A França e o Reino Unido vão coorganizar uma cimeira esta sexta-feira, em princípio, para discutir um "plano multinacional, independente e coordenado" para salvaguardar a navegabilidade do Estreito de Ormuz, por onde passa entre 20% a 30% do petróleo, derivados e gás que abastece o globo terrestre. Keir Starmer disse esta quarta-feira que o Reino Unido convocou “mais de 40 nações que compartilham o objetivo de restaurar a liberdade de navegação” e a cimeira vai discutir formas de proteger a navegação “quando o conflito terminar”, disse Starmer. E nunca antes – dado que um dos pressupostos da iniciativa é fazer tudo para que o Irão não caia na tentação de olhar para esta aliança como uma forma de os países aderentes estarem a auxiliar o esforço de guerra dos Estados Unidos e de Israel. Do lado da França, o presidente Emmanuel Macron, afirmou que o Reino Unido e a França vão trabalhar numa "missão multinacional pacífica" que será "separada das partes em conflito".
Na semana passada, o Irão e os Estados Unidos concordaram em cessar as hostilidades por duas semanas, mas as negociações de cessar-fogo entre os lados em conflito no Paquistão, durante o fim de semana, terminaram sem sucesso. Pior ainda, os Estados Unidos decidiram bloquear o estreito aos navios que assumissem pagar uma espécie de portagem ao Irão para conseguirem ultrapassar as margens do canal que banham o seu território – o que resultou num duplo bloqueio que espantou o resto do mundo. O plano liderado por França e Reino Unido não é, neste quadro, para desbloquear o estreito, mas sim para o manter navegável quando as partes em litígio acordarem em levantar o bloqueio.
Segundo informações veiculadas pelas agências internacionais, o plano deverá ter a ajuda da Alemanha e os envolvidos podem considerar ser necessário garantir um mandato por parte da ONU ou da própria União Europeia. O uso de força não constará, com certeza, do plano do bloco – cuja lista dos países a convidar não é conhecida. Alguns analistas consideram a hipótese de na génese do grupo estarem os países europeus que já atuam na missão europeia no Golfo (EMASoH/AGENOR), que são a Alemanha, Itália, Países Baixos, Bélgica, Dinamarca, Grécia, Noruega e Portugal. Mas não há qualquer informação oficial nesse sentido. Segundo algumas fontes, a China e a Índia foram convidadas – mas ainda não confirmaram a sua presença. A EMASoH (European-led Maritime Awareness in the Strait of Hormuz) é uma iniciativa diplomática e militar de nove países europeus, lançada em 2020 para garantir a segurança e a liberdade de navegação no estreito. A Operação AGENOR é o seu pilar militar, focada na monitorização e acompanhamento de navios mercantes.
Segundo a agência EFE, a coligação será "puramente defensiva" – o que quer que seja que isto queira dizer – e tentará restaurar a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz envolvendo países "não beligerantes", o que deixa os Estados Unidos, Israel e Irão à margem, especificou o gabinete de Macron. A missão consistiria em primeiro lugar em ajudar a sair as centenas de navios presos no estreito, depois em deslocar uma operação de desminagem para remover minas colocadas pelo Irão e manter vigilância regular e escoltas militares para proteger navios comerciais. A confirmar-se esta disposição, o uso da força, pelo menos em resposta a um possível ataque, terá de estar contemplado.
Recorde-se que o Comando Central dos Estados Unidos (CENTCOM) anunciou na terça-feira ter implementado um bloqueio total dos portos do Irão e “paralisado por completo” o comércio marítimo da República Islâmica. Em comunicado, o almirante Brad Cooper, responsável pelo comando, afirmou que as forças armadas norte-americanas conseguiram bloquear totalmente os portos iranianos.
“Um bloqueio não resolve outro bloqueio”
O presidente do Conselho Europeu, António Costa, lançou críticas ao bloqueio dos Estados Unidos e, em entrevista à CNN, afirmou que “um bloqueio não resolve outro bloqueio”. “Um bloqueio não resolve outro bloqueio. Estaremos sempre do lado da liberdade. Felizmente, as portas da diplomacia não estão fechadas entre EUA e o Irão”.
Questionado sobre como pode a Europa ajudar a desbloquear a situação não estando à mesa das negociações, António Costa realçou que “há várias formas de colaborar e temos estado em contacto com os países do Golfo. Também temos estado em conversações com o Irão no sentido de que este país não ataque estados vizinhos e que abram o estreito de Ormuz e de parar de apoiar o Hezbollah”.
A chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, afirmou também que a situação no Estreito de Ormuz é um claro argumento a favor de uma "forte coligação internacional em segurança marítima". Não especificou o que tal coligação faria especificamente, mas acrescentou que a União Europeia rejeita qualquer acordo que limite "a passagem livre e segura pelos estreitos, em conformidade com o direito internacional".