Um projétil balístico disparado do Irão em direção ao espaço aéreo turco foi intercetado e neutralizado por elementos de defesa aérea e antimíssil da NATO posicionados no Mediterrâneo Oriental, anunciou o Ministério da Defesa da Turquia. Em comunicado, o Ministério disse que o míssil balístico foi detetado depois de atravessar o espaço aéreo iraquiano e sírio e foi neutralizada a tempo, antes que representasse uma ameaça direta ao território turco. Os destroços encontrados no distrito de Dortyol, na província de Hatay, foram identificados como pertencentes a munições de defesa aérea utilizadas durante a intercetação. Não houve relatos de vítimas ou feridos no incidente.
O diretor de Comunicações do governo turco, Burhanettin Duran, publicou uma declaração dizendo que as instituições relevantes estão a monitorizar a situação em tempo real e a operar em coordenação. “A nossa determinação e capacidade de garantir a segurança do país estão no mais alto nível”, disse, acrescentando que a Turquia tomará todas as medidas necessárias para defender o território e espaço aéreo. Duran afirmou que Ancara responderá a quaisquer atos hostis dentro da estrutura do direito internacional e continuará as consultas e a cooperação com a NATO e os países aliados, mas que não deixa de envidar esforços diplomáticos com o objetivo de reduzir a tensão e promover a estabilidade na região.
Entretanto, segundo a imprensa turca, o ministro das Relações Exteriores do país, Hakan Fidan, conversou por telefone com seu homólogo iraniano, Abbas Araghchi, após a interceção do míssil balística. Segundo fontes do Ministério, Fidan transmitiu a reação da Turquia face ao sucedido e salientou a importância de evitar quaisquer medidas que possam agravar ainda mais as tensões ou levar a um conflito mais amplo na região.
Antes do episódio, era convicção dos analistas que a Turquia não seria atacada pelo Irão, ao contrário do que sucedeu noutros países da região. Desde logo porque o Estado turco é um potentado militar, mas também porque a corrente sunita turca não é a mesma daquela que controla a Arábia Saudita – essa si, considerada inimiga do xiismo persa. Segundo as informações disponíveis, a Turquia tem pelo menos duas bases militares que o Irão pode considerar serem dos Estados Unidos: Incirlik Air Base (base aérea em Adana, usada pelos norte-americanos e pera Turquia no quadro da NATO) e Izmir Air Station (também da NATO); tem ainda no seu território um radar alerta precoce da NATO, eventualmente aquele que impediu o ataque desta quarta-feira.
No mesmo contexto de expansão da guerra para lá do que se verificou nos primeiros dias do conflito, um submarino dos Estados Unidos disparou e afundou um navio de guerra do Irão que se encontrava em águas internacionais no Oceano Índico. O ataque foi confirmado pelo secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, que afirmou que “um submarino norte-americano afundou um navio de guerra iraniano que acreditava estar seguro em águas internacionais. Em vez disso, foi atingido por um torpedo”. O Pentágono identificou o navio como sendo o Soleimani (o mesmo nome do general iraniano Qasem Soleimani, morto por forças norte-americanas durante o primeiro mandato de Trump).
Ao cabo de cinco dias, o conflito estende-se assim à Turquia e a águas internacionais, depois de já tem atingido os Emirados Árabes Unidos, Qatar, Bahrein, Kuwait, Israel, Omã, Jordânia, Arábia Saudita, Iraque e Chipre.
Espanha cede às ameaças?
Por outro lado, a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou que a Espanha concordou em cooperar com as forças armadas dos Estados Unidos um dia depois de Trump sugerir a imposição de um embargo comercial total a Madrid devido à sua posição contra os ataques conjuntos ao Irão e à recusa em abrir bases a aviões norte-americanos que se dirigissem para o conflito. "Em relação à Espanha, acho que eles ouviram a mensagem do presidente de forma clara e inequívoca. E, pelo que entendi nas últimas horas, eles concordaram em cooperar com as forças armadas dos Estados Unidos", disse Leavitt – cujas palavras deixam por diversas vezes muitas dúvidas sobre se são opinião pessoal ou uma mensagem oficial da administração que a contratou.
Questionada sobre se Mojtaba Khamenei, filho do falecido líder supremo do Irão, surgiu como o principal candidato à sua sucessão, a secretária de imprensa da Casa Branca disse que as agências de inteligência dos Estados Unidos estão a monitorizar de perto a situação. "É claro que também vimos esses relatórios, e isso é algo que as nossas agências de inteligência estão a analisando de perto. A verdade é que teremos que esperar para ver", disse. "Quanto ao futuro do Irão? O presidente disse, obviamente, que é positivo para os Estados Unidos que desejarem a liberdade para o povo iraniano e, em última análise, esperamos que essa liberdade esteja nas suas mãos".
Quanto ao Irão pós-conflito, Leavitt, disse que o presidente está a debater a matéria. ”Acho que é algo que o presidente está a considerar ativamente e a discutir com os seus assessores e a sua equipa de segurança nacional", disse Leavitt.
Reticências internas
Mesmo assim, nem todos estão contentes com a gestão que Trump está a fazer em matéria de guerra no Irão. Segundo a imprensa norte-americana, o Senado e a Câmara dos Representantes a seguir (onde os republicanos são, nos dois casos, maioritários) devem votar uma resolução bipartidária sobre poderes de guerra, com o objetivo de interromper a campanha militar contra o Irão e exigir que quaisquer hostilidades contra o país sejam autorizadas pelo Congresso.
A mais recente iniciativa dos democratas e de alguns republicanos para conter os repetidos envios de tropas pelo presidente Donald Trump é descrita pelos seus autores como uma tentativa de retomar a responsabilidade do Congresso de declarar a guerra, conforme está estipulado na Constituição. Já antes os republicanos bloquearam tentativas de aprovar resoluções que procuravam restringir os poderes do presidente em matéria de guerra.
"A última coisa que o povo americano quer ou precisa é de outra guerra no Médio Oriente Médio", disse o líder democrata Chuck Schumer, um dos autores da resolução. “Quem está cansado das guerras no Médio Oriente Médio, que apoie a nossa resolução", disse num discurso no Senado.
Uma sondagem da Reuters/Ipsos divulgada na terça-feira mostrava que apenas um em cada quatro norte-americanos aprova os ataques ao Irão e cerca de metade acredita que Trump está disposto a usar a força militar de forma mais ou menos indiscriminada.
Do outro lado, os republicanos acusaram os democratas de fazer política com a segurança nacional e afirmam que Trump está a agir dentro dos limites dos poderes legais como comandante-em-chefe ao ordenar apenas operações limitadas, como a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro em janeiro. Mas a guerra contra o Irão está a extravasar esses limites e também já gerou as primeiras baixas norte-americanas.
Para surpresa de muitos, o senador Todd Young, um dos cinco republicanos que se uniram aos democratas para aprovar a resolução sobre os poderes de guerra contra a Venezuela em janeiro, divulgou uma declaração opondo-se à medida relativa ao Irão. Young afirmou que o regime de Teerão "representa uma ameaça fundamental" à segurança nacional dos Estados Unidos e que se opõe a qualquer medida que limite as opções militares de Trump.
O presidente republicano da Câmara dos Representantes, Mike Johnson, disse acreditar que há votos suficientes para derrotar a resolução – ou seja, que os republicanos devem votar maioritariamente ao lado de Trump. Mesmo que a resolução seja aprovada no Senado, também precisa de ser aprovada na Câmara dos Representantes e posteriormente obter uma maioria de dois terços em ambas as câmaras para sobreviver a um provável veto de Trump.