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“Metalurgia está às portas de uma grande oportunidade”

Sérgio Sousa Pinto diz que os ‘ventos de guerra’ que assolam a Europa são, por maus motivos, uma oportunidade para a indústria metalúrgica. E também uma via para a Europa corrigir o erro da desindustrialização.

Dificilmente o comentador e ex-deputado socialista Sérgio Sousa Pinto podia ser mais claro: “temos de fazer o mercado interno de armamento”, não só para dotar a União de capacidade de defesa, mas também para que não sejam sempre os mesmos a comandar uma necessidade que é comum: a defesa e armamento – que tem no programa ReArm Europe a necessária correspondência do financiamento, parte comum, parte nacional.
Para o analista político, as más razões que levaram a União Europeia a encarar de frente uma realidade que chegou a pensar ultrapassada – a invasão da Ucrânia por parte da Rússia – são uma boa razão para a metalurgia e metalomecânica nacionais terem uma renovada esperança no até agora pouco fundamentado projeto de reindustrialização da União. ‘Chavão’ usado há muito pelos mais diversos quadrantes políticos, essa reindustrialização é agora um imperativo estratégico – que tem, do lado do setor português, a possibilidade de uma resposta pronta e eficaz. Felizmente para o país, o setor nunca deixou as fronteiras nacionais, num desistiu de produzir e exportar, nunca deixou de investir em inovação e qualificação. Agora, uma vez surgida a necessidade, abrem-se portas a uma oportunidade.
Mas, para Sérgio Sousa Pinto, que cumpria a função de deixar ‘notas finais’ no congresso anual da AIMMAP, o setor deve assumir cautelas especiais, para não ser sugado pela ‘centrifugadora’ da União Europeia. “Os números não mentem: a metalurgia é um setor pujante” – e, neste novo quadro geoestratégico que pelos vistos apanhou de surpresa a elite bem-pensante em Bruxelas e Estrasburgo, “há dois ou três setores que são os que estão à porta de uma oportunidade. A metalurgia é um deles”. As novas necessidades de independência em termos de estratégia e segurança da Europa obrigam à reindustrialização e a metalurgia, que teve artes de não se deixar morrer, está aí para responder ao desafio.
Mas, como Sérgio Sousa Pinto chamou a atenção, as guerras fazem-se muito mais de drones que de tanques de guerra. Nesse contexto, o enorme pacote financeiro concentrado não plano ReArm Europe não deve ser todo capturado por empresas e países que produzem material militar que tem cada vez menos importância nos campos de batalha – mas cujas empresas, algumas gigantes, controlam o setor a nível europeu. A alemã Rheinmetall, recordou Sousa Pinto, é uma delas. Funcionários com ideias pré-concebidas, lobistas encartados e diplomatas a cumprirem as funções para que são pagos, tratarão de ‘tomar de assalto’ o ReArm Europe e a metalurgia nacional tem tudo a ganhar em defender-se desses ‘falcões’. E como a defesa vai contar com esse “autêntico plano Marshall”, é bom que as empresas nacionais saibam que posição tomar. Com duas preocupações centrais: não correrem o risco de tentarem uma aventura solitária, que não os colocará em boa posição na cadeia de valor; e terem em atenção o valor, a sabedoria e o network acumulado nas associações que há anos se dedicam à indústria.
A AIMMAP é uma delas, sendo, por isso, na sua ótica, especialmente capaz de liderar os interesses nacionais que necessariamente vão desenvolver-se em torno da defesa e segurança comum, uma vez mais elevados à categoria de prioridade do bloco.
Antes deste sábio conselho, Sousa Pinto já havia referido até que ponto havia sido disparatado que a União Europeia tivesse alguma vez alinhado pela desindustrialização. Para isso, recordou que o empresário António Champalimaud (já desaparecido) dizia que um país não existe sem siderurgia. E reforçou que o facto de Portugal não ter seguido os passos desavisados de Bruxelas é o segredo para este novo posicionamento, mesmo se tudo indicava que a metalurgia já não valia a pena. Quando “a China entrou na Organização Mundial do Comércio (OMC) e com o alargamento da União”, “passámos a ser periféricos” – com o centro do bloco e da sua economia a ‘deslizar’ para Leste. Felizmente, disse, “temos empresas que se souberam adaptar”. “Prevaleceu a ideia de que íamos assistir a uma globalização” e que, nesse novo contexto – ‘vendido’ como eterno ou quase – “a Europa não ia mais precisar de indústria pesada – que podia ir poluir o terceiro mundo”. Tudo isso se releva, agora, um erro crasso a que a metalurgia nacional soube escapar.

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