A região do Alentejo e Baixo Alentejo registou prejuízos turísticos de 14 milhões de euros causados pelas tempestades que assolaram os concelhos de Alcácer do Sal, Almeirim, Alpiarça, Azambuja, Campo Maior, Cartaxo, Coruche, Gavião, Golegã, Mértola, Nisa, Odemira, Rio Maior, Salvaterra de Magos e Santarém, principalmente no mês de janeiro. As infraestruturas turísticas públicas foram as mais atingidas, registando prejuízos de cerca de 11 milhões de euros, enquanto as infraestruturas turísticas privadas, a sua maioria alojamentos turísticos, os estragos foram na ordem dos três milhões de euros, segundo os dados revelados ao Jornal Económico (JE) pela Entidade Regional do Turismo do Alentejo e Ribatejo (ERT).
Em entrevista ao JE, José Santos, presidente da ERT lança um apelo para a necessidade de entrar dinheiro na tesouraria das empresas "rapidamente", em detrimento de verem a sua atividade interrompida, apelando por isso ao Estado para que "esteja presente". Depois do melhor ano de sempre na região em 2025, José Santos traça a estratégia para este ano e na aposta de "brandização" do aeroporto de Beja e no impacto que o mesmo pode ter no desenvolvimento do turismo, nomeadamente na zona da Comporta. "O aeroporto de Beja tem tido um crescimento no segmento da aviação executiva e da aviação comercial", afirma.
Que papel teve o Turismo do Alentejo para ajudar a recuperar a região após as tempestades?
Fizemos duas coisas. A primeira foi fazer um levantamento com o Alentejo e o Ribatejo das zonas mais afetadas. É verdade que no Alentejo há duas zonas importantes, a cidade de Alcácer do Sal e o concelho de Gavião.
Depois há outros concelhos, onde o impacto não foi tão evidente, como Odemira, Mértola, Nisa, mas onde houve danos também na infraestrutura pública de apoio ao turismo, redes de recursos pedestres, áreas de serviço de autocaravanismo, centros de cycling, cais que apoiavam o turismo náutico e fluvial.
Houve um caso mais complexo, de Alcácer do Sal, que nos preocupa mais e fizemos também o levantamento dos danos nas infraestruturas privadas, como estabelecimentos de restauração e nos empreendimentos turísticos.
E depois, numa segunda dimensão, junto do secretário de Estado do Turismo de Comércio e Serviços e do presidente do Turismo de Portugal, explicando que, de facto, as linhas de crédito do banco de fomento não são suficientes.
Acho que, por vezes, o Estado se intromete excessivamente na vida dos cidadãos e na vida das empresas. Mas aqui é onde o Estado tem que estar presente. Aqui só há uma alternativa e um caminho, que é o fundo perdido, ou o subsídio não reembolsável. Se não vamos condenar essas empresas à interrupção da atividade.
Tem que entrar rapidamente dinheiro na tesouraria dessas empresas. Eu sei que há preocupações do Estado a outro nível, de equilíbrio orçamental, de défice, mas neste momento estamos a falar da vida de pessoas, de poupanças de anos e anos, de postos de trabalho.
Na praia fluvial do Gavião, que é das principais atrações turísticas do Alto Alentejo, os negócios que estão ali estão todos destruídos. A atividade económica ficou interrompida. Estamos a falar de um perfil de empresários que, se não for apoiado, não vai conseguir retomar a atividade. Em Alcácer do Sal, dezenas de restaurantes, alojamentos locais, hotéis. É aqui que nós precisamos de um Estado rápido, interveniente e presente, com apoios adequados à natureza do promotor.
Como tem sido o apoio financeiro para a região?
Nós temos uma vantagem que são os planos extraordinários de promoção que o Turismo de Portugal e a secretaria de Estado do Turismo lançou e temos tido um reforço desse financiamento e isso é muito importante. Não temos tido uma redução, por um lado, do financiamento dos fundos europeus.
Continuamos a ter fundos europeus para fazer a promoção, mas a uma escala bastante inferior àquela que tivemos nos últimos 10, 15 anos. Felizmente que do lado do Turismo de Portugal e da secretaria de Estado do Turismo, temos hoje mais fundos para poder trabalhar mais e melhor a promoção a promoção externa.
Consegue encontrar justificações para essa quebra?
Sim, de certa forma, houve um aumento do crescimento da oferta em número de camas e a procura não conseguiu acompanhar esse aumento. Depois tem a ver com um pouco com a tipologia do perfil do turismo do Alentejo. Nós não temos grandes grupos. Estamos a procurar através dos eventos ajudar na recuperação da taxa de ocupação cama, porque obviamente, os eventos trazem volume para a ocupação dos hotéis.
O Alentejo não pode ser turismo numa zona de passagem, o Alentejo tem que ser cada vez mais um destino de estadia e não podemos ser um destino de três ou quatro meses. Não diria sermos um destino de todo o ano. Isso é difícil, eventualmente será a Madeira e Lisboa, mas temos de ser um destino turístico de oito ou nove meses.
Como é que podemos inverter a descida da taxa de ocupação cama? É procurar mudar um pouco o perfil e a tipologia do visitante do Alentejo, tentando ter mais circuitos organizados, mais eventos e aumentar a capacidade de retenção dos turistas.
Há uma tendência do mercado internacional que de certa forma, nos tem penalizado naquilo que tem a ver com as séries. As séries são viagens organizadas por operadores ao longo do ano. O Alentejo tem algumas séries e essas séries têm cada vez menos pessoas. Estamos a tentar recuperar algumas dessas operações. Essas séries são muito importantes porque são grupos organizados para termos mais ocupação ao longo do ano nas estruturas hoteleiras.
A taxa de ocupação de cama subiu em Grândola e Sines, mas desceu em Évora. Isto é um número médio. A região é tão diversa que as operações hoteleiras são diferentes. Nós temos que criar soluções com os hoteleiros para responder à diversidade dessas operações hoteleiras.
Temos zonas do Alentejo que estão a crescer muito. O Alentejo litoral já tem 40% do número de camas e 35% da procura, daí também a proposta que fizemos ao Governo de criar especialmente para o eixo Troia-Melides a tal estrutura de missão que possa gerir e responder a um conjunto de desafios muito complexos, que aquele território tem.
Preservarmos aquele destino e garantirmos que cresce de uma forma sustentável e de uma forma adequada. Depois temos Évora, que é um concelho em que há muita competição, há muita concorrência e obviamente precisamos também de elevar o preço médio do alojamento na cidade.
E sendo a capital europeia da cultura é uma oportunidade única de acrescentar e criar valor à operação hoteleira de Évora e ao turismo da cidade. Évora está a construir o novo hospital central de toda a região, que é uma infraestrutura muito importante para a população de todo o Alentejo, mas também estratégica para o próprio turismo.
Depois temos, obviamente, os desafios do Alto Alentejo, onde a questão das acessibilidades continua a ser determinante. É preciso uma autoestrada que melhore a acessibilidade até ao distrito e à cidade de Portalegre. E eu sei que isso é imprescindível. Eu assisti ao efeito da construção da A-6 em 1998 e o impacto que teve no desenvolvimento do turismo na cidade de Évora. E depois, no Baixo Alentejo, obviamente, há algumas questões importantes.
Que importância pode ter o aeroporto de Beja no turismo?
O aeroporto de Beja, à medida que o turismo se vai desenvolvendo na região vai ser um ativo mais relevante. No Alentejo somos relativamente poucos e isso até do ponto de vista do argumento de venda do turismo é um aspeto que às vezes no nosso marketing é positivo.
Mas um aeroporto vende-se também pela quantidade de pessoas que saem do aeroporto para fora. O aeroporto no que diz respeito à componente civil, depende basicamente do turismo. O aeroporto tem tido um crescimento no segmento da aviação executiva e da aviação comercial.
Ainda não tenho os dados de 2025, mas em 2024 tivemos mais de 600 movimentos de aviação executiva e de táxis comerciais e tivemos 30 charters não regulares. Claro que alguns desses charters, os passageiros que desembarcaram em Beja não ficaram na região, às vezes vão para convenções ou até associados a alguns eventos desportivos ou musicais.
O aeroporto de Beja, por exemplo, por isso é que os investidores, os empresários turísticos na zona da Comporta, têm um contacto direto diário com a operação do aeroporto de Beja, que é estratégico, até olhando para aquilo que corre menos bem em Lisboa.
O aeroporto de Beja já é importante para alguma componente de turismo residencial na zona da Comporta. Neste primeiro semestre vamos ter dois novos hotéis, o Sublime 2 e o e o Hotel na Praia. Um hotel com 40 quartos, 140 moradias do Grupo Inditex em Troia. E muito destes clientes destes hotéis utilizarão o aeroporto de Beja nesta vertente de mais aviação executiva e aviação comercial e de táxis comerciais.
Portanto, à medida que o parque de alojamento da região vai crescendo, ele cresce dentro daquilo que é a promessa de valor e a tipologia de destino do Alentejo. Para termos mais de 200 camas no Alentejo, precisamos de três ou quatro hotéis. Um hotel no Alentejo, com algumas exceções tem 20, 30 ou 40 quartos. Esse é o modelo de desenvolvimento turístico do Alentejo. Não vamos ter no Alentejo hotéis com três andares ou com 200 quartos. O aeroporto de Beja vai-se ajustando à evolução do destino.
Perante essa evolução é necessário investir no aeroporto?
É muito importante concluir e melhorar as acessibilidades do aeroporto. E aí penso que o Estado deve também deve estar atento a esta evolução do turismo e nós temos feito esse trabalho pedagógico. Este ano vamos fazer duas coisas muito concretas no aeroporto de Beja, até para dar um sinal de que nós, Turismo do Alentejo consideramos aquela infraestrutura estratégica.
Licenciámos o posto de turismo do aeroporto junto da ANA e vamos agora brandizá-lo. Há muitos visitantes que chegam ao aeroporto de Beja e não sabem onde estão. Chegam ao aeroporto de Beja com o taco do golfe e vão para a Comporta, o que é ótimo, mas eles têm que saber que estão no Alentejo. Portanto, vamos brandizar esse posto de turismo, criar uma equipa de promotores que lhes vai dar um giveaway e dizer, vocês estão no Alentejo.
Vamos com o Turismo de Portugal desenvolver um pequeno plano de formação para os profissionais que estão no aeroporto da Autoridade Tributária, da PSP, fazer aquilo que não se consegue fazer às vezes num grande aeroporto, que é muito confuso, mas conseguimos fazer no aeroporto Beja, porque é mais pequeno, no sentido de criar ali uma cultura de hospitalidade e de acolhimento a quem chega.
O aeroporto de Beja entrou no nosso dia a dia. Havia um divórcio entre o turismo e o aeroporto e hoje não há. Hoje o aeroporto de Beja é um player do turismo da região, obviamente, dentro daquilo que é a escala realmente de um destino turístico, como o Alentejo.
Que balanço faz de 2025 do turismo no Alentejo e Ribatejo?
Foi o melhor ano turístico de sempre para a nossa região. Em dormidas crescemos 6,3%, em hóspedes crescemos mais de 4%. Conseguimos ser a região que mais cresceu na procura turística Internacional com 5%, sensivelmente o que tínhamos crescido também em 2024. Um crescimento muito expressivo na procura turística de portugueses, com 7% face aos 4% que tínhamos crescido no mercado nacional em 2024.
Atingimos 3 milhões e 400 mil dormidas. Os proveitos, tivemos o segundo maior crescimento de proveitos, penso que só a Madeira é que teve o crescimento superior ao Alentejo, crescemos quase 11%.
Pela primeira vez ultrapassamos a barreira dos 300 milhões de euros de proveito, o que para um destino como o Alentejo que vale, 6,2% da oferta, 4,5% da procura de todo o país, é muito expressivo e registamos uma ligeira quebra de 1,9% na ocupação de camas.
Chegámos em termos de estadia média às duas noites. Andámos durante muitos anos entre 1,8 e 1,9 noites. Cada vez mais a estadia média ou o aumentar da estadia média é muito importante.
Porquê?
Porque, provavelmente nos próximos anos vamos ter uma taxa de crescimento de hóspedes menor. Vamos ter menos turistas a entrar no até no país, até por força das limitações do Aeroporto de Lisboa e é muito importante trabalharmos com mercados internacionais também o mercado nacional. Mas globalmente foi um excelente ano turístico. Em que o Alentejo, em termos percentuais, foi a região do país que mais cresceu entre o milhas e a segunda que cresceu mais em proveitos.
Quais são as estratégias para 2026?
Gostava que o Alentejo continuasse a crescer. O ano passado ainda crescemos 6,3%. Penso que um dos pressupostos com os quais o Governo está a trabalhar até no âmbito da estratégia de 2035, que é um crescimento à volta dos 4,5%. É aquilo que se prevê que o mundo cresça.
Nós temos uma base de crescimento em alguns mercados internacionais, onde podemos crescer mais do que do que essa média, até porque partimos de uma base mais baixa. O mercado nacional estava com crescimentos mais pequenos, nomeadamente 4% em 2024 e foi uma boa surpresa termos crescido quase 7% do mercado nacional em 2025.
É verdade que fizemos um grande investimento na promoção do mercado interno, especialmente com toda a dinâmica que criámos por termos sido o destino convidado na BTL o ano passado. Todas as campanhas que desenvolvemos, nós nunca investimos tanto em promoção como estamos a investir neste momento na região do Alentejo. Tentar manter o mesmo nível de crescimento e manter o Alentejo na liderança do crescimento do mercado português.
Estamos a procurar reforçar muito a promoção internacional e isso também justifica o desafio da Agência de Promoção Turística, porque é aí que nós podemos ter taxas de crescimento de maiores. E também a forma que nós temos para compensar o crescimento da oferta é através da procura externa e da redução da sazonalidade, da inversão da questão da taxa de ocupação de cama e, portanto, a procura internacional é estratégica para o nosso trabalho deste ano.
A nossa previsão é tentarmos crescer dentro da mesma ordem que crescemos em 2025, sabendo que estamos a entrar numa conjuntura de estabilização de preços, estabilização de crescimento. Nós não competimos no Alentejo pela quantidade, competimos pela qualidade, é manter essa trajetória.
Esse investimento na promoção passa muito pela aposta no mercado externo?
Os eventos são muito importantes para aumentar a taxa de ocupação de camas, até porque o nosso perfil de turista assenta muito no casal, ou viagens individuais ou de casais com poucos filhos e, portanto, quer dizer, a ocupação dentro de um quarto às vezes não é das duas camas, em média, e, portanto, os eventos, entre outras formas, são um instrumento muito importante para nós conseguirmos aumentar a nossa taxa de ocupação e a redução da sazonalidade se tivermos um calendário de eventos organizado ao longo do ano.
Este ano vamos investir 2,5 milhões em eventos. É muito significativo e procurámos ter um grande evento nos vários subterritórios. As festas do povo de Campo Maior no Alto Alentejo, que é um evento de expressão nacional e ibérica,
O Baixo Alentejo, Cidade Europeia do Vinho, precisamente no Baixo Alentejo, o Campeonato do Mundo de Enduro, que é uma disciplina do motocross, a centésima edição, a previsão é de levar mais de 100 mil pessoas aos cinco concelhos do Litoral alentejano, em outubro deste ano.
Obviamente já há toda a dinâmica que está a crescer com o facto de estarmos no ano que antecede Évora, capital da cultura em 2027. Na procura Internacional é um ano em que vamos ter duas grandes convenções do mercado brasileiro.
O mercado brasileiro, infelizmente, e é uma tendência do país ainda não conseguimos recuperar os valores da pré-pandemia. Neste momento está no nosso ranking dos seis principais mercados, mas já foi o terceiro mercado do Alentejo. Mas é um mercado no qual nós acreditamos muito e sendo um mercado de longa distância, pode ter um impacto importante precisamente na questão da estadia média.
Estamos a procurar trabalhar melhor os mercados canadiano e americano. O mercado americano, nos últimos 10 anos, cresceu 19% ao ano no Alentejo, mas teve uma estabilização em 2025, até houve um decréscimo de 2,3% no número de hóspedes, mas um crescimento de dormidas de quase 1%.
Espanha é o nosso principal mercado externo. Aliás, a única região de Portugal que cresceu o ano passado no mercado espanhol foi o Alentejo. Espanha tem uma cota de mercado de 8% no total das dormidas.
A mão de obra continua a ser um problema?
O problema existe, mas aquilo que precisamos é de empresários que percebam o desafio e o contexto e que deem respostas diferentes ao problema. E eu encontro empresários no Alentejo que estão a resolver o problema, desde logo oferecendo pacotes remuneratórios e soluções, porque em Portugal houve um grande desinvestimento nos últimos anos relativamente à habitação, ou seja, construíram-se muitos poucos fogos em Portugal nos últimos 10 anos.
Têm que ser os empresários a resolver o problema da habitação. E nós temos vários exemplos no Alentejo de empresários que criam um modelo de pacote remuneratório diferenciado. Nós não podemos ter soluções hoje laborais e remuneratórias iguais àquelas de há 5 ou 10 anos atrás. Criam soluções de habitação. Muitas das vezes alugam casas, recuperam casas. E já perceberam que os seus trabalhadores não querem estar em barracões a dois ou três quilómetros do hotel na mesma herdade.
Querem ter uma habitação condigna e querem estar, se possível, nas localidades ou nas sedes de concelho, ou nas freguesias próximas do hotel, com a sua família. Percebem que esses trabalhadores querem, se forem acarinhados, se entrarem num plano de formação, num plano de valorização e de reconhecimento, conseguirão ter uma carreira promissora nessa unidade.
Sobre a questão da atração e da retenção de recursos, penso que o Estado há muitas coisas que pode fazer. Dentro destes novos desafios da lei dos solos, as autarquias podem pegar em casas de função e transformar as casas de função em soluções de habitação acessível para os trabalhadores.
Acho que as políticas públicas nessa área são muito conservadoras e pouco proativas. Acho que se tem feito muito pouco aí. Pelas câmaras, pelas comunidades intermunicipais, pelo próprio Estado. Os empresários é que têm que resolver o problema. Eu gostaria que o Estado fosse muito mais ativo, muito mais imaginativo, muito mais proativo.
Todos nós sabemos o imenso património que existe nas cidades e que podia ser rentabilizado, mas os empresários estão e bem na primeira linha. Há um projeto no base do Alentejo muito interessante. Lá está, daqueles hotéis boutique que só há no Alentejo, de grande qualidade, em que esse empregador, esse investidor, conseguiu ir ao Algarve buscar trabalhadores de 20, 25, 26 anos que, curiosamente, eram originários da localidade ou da zona onde esse hotel está implantado e ofereceu-lhes um projeto de formação.
Qual é o trabalhador que não prefere estar a trabalhar num hotel que não tem cinco andares, próximo de casa em que se sente a participar num projeto da sua comunidade, da sua região, em vez de estar noutra zona a subir um elevador quatro ou cinco vezes por cada dez minutos.
A questão da mão-de-obra imigrante tem sido fundamental. Eu tenho dito isso várias vezes. Quer dizer, sem imigrantes, o turismo em Portugal não tinha a capacidade que tem hoje, de operação, de produção, e no Alentejo também. Nós chegamos a grandes unidades de luxo no Alentejo e temos quatro ou cinco profissionais responsáveis por cada área. Um é colombiano e outro é moçambicano, e são profissionais de grande qualidade, porque tiveram formação, mas em que há um grande empenho da própria gestão da unidade e integrá-las social e profissionalmente.
A imigração, neste caso tem sido decisiva para podermos resolver esses problemas, mas desejaria que o Estado e as autarquias fossem mais proativos, mais criativos, utilizando muito património e muitas casas de função que não têm utilização. Mas, repito, os empresários aqui são precisamente fundamentais. E não é fácil abrir um hotel no interior do Alentejo.
Um bom projeto, uma boa solução de carreira, uma boa remuneração, um pacote remuneratório diferente, uma boa solução de habitação para a pessoa e para a família, podem fazer a diferença. Acho que nos devemos focar muito nisso.
Considera que existe falta de vontade do Estado e das autarquias?
Às vezes falta criatividade nas nossas políticas públicas. Ao nível das autarquias e ao nível do Estado. Temos de ser mais criativos, mais imaginativos. Procurarmos a solução de parceria com o privado. Temos que nos abrir, temos que falar com o privado, temos que criar soluções e estamos a falar da economia a crescer. Isto é rendimento para as regiões, é rendimento para as famílias.
O turismo só é importante se melhorar a qualidade de vida das pessoas. O turismo tem que ou ajudar a manter as pessoas que já estão na região ou a atrair novos talentos para a região, talentos, pessoas que têm formação na área e o turismo, como sabemos, é um multiplicador. Nós no turismo conseguimos agregar quase tudo.
Quando eu proponho ao Governo criar uma estrutura de missão para gerir o desenvolvimento do destino, Troia-Melides, e quando eu digo que essa estrutura de missão tem que ser coordenada pelo Ministério da Economia e da Coesão Territorial, e quando eu acho que de seis em seis meses essa estrutura tem que ter o envolvimento do primeiro-ministro, eu sei que esta proposta é um bocado voluntariosa, eu tenho a noção disso.
Como deveria ser desenvolvida essa estrutura de missão?
Tem que desenvolver um plano de mobilidade integrado, porque nós olhamos para aquela zona do litoral entre Troia e Melides, há uma grande dispersão dos hotéis e dos condomínios turísticos ou imobiliários. Cada hotel anda com uma frota a buscar trabalhadores, a Setúbal, a Troia. Vamos criar um plano de mobilidade integrado.
As comunidades intermunicipais são autoridades de transportes. Claro que têm que responder às necessidades do dia-a-dia dos estudantes, dos idosos, a questão da saúde, da mobilidade das pessoas. Mas o turismo tem que entrar nessa equação. Isto é uma observação normal, mas isso tem que entrar nas políticas.
Nós temos que capacitar meios para o combate aos incêndios em grandes destinos turísticos. Temos que ter um plano de preservação da identidade regional dessa zona, porque a autenticidade do Alentejo tem que se manter nessa zona.
Obviamente, há atração de marcas internacionais, grandes grupos, um determinado segmento de mercado, mas temos que criar condições para que o Alentejo se mantenha ali vivo, porque isso é a nossa cultura e no fim do dia, faz a diferença, das pessoas virem ou não. Ou seja, nós precisamos para problemas novos, soluções diferentes.
O setor do turismo devia ter o seu próprio ministério?
Não acho que seja imprescindível. O turismo tem que estar mais presente em todas as decisões de todos os ministérios. Todas as medidas que são tomadas nas infraestruturas, claro que na economia, onde está o turismo, na saúde, até na educação, nas acessibilidades, no ambiente, e o ambiente aí é fundamental, porque temos que proteger o território de projetos que são contra o turismo.
Os projetos das centrais fotovoltaicas, das centrais eólicas, das minas. Quando nós temos projetos de centrais fotovoltaicas em que o parecer do Turismo de Portugal e dou o exemplo de um projeto concreto na zona de Évora, que diz "se este projeto for implementado desta forma, há uma perda irreparável e definitiva do valor paisagista e turístico". O turismo tem que ser chamado a intervir neste processo.
Isso é uma opção que se faz, porque se estes projetos se avançarem, significa que essas zonas perdem a sua atratividade turística, mas isso é uma escolha que o Estado faz. Neste momento vejo os autarcas finalmente, os autarcas de Alqueva empenhadíssimos porque perceberam que há projetos para a zona de Alqueva e para o lago de Alqueva, que vão destruir todos os esforços que eles, autarcas e os empresários desenvolveram nos últimos cinco, dez anos.
Ou quando percebemos, por exemplo, agora para o concelho de Odemira, que o projeto da central eólica, na localização que se pretende, vai destruir um caminho de mais de uma década ou duas décadas que Odemira iniciou para se especializar no turismo e no ambiente.
Portanto, a questão da proteção turística do território, do valor paisagista do território como ativo turístico, é uma questão muito importante e que o ministro que tutela o turismo e que tem a economia, obviamente que o país não pode sobreviver de turismo.
Portanto, ainda que eu tenho uma ideia que hoje, neste momento, aquilo que está a ser projetado em termos de capacidade de produção de energia é muito superior àquilo que o país precisa. Esta é uma reflexão que a sociedade e o país têm que fazer.
O Alentejo já teve a monocultura dos cereais. De repente, parece que se olha para o Alentejo como a monocultura das energias renováveis. A decisão da APA de reprovar a instalação da mina da Lagoa Salgada em Grande foi uma decisão corretíssima.
O Estado decide bem também muitas vezes. Esse projeto era um projeto contraproducente. Então nós queremos especializar uma área no turismo e no lazer. E vamos colocar uma mina no coração dessa zona, isto não faz sentido nenhum.
E nós temos feito muito esse papel de uma forma criteriosa, procurando sermos credíveis. O país tomou uma opção há uns anos. O turismo é estratégico para o país. Eu acho que todos os primeiros-ministros e todos os ministros, de um modo geral, têm assumido isso. É importante que nas decisões que são tomadas nas políticas de habitação, de acessibilidade, de ambiente, o turismo esteja sempre presente. É uma espécie de um alerta do turismo.