenas algumas décimas de conseguir passar à segunda volta nas eleições de 2022, quando conseguiu 21,95%, contra os 23,15% de Marine Le Pen (e os 27,84% de Emmanuel Macron). Ora,m desta vez não haverá Emmanuel Macron – ou seja, a ‘prova de vida’ que Mélenchon conseguiu nas eleições municipais deste domingo são um indicador que a esquerda não poderá desprezar. Até porque os socialistas – que têm colecionado maus resultados desde que François Hollande não se recandidatou em 2017 – ainda não têm um candidato que possa assumir um destaque imbatível para ser candidato de toda a esquerda em 2027.