O Irão disse esta quarta-feira que está a analisar uma nova proposta de paz enviada pelos Estados Unidos através do Paquistão, que contempla uma nova visão sobre a matéria: com apenas uma página ao invés de uma multiplicação de pontos, a proposta admite um fim imediato da guerra no Golfo, deixando questões delicadas como o programa nuclear iraniano para um momento posterior.
Um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, citado pela agência de notícias iraniana ISNA, disse que Teerão transmitirá em breve a sua resposta, sempre por via do Paquistão. A expectativa em Washington – a acreditar nos mais diversos meios de comunicação – é que o Irão aceite a proposta. Até porque ela vai de encontro a uma das mais fechadas imposições de Teerão: deixar a questão nuclear para mais tarde.
Entretanto, o presidente Donald Trump, repetiu que o Irão quer negociar. “Estamos a lidar com pessoas que querem muito chegar a um acordo, e veremos se elas conseguem ou não chegar a um acordo que seja satisfatório para nós", disse, à margem de um evento na Casa Branca. O escalonamento das negociações posterior a um fim dos combates já tinha surgido da parte do Irão. Depois disso, as duas partes terão ocasião, é essa a expectativa veiculada pela imprensa norte-americana, para discutir o desbloqueamento do Estreito de Ormuz, a suspensão das sanções norte-americanas contra o Irão e finalmente o programa nuclear iraniano. "Vamos concluir isto muito em breve, estamos quase lá", disse uma fonte do Paquistão citada pela imprensa.
Nas redes sociais, Trump escreveu: "Supondo que o Irão concordará em ceder o que foi acordado, o que talvez seja uma grande suposição, a já lendária Fúria Épica chegará ao fim, e o bloqueio altamente eficaz permitirá que o Estreito de Ormuz fique ABERTO A TODOS, incluindo o Irão". "Se eles não chegarem a um acordo, os bombardeios começarão e, infelizmente, serão num nível e intensidade muito maiores do que antes", acrescentou.
Horas antes, Trump havia suspendido uma missão naval de dois dias para reabrir o estreito, alegando progressos nas negociações de paz. Trump não alegou essa parte, mas ficou provado que o sistema simplesmente não funcionou, dado que os capitães dos navios não tinham nenhum motivo, antes pelo contrário, para se sentirem seguros na travessia, por muitos que a marinha de guerra norte-americana navegasse por perto.
Esta quarta-feira, as forças militares dos Estados Unidos dispararam vários tiros contra um petroleiro de bandeira iraniana que estava vazio, incapacitando a embarcação, que, segundo disse o Comando Central dos EUA, tentava furar o bloqueio.
Caso ambas as partes concordassem com o acordo preliminar, dizia ainda a imprensa norte-americana, a expectativa é a de que, num prazo de 30 dias, as negociações mais detalhadas tenham início.
O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, disse que o seu país e os Estados Unidos planeiam conversar sobre o assunto, mas insiste que todo o urânio enriquecido deve ser removido do Irão para impedir que o país desenvolva uma bomba nuclear.
Alguns analistas chamaram a atenção para o facto de, em princípio, Donald Trump realizar uma visita de Estado a Pequim nos dias 14 e 15 de maio. Ora, dizem, o presidente dos Estados Unidos teria todo o interesse em chegar à capital da China com a solução para a guerra no bolso.
Mercados aliviam
Por qualquer razão – uma delas há de ser o facto de a proposta dos Estados Unidos ‘copiar’ pelo menos parte de uma anterior proposta iraniana – os mercados globais observaram com otimismo esta fase do processo: os preços do petróleo registaram mínimas de duas semanas, com os contratos futuros do petróleo Brent, referência internacional, a caírem de 11%, abaixo da fasquia dos 100 dólares (mais precisamente 98 dólares) por barril; mais tarde, os preços voltaram a subir ligeiramente para os 101,60 dólares, mas a nota de otimismo não desapareceu.
Do mesmo modo, os preços das ações globais dispararam e os rendimentos dos títulos públicos caíram, o que os analistas dizem ser mais um sintoma de otimismo em relação ao possível fim de uma guerra.
Economia de guerra
De qualquer modo, ainda esta quarta-feira, o poder iraniano incentivou a população a passar a utilizar, no dia-a-dia, um modelo mais económico, para fazer face ao esforço de guerra. Segundo a imprensa iraniana, o presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou que o Irão está a travar uma das maiores guerras da sua história moderna e apresentou cinco recomendações a diferentes segmentos da sociedade, incluindo os iranianos no exterior. Ghalibaf disse que o inimigo tem como uma das armas que utiliza pressionar economicamente o regime, nomeadamente por via do bloqueio marítimo.
“O inimigo depositou grandes esperanças na pressão económica”, disse Ghalibaf, observando que “quanto maior a pressão económica sobre a nação iraniana, mais dificuldades ela suportará em nome da independência, dignidade, fé e crenças”. "Estou surpreso que eles ainda não tenham entendido que a nação iraniana dará a vida, mas não se renderá."
E afirmou que as autoridades têm o dever de trabalhar em conjunto para mitigar os efeitos da pressão económica sobre a população. O ato de ajuda mais eficaz que os cidadãos podem oferecer é a "poupança", descrevendo-a como um "míssil que o povo pode disparar contra o coração do inimigo".
Ghalibat exortou a que todos se ajudem mutuamente a suportar menos dificuldades e pediu aos membros da força voluntária Basij que se concentrassem no acompanhamento das necessidades da população. Apelou ainda a especialistas e elites para que encontrem ideias e planos para resolver os problemas decorrentes da guerra e finalmente apelou à diáspora: “Muitos de vocês têm grande capacidade económica, muitos de vocês têm grande capacidade técnica e muitos de vocês têm excelente capacidade de comunicação. O Irão precisa hoje de cada um de vocês”.
Apoio da China
Entretanto, a imprensa iraniana avança que o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, afirmou esta quarta-feira que o seu homólogo chinês concordou que o Irão passou por uma transformação significativa após a guerra, alcançando um estatuto internacional mais elevado e demonstrando a sua capacidade e autoridade.
Falando após uma reunião com o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, em Pequim, Araghchi afirmou que “os nossos amigos chineses também acreditam que o Irão do pós-guerra é diferente do Irão do pré-guerra”. Nesse contexto, “um novo período de cooperação entre o Irão e outros países se anuncia”.
Araghchi afirmou que, com o seu homólogo chinês, discutiu todas as questões atuais, incluindo a guerra imposta pelos Estados Unidos e Israel e como encontrar uma forma de a acabar. Assuntos relacionados com o programa nuclear do Irão, as sanções e a situação no Estreito de Ormuz foram igualmente abordados.
Entretanto, no Líbano
Delegações do Líbano e de Israel deverão reunir novamente em Washington, de 13 a 15 de maio, para discutirem os termos da prorrogação do cessar-fogo, informou alguma imprensa, que citava fontes do Departamento de Estado dos EUA. A delegação libanesa incluiria um grupo de diplomatas e oficiais militares liderados pelo ex-embaixador nos Estados Unidos, Simon Karam.
Esta semana, o presidente libanês, Joseph Aoun anunciou que uma terceira ronda de conversas preparatórias ocorreria nos próximos dias e "prepararia o terreno para negociações diretas". As reuniões entre as partes estão a ocorrer no Departamento de Estado dos EUA, com o apoio ativo do governo de Trump.
Após a primeira ronda, a 14 de abril, foi alcançado um acordo para estabelecer um cessar-fogo no Líbano, com vigência a partir de 17 de abril. Em seguida, após a segunda ronda, a 23 de abril, foi anunciado que o cessar-fogo seria prorrogado por três semanas. O Líbano insiste em uma nova prorrogação do cessar-fogo e na elaboração de um cronograma para a retirada das forças de ocupação das regiões do sul, enquanto Israel tenta o desarmamento completo do grupo militante xiita Hezbollah e um acordo de paz de longo prazo.
No terreno, as coisas são bem diferentes. Israel realizou o seu primeiro ataque em Beirute desde que o cessar-fogo no Líbano entrou em vigor a 17 de abril. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e o ministro da Defesa, Israel Katz, afirmaram que o alvo era o comandante da força Radwan, elite do Hezbollah. “As Forças de Defesa de Israel (IDF) acabam de atacar em Beirute o comandante da força Radwan, da organização terrorista Hezbollah, com o objetivo o eliminar”, diz um comunicado conjunto.
Netanyahu e Katz afirmam que os agentes da Radwan “foram responsáveis por disparar contra comunidades israelitas e ferir soldados das IDF”. “Nenhum terrorista tem imunidade, o longo braço de Israel alcançará todos os inimigos e assassinos. Prometemos trazer segurança aos moradores do norte. É assim que agimos e é assim que continuaremos a agir”, acrescentava o comunicado.