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Irão: ataques intensificam-se e Turquia esteve na mira de míssil iraniano

Guerra estende as suas fronteiras geográficas e aumenta de intensidade. Nos Estados Unidos, os democratas no Congresso querem restringir os poderes de Donald Trump em termos das suas decisões de nível militar.

Um projétil balístico disparado do Irão em direção ao espaço aéreo turco foi intercetado e neutralizado por elementos de defesa aérea e antimíssil da NATO posicionados no Mediterrâneo Oriental, anunciou o Ministério da Defesa da Turquia. Em comunicado, o Ministério disse que o míssil balístico foi detetado depois de atravessar o espaço aéreo iraquiano e sírio e foi neutralizada a tempo, antes que representasse uma ameaça direta ao território turco. Os destroços encontrados no distrito de Dortyol, na província de Hatay, foram identificados como pertencentes a munições de defesa aérea utilizadas durante a intercetação. Não houve relatos de vítimas ou feridos no incidente.

O diretor de Comunicações do governo turco, Burhanettin Duran, publicou uma declaração dizendo que as instituições relevantes estão a monitorizar a situação em tempo real e a operar em coordenação. “A nossa determinação e capacidade de garantir a segurança do país estão no mais alto nível”, disse, acrescentando que a Turquia tomará todas as medidas necessárias para defender o território e espaço aéreo. Duran afirmou que Ancara responderá a quaisquer atos hostis dentro da estrutura do direito internacional e continuará as consultas e a cooperação com a NATO e os países aliados, mas que não deixa de envidar esforços diplomáticos com o objetivo de reduzir a tensão e promover a estabilidade na região.

Entretanto, segundo a imprensa turca, o ministro das Relações Exteriores do país, Hakan Fidan, conversou por telefone com seu homólogo iraniano, Abbas Araghchi, após a interceção do míssil balística. Segundo fontes do Ministério, Fidan transmitiu a reação da Turquia face ao sucedido e salientou a importância de evitar quaisquer medidas que possam agravar ainda mais as tensões ou levar a um conflito mais amplo na região.

Antes do episódio, era convicção dos analistas que a Turquia não seria atacada pelo Irão, ao contrário do que sucedeu noutros países da região. Desde logo porque o Estado turco é um potentado militar, mas também porque a corrente sunita turca não é a mesma daquela que controla a Arábia Saudita – essa si, considerada inimiga do xiismo persa. Segundo as informações disponíveis, a Turquia tem pelo menos duas bases militares que o Irão pode considerar serem dos Estados Unidos: Incirlik Air Base (base aérea em Adana, usada pelos norte-americanos e pera Turquia no quadro da NATO) e Izmir Air Station (também da NATO); tem ainda no seu território um radar alerta precoce da NATO, eventualmente aquele que impediu o ataque desta quarta-feira.

No mesmo contexto de expansão da guerra para lá do que se verificou nos primeiros dias do conflito, um submarino dos Estados Unidos disparou e afundou um navio de guerra do Irão que se encontrava em águas internacionais no Oceano Índico. O ataque foi confirmado pelo secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, que afirmou que “um submarino norte-americano afundou um navio de guerra iraniano que acreditava estar seguro em águas internacionais. Em vez disso, foi atingido por um torpedo”. O Pentágono identificou o navio como sendo o Soleimani (o mesmo nome do general iraniano Qasem Soleimani, morto por forças norte-americanas durante o primeiro mandato de Trump).

Ao cabo de cinco dias, o conflito estende-se assim à Turquia e a águas internacionais, depois de já tem atingido os Emirados Árabes Unidos, Qatar, Bahrein, Kuwait, Israel, Omã, Jordânia, Arábia Saudita, Iraque e Chipre.

 

Espanha cede às ameaças?

Por outro lado, a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou que a Espanha concordou em cooperar com as forças armadas dos Estados Unidos um dia depois de Trump sugerir a imposição de um embargo comercial total a Madrid devido à sua posição contra os ataques conjuntos ao Irão e à recusa em abrir bases a aviões norte-americanos que se dirigissem para o conflito. "Em relação à Espanha, acho que eles ouviram a mensagem do presidente de forma clara e inequívoca. E, pelo que entendi nas últimas horas, eles concordaram em cooperar com as forças armadas dos Estados Unidos", disse Leavitt – cujas palavras deixam por diversas vezes muitas dúvidas sobre se são opinião pessoal ou uma mensagem oficial da administração que a contratou.

Questionada sobre se Mojtaba Khamenei, filho do falecido líder supremo do Irão, surgiu como o principal candidato à sua sucessão, a secretária de imprensa da Casa Branca disse que as agências de inteligência dos Estados Unidos estão a monitorizar de perto a situação. "É claro que também vimos esses relatórios, e isso é algo que as nossas agências de inteligência estão a analisando de perto. A verdade é que teremos que esperar para ver", disse. "Quanto ao futuro do Irão? O presidente disse, obviamente, que é positivo para os Estados Unidos que desejarem a liberdade para o povo iraniano e, em última análise, esperamos que essa liberdade esteja nas suas mãos".

Quanto ao Irão pós-conflito, Leavitt, disse que o presidente está a debater a matéria. ”Acho que é algo que o presidente está a considerar ativamente e a discutir com os seus assessores e a sua equipa de segurança nacional", disse Leavitt.

 

Reticências internas

Mesmo assim, nem todos estão contentes com a gestão que Trump está a fazer em matéria de guerra no Irão. Segundo a imprensa norte-americana, o Senado e a Câmara dos Representantes a seguir (onde os republicanos são, nos dois casos, maioritários) devem votar uma resolução bipartidária sobre poderes de guerra, com o objetivo de interromper a campanha militar contra o Irão e exigir que quaisquer hostilidades contra o país sejam autorizadas pelo Congresso.

A mais recente iniciativa dos democratas e de alguns republicanos para conter os repetidos envios de tropas pelo presidente Donald Trump é descrita pelos seus autores como uma tentativa de retomar a responsabilidade do Congresso de declarar a guerra, conforme está estipulado na Constituição. Já antes os republicanos bloquearam tentativas de aprovar resoluções que procuravam restringir os poderes do presidente em matéria de guerra.

"A última coisa que o povo americano quer ou precisa é de outra guerra no Médio Oriente Médio", disse o líder democrata Chuck Schumer, um dos autores da resolução. “Quem está cansado das guerras no Médio Oriente Médio, que apoie a nossa resolução", disse num discurso no Senado.

Uma sondagem da Reuters/Ipsos divulgada na terça-feira mostrava que apenas um em cada quatro norte-americanos aprova os ataques ao Irão e cerca de metade acredita que Trump está disposto a usar a força militar de forma mais ou menos indiscriminada.

Do outro lado, os republicanos acusaram os democratas de fazer política com a segurança nacional e afirmam que Trump está a agir dentro dos limites dos poderes legais como comandante-em-chefe ao ordenar apenas operações limitadas, como a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro em janeiro. Mas a guerra contra o Irão está a extravasar esses limites e também já gerou as primeiras baixas norte-americanas.

Para surpresa de muitos, o senador Todd Young, um dos cinco republicanos que se uniram aos democratas para aprovar a resolução sobre os poderes de guerra contra a Venezuela em janeiro, divulgou uma declaração opondo-se à medida relativa ao Irão. Young afirmou que o regime de Teerão  "representa uma ameaça fundamental" à segurança nacional dos Estados Unidos e que se opõe a qualquer medida que limite as opções militares de Trump.

O presidente republicano da Câmara dos Representantes, Mike Johnson, disse acreditar que há votos suficientes para derrotar a resolução – ou seja, que os republicanos devem votar maioritariamente ao lado de Trump. Mesmo que a resolução seja aprovada no Senado, também precisa de ser aprovada na Câmara dos Representantes e posteriormente obter uma maioria de dois terços em ambas as câmaras para sobreviver a um provável veto de Trump.