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Macron prepara embate com Trump em Davos: “Não nos devemos deixar intimidar”

A questão das tarifas a impor aos que não concordarem com Donald Trump no contencioso que mantém com a Gronelândia está a ser tema de debate em várias frentes. O Parlamento deu uma ajuda a Macron, que pode ser curta.

“Não nos devemos deixar intimidar” pelas ameaças de tarifas de Donald Trump a propósito do diferendo que envolve os Estados Unidos e vários países europeus em torno do futuro da Gronelândia. O assunto será ‘cabeça de cartaz’ esta quarta-feira na pequena cidade suíça, para onde o presidente norte-americano convocou uma verdadeira ‘task-force’: para além dele próprio, ali estarão o secretário de Estado Marco Rubio, o enviado especial Steve Witkoff e o genro de Trump, Jared Kushner. Trump quer consolidar a mensagem que tem deixado bem explícita: a ilha é fundamental, nestes tempos de degelo, para a segurança nacional dos Estados Unidos – que assim dela tomarão posse a bem ou a mal. E como não pode ser a bem – dado que nem a Gronelândia nem a Dinamarca, potência administrante, o aceitam – será a mal. E desde já com a imposição de tarifas aos oito países que, insolentes – na ótica de Washington – trataram de enviar representantes das forças armadas até à ilha.

O presidente francês, Emmanuel Macron, está a liderar a oposição europeia – não especialmente convicta em alguns casos, como o português – às pretensões expansionistas norte-americanas e, a partir de Davos, quis deixar claro que Trump terá de enfrentar essa oposição. Em resposta a uma pergunta sobre as novas ameaças de tarifas de Donald Trump, após seu discurso em Davos, Macron pediu a todos que "mantivessem a calma". "Não devemos nos deixar intimidar ", acrescentou, citado pelas agências noticiosas, para defender que “não faz sentido haver tarifas alfandegárias entre aliados". “O mais absurdo é que talvez tenhamos que usar o instrumento anticoerção contra os Estados Unidos pela primeira vez se eles implementarem novas tarifas. Conseguem imaginar?”, insistiu. “É uma loucura, lamento, mas é consequência da imprevisibilidade e da agressão desnecessária”, afirmou. Já no dia anterior o presidente francês tinha dito que a medida anticoerção será a melhor forma de a União Europeia combater o ultimato lançado por Trump. Mas as palavras de Macron ganharam pouca tração entre os seus congéneres do bloco, uma vez que irá induzir uma escalada de tensão nas relações com os Estados Unidos – que uma parte do bloco quer evitar a todo o custo. A qualquer custo.

Macron disse ainda que preferir "respeito aos valentões" e "o Estado de Direito à brutalidade". "A França e a Europa estão comprometidas com a soberania e a independência nacionais, bem como com as Nações Unidas e sua carta ", enfatizou, referindo-se indiretamente ao chamado ‘Conselho de Paz’, que Trump quer lançar para a reconstrução de Gaza. A Europa possui ferramentas "muito poderosas" em matéria comercial e deve "usá-las" quando "não for respeitada", disse ainda Macron, antes de mencionar especificamente o uso do instrumento anticoerção. O presidente francês disse também que deseja fazer do G7, a que a França preside este ano, um "fórum para diálogo franco" e para "soluções coletivas e cooperativas". Macron abordou ainda a questão da "competitividade europeia", que está "a ficar atrás da dos Estados Unidos, tendo por isso pedido um "aumento significativo do investimento", particularmente nos setores de inovação.

Já depois de o presidente francês ter discursado em Davos, ficou a saber-se que o Parlamento Europeu votou favoravelmente a suspensão do processo de ratificação do acordo comercial entre a União Europeia e os Estados Unidos, respondendo assim de forma considerada dura à ameaça de imposição de novas tarifas se o bloco não aceitar as pretensões sobre a Gronelândia. Parece ser uma vitória da vontade de Macron – a não ser que a suspensão surja como alternativa mais branda ao sistema anticoerção. Ou seja, a União opta por não dar ‘um murro na mesa’, preferindo uma postura que impeça o aumento imediato da tensão.

Em Davos, Macron não foi o único a empregar palavras duras sobre Trump. A Europa não pode ser uma "escrava miserável" de Donald Trump, declarou o primeiro-ministro belga, Bart De Wever. “Foram cruzadas linhas vermelhas", pelo que, “se cedermos agora, perderemos a dignidade". De Wever adiantou que, com o rei Filipe da Bélgica, encontrar-se-ão com Donald Trump esta quarta-feira para pressionarem o presidente norte-americano para aceitar regressar à aliança militar entre Bruxelas e Washington. "Ou permanecemos unidos, ou permanecemos divididos, e se estivermos divididos, é o fim de uma era, a de oitenta anos de atlantismo, que está a chegar ao fim", disse ainda.

O primeiro-ministro polaco e ex-presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, pediu à Europa que não "seja fraca" diante de ameaças externas. "Apaziguamento é sempre sinal de fraqueza", escreveu nas redes sociais. A Europa não pode dar-se ao luxo de ser fraca, nem diante dos seus inimigos nem diante dos seus aliados. Apaziguamento só leva à humilhação e ao fracasso. A assertividade e a autoconfiança da Europa tornaram-se indispensáveis”.

Do outro lado da ‘barricada’, o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, disse que seria "imprudente" para a União Europeia usar o instrumento anticoerção perante as ameaças de Donald Trump à Gronelândia. "Cada país tentará fazer o que considera ser do interesse nacional", disse Greer à margem do fórum de Davos. "E isso naturalmente tem consequências", acrescentou, considerando que seria "imprudente" ativar esse instrumento. Questionado sobre como os Estados Unidos reagiriam se os europeus se recusassem a negociar a cessão da Gronelândia, o representante norte-americano respondeu que "quando os países seguem o meu conselho, em geral tudo corre bem. Senão, coisas loucas acontecem". "O mercado dos Estados Unidos nem sempre será acessível a todos, o tempo todo", acrescentou. Já o secretário do Comércio dos EUA, Howard Lutnick, pediu aos europeus que "reduzam a pressão" sobre as ameaças de retaliação comercial, caso contrário isso afetaria o acordo comercial firmado em julho com Washington – e que entretanto o Parlamento Europeu decidiu suspender.. "Seria feito de uma forma que não beneficiaria a Europa", disse.

 

O Conselho de Paz

Depois de ter anunciado a entrada em vigor da segunda fase do plano para a Faixa de Gaza, Trump, tem vindo a convidar vários líderes e ex-líderes políticos para integrarem o Conselho para a Paz em Gaza – que faz parte dessa segunda fase do plano. "O Conselho de Paz desempenhará um papel essencial no cumprimento dos 20 pontos do plano presidencial, proporcionando supervisão estratégica, mobilizando recursos internacionais e garantindo a responsabilização à medida que Gaza transita do conflito para a paz e o desenvolvimento", referia um comunicado da Casa Branca.

Desta forma, "para concretizar a visão do Conselho de Paz sob a presidência Trump, foi formado um conselho executivo fundador, composto por líderes nas áreas da diplomacia, desenvolvimento, infraestruturas e estratégia económica". Donald Trump divulgou a composição do Conselho de Paz para a Faixa de Gaza. Dele constam o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, o antigo primeiro-ministro britânico Tony Blair, o enviado especial para o Médio Oriente, Steve Witkoff, o genro de Trump, Jared Kushner, e o presidente do Banco Mundial, Ajay Banga. O bilionário norte-americano Marc Rowan terá assento no Conselho. Tudo presidido por Donald Trump, evidentemente.

O Kremlin adiantou entretanto que o presidente russo, Vladimir Putin, também foi um dos convidados a fazer parte do Conselho de Paz. "De facto, o presidente Putin recebeu uma oferta pelos canais diplomáticos para participar deste Conselho de Paz. De momento, estamos a analisar todos os detalhes da proposta", indicou o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, à agência Tass. Sabe-se ainda que o presidente dos Estados Unidos convidou o rei Abdullah II da Jordânia, os presidentes turco, Recep Tayyip Erdogan, argentino, Javier Milei, e do Paraguai, Santiago Penã, e os primeiros-ministros paquistanês, Shehbaz Sharif, indiano, Narendra Modi, e o canadiano, Mark Carney.

Trump presidirá de forma vitalícia ao Conselho de Paz, com os restantes Estados-membros a serem convidados para um mandato limitado a três anos, a não ser que paguem mil milhões de dólares cada para financiar as atividades do conselho e assim comprar a adesão permanente.

Emmanuel Macron já disse que não fará parte do Conselho da Paz, o que motivou uma resposta ‘à Trump’ da parte do presidente dos EUA: “Ele disse isso? Não faz mal, dentro de poucos meses vai-se embora” – recordando assim que Macron não pode concorrer a um terceiro mandato na presidência dos gauleses. Segundo os dados mais recentes, foram convidados 50 países – Portugal incluído – mais a União Europeia. Para além da Rússia, também a China e a Índua fazem parte da lista de convidados, o que, segundo alguns analistas, pretende provar o ‘ecumenismo’ das escolhas da Casa Branca. A Noruega foi dos primeiros países a recusar o convite.

Os 50 convites são de facto um curioso exercício de junção de aliados claros dos Estados Unidos com os principais países que, ao fazerem parte dos BRICS, têm tentado encontra uma via alternativa à liderança dos Estados Unidos.

 

Portugal: ministro e CIP preocupados

A questão das tarifas e da contra-resposta com o recurso às medidas anti-coerção tem estado em devate em diversos fóruns. Assim, Portugal apoia uma resposta europeia às tarifas anunciadas pelo Presidente norte-americano, Donald Trump, sobre países que se opõem ao controlo da Gronelândia pelos Estados Unidos, disse o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, no parlamento nacional. “Somos favoráveis a uma reação da União Europeia”, que deverá ser anunciada durante o dia pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou, durante uma audição na comissão parlamentar de Negócios Estrangeiros e Comunidades Portuguesas. Mas não ficou claro se Portugal é ou não a favor da aplicação do mecanismo anticoerção: Rangel admitiu que “tem uma eficácia externa”, e reconheceu “alguma pertinência” na proposta. O Governo português, acrescentou Rangel, “prefere uma solução de diálogo sempre, apesar das retóricas que os protagonistas possam usar”. E considerou existir “espaço para uma negociação”. “Alguma contenção na linguagem” também parece estar a faltar, pelo menos na opinião do ministro.

Quanto ao Conselho de Paz, Rangel confirmou o convite a Portugal, afirmando que o país está "em consulta com parceiros" para decidir.

Do seu lado, o presidente da CIP, Armindo Monteiro, disse esperar por “uma resposta firme” dos líderes europeus no Conselho extraordinário de quinta-feira para analisar a ameaça do presidente dos EUA em avançar com novas tarifas sobre oito países europeus. “Apesar de termos criado a ideia de que os nossos interesses estariam sempre alinhados com os interesses dos Estados Unidos, já não é assim”, afirmou à Lusa, à margem de um almoço-debate. O presidente da CIP considerou ainda que este anúncio de Trump representa “mais um acréscimo de dificuldades que não se compreende. É a lógica da selva e da lei do mais forte, com desrespeito total pelo direito internacional”.

 

Há mais Davos

Para além das guerras, Davos será também palco do debate sobre a economia que, nestes tempos conturbados, tem-se mostrado relativamente resiliente, apesar das tensões comerciais intensificadas e da incerteza política, “em parte graças aos investimentos maciços relacionados com a inteligência artificial (IA) nos EUA, que têm sustentado a maior economia do mundo”, refere uma nota sobre a cimeira.

A situação da dívida de vários países africanos, as medidas cada vez mais protecionistas de alguns países – como forma de resposta às tarifas de Trump, o aumento das restrições ao investimento estrangeiro e a questão do fornecimento de minerais críticos, são outros temas que estarão presentes na Suíça

Segundo a organização, a IA é outro foco deste ano, com vários eventos e palestras dedicados. Representantes como Satya Nadella, da Microsoft, Jensen Huang, da Nvidia, e Demis Hassabis, diretor de IA da Google, estarão presentes. O tema deste ano é ‘Um Espírito de Diálogo’.

Donald Trump anunciou a sua próxima viagem a um "lugar lindo na Suíça", provocando risos na sala de imprensa da Casa Branca. "Tenho a certeza de que vão adorar ver-me por lá", acrescentou, para divertimento dos presentes.