A Lactogal assinala três décadas de existência num momento de transformação profunda do setor dos lacticínios. Nascida em 1996 da fusão das cooperativas Agros, Lacticoop e Proleite, a empresa consolidou-se como líder em Portugal, com cerca de 60% de quota de mercado, e afirma-se hoje como o maior grupo lácteo da Península Ibérica.
Para José Marques, presidente do conselho de administração da Lactogal, a criação do grupo foi determinante para a sobrevivência do setor. “Sem a sua formação, o setor poderia ter sido extinto ou ficado limitado”, afirma, sublinhando que a união dos três concorrentes permitiu alcançar escala e enfrentar a concorrência externa num momento crítico. No entanto, admite que o setor "está a viver uma das maiores crises de sempre".
Num encontro com jornalistas, em Lisboa, Daniela Brandão, administradora executiva, recorda um contexto muito diferente no momento da fundação. “Na altura havia cerca de 30 mil produtores e o setor não era competitivo”, explica. A entrada de novos concorrentes internacionais terá funcionado como catalisador: “Veio a Parmalat com uma campanha com o Sport Lisboa e Benfica e isso talvez tenha despertado a necessidade de transformar os três rivais em parceiros. É uma história bonita”, acrescentando que todos tinham e ainda têm um inimigo comum, a importação.“
O presidente da Lactogal diz ainda que esta começa na produção e acaba no consumidor, incorpora desde a produção até ao consumo final da embalagem, ou seja, do leite. "Isto é uma mais-valia porque resulta numa vantagem para a produção e para os produtores.”
Hoje, o setor enfrenta novos desafios, muitos deles de natureza global. A volatilidade dos preços, nomeadamente com a escalada do custo da energia e dos fertilizantes, a pressão competitiva de mercados como os Estados Unidos e a Nova Zelândia que importam produtos para Portugal a mais baixo custo, e a reforma da Política Agrária Comum (PAC) que aponta para uma redução de 20% das ajudas aos agricultores, todos juntos são fatores que têm prejudicado os produtores.
A executiva destaca ainda o impacto das exigências europeias em matéria de bem-estar animal, que colocam os produtores em desvantagem face a outras geografias. Ainda assim, vê espaço para uma nova fase de crescimento: “Portugal e a Península Ibérica têm potencial para se afirmarem lá fora, com uma proposta de valor assente no valor nutricional do nosso leite.” Aliás, na sua opinião esta é a única forma do setor sobreviver nos próximos anos.
Ao longo destes 30 anos, o grupo construiu um portefólio robusto de marcas, entre as quais Mimosa, Agros, Matinal, Gresso, Adágio, Vigor e Plena — esta última criada especificamente para o mercado espanhol, onde a empresa iniciou operações em 1997. Espanha continua a ser o principal destino das exportações, que representam atualmente 22% do volume de negócios, com os PALOP a terem uma relevância nos produtos de consumo
Em 2024, a Lactogal processou mais de 1.200 milhões de litros de leite recolhidos em Portugal e Espanha, provenientes de cerca de dois mil produtores. O grupo integra várias empresas, entre as quais Lactogal Produtos Alimentares, Lacticínios Vigor, Etanor, Penha, Pronicol, Leche Cela e Queijos Santiago, operando 12 unidades industriais e empregando cerca de 2500 pessoas.
Uma das áreas onde Portugal continua dependente do exterior é o queijo e o iogurte. Nesse contexto, a aquisição do grupo Queijos Santiago surge como movimento estratégico, reforçando a capacidade produtiva nacional com três unidades industriais e um centro logístico.
Bruno Costa, administrador executivo, garante que o grupo continua atento a novas oportunidades de crescimento. “Estamos atentos ao mercado e a possíveis aquisições que possam criar valor, sobretudo em categorias onde as importações têm tido impacto negativo”, afirma.
A Lactogal prevê manter um ritmo de investimento na ordem dos 50 milhões de euros anuais, à semelhança dos últimos três anos, período em que aplicou cerca de 150 milhões de euros em capacidade e modernização industrial, novas categorias (Torre de Secadem de Modivas), descarbonização, entre outros investimentos.
O modelo de negócio do grupo assenta na convicção de que o leite constitui o elemento estruturante da sua atividade de responsabilidade. “Num sistema produtivo caracterizado por ciclos longos de investimento e por uma elevada exposição à volatilidade dos mercados, o papel da indústria assume uma relevância particular”.
A ambição passa por transformar o Norte de Portugal e a Galiza numa das principais regiões europeias de produção de leite.. “Para isso é necessário trabalhar com os produtores e reinventar o negócio”, sublinha Daniela Brandão.
De recordar que o Leche Celta, participada da Lactogal e o grupo lácteo galego CLUN chegaram a acordo para criar uma aliança estratégica e constituir uma nova empresa, a CoRural, Corporativa Rural Láctea, onde garantem colocar o produtor no cento do negócio. Esperam ter 1400 produtos de leite, 800 trabalhadores e oito unidades industriais para um volume de negócios anual na ordem dos 600 milhões de euros. A ideia é ganhar volume, otimizar processos de produção e diversificar produtos. A empresa realçou esta operação como um reforçar da posição da Lactogal como empresa líder no desenvolvimento sustentável do setor do leite na Península Ibérica.
José Marques reforça a importância dos produtores no equilíbrio ambiental, contrariando algumas críticas ao setor. “Muitas vezes os agricultores/produtores são vistos como os maus da fita, mas sem as pastagens os incêndios decerto alcançariam uma escala muito maior”, defende, acrescentando que a agricultura tem sido “mal explicada” à sociedade.
Em termos financeiros, o grupo registou resultados de 30 milhões de euros em 2024, valor que caiu para 11 milhões em 2025, refletindo o contexto adverso do setor. A marca da distribuição representa atualmente cerca de 20% do volume de negócio.
Quanto às prioridades para o próximo ciclo destacam reforçar a valorização do leite através de produtos, categorias e mercados alinhados com as expetativas dos consumidores; promover a eficiência industrial, logística e organizacional que permita absorver a volatilidade dos mercados e proteger a estabilidade da produção; criar condições económicas e institucionais que permitam aos produtores planear e investir com confiança no futuro e investir em pessoas, tecnologia, dados e governação para reforçar a capacidade de decisão e execução do Grupo.
Trinta anos depois da sua criação, a Lactogal enfrenta um novo ciclo — mais global, mais exigente e mais competitivo — mantendo o foco na escala, na inovação e na valorização da produção ibérica.