Skip to main content

Graça Morais : Num mundo à deriva, resta-nos a amizade, o amor e a arte

Entrevista : Aos 78 anos, a pintora Graça Morais não mente a si própria. Pinta as dores do mundo, as caminhadas do medo que habitam o ser humano. “Nem todos os artistas pintam cenas trágicas, mas o seu papel é dizer a verdade.” Até 13 de setembro, no Palácio Anjos, em Algés, vale a pena enfrentar a sua perplexidade perante um mundo que se estilhaça.

Se no princípio era o verbo, aqui foram os lápis de cor. “Aqui” remete para uma vida que ainda não tinha traço firme, contundente. “Aqui” remete para uma criança que descobria o mundo a partir da aldeia do Vieiro, em Trás-os-Montes. Graça Morais, que desde cedo descobriu que quis ser pintora. Que nunca abdicou da sua relação com a vastidão dessas paisagens, das montanhas que carregam os anseios, as dores e as alegrias de quem nelas faz vida. Dos rostos que a marcaram desde sempre e aos quais retornou, uma e outra vez. Muitas vezes. E que nem a morte apagou.
Mas demos dois passos em frente, para dar um atrás. Aos pedaços de telha que usava como lápis de cor. À porta de casa, onde vivia com a mãe e os seus cinco irmãos, sempre aberta, em que “a rua entrava em casa e a casa entrava na rua”, diz ao JE com uma expressão serena. À liberdade de movimentos. À dureza da terra. Às cerejas que desenhava “a uma chávena e um bule que havia lá em casa” e que lhe fizeram as delícias do traço. A uma caixa de aguarelas que o pai lhe deu, já não em Trás-os-Montes mas em Moçambique, numa aldeia tão isolada quanto a do seu berço.
Novas experiências ganharam vida. A pintura, afinal, habitava-a. Comandava-lhe o sonho e a vontade. Seria pintora. Esbarrou na incompreensão da mãe, para quem a arte não punha alimento na mesa, só trazia fome. Obstinada, não hesitou em fazer frente e dizer que “preferia passar fome.” Não foi para as Belas-Artes. Ficou um ano a contemplar as gentes do Vieiro. Foi assim que manifestou a sua revolta – chama-lhe ‘birra’ no documentário que a sua filha Joana Morais produziu e realizou, “Na cabeça de uma mulher está a história de uma aldeia” – sobre a sua vida e obra, agora parte integrante da exposição “Graça Morais. Uma antologia”, que pode ser vista, até 13 de setembro, no Palácio Anjos, em Algés.

Este conteúdo é exclusivo para assinantes, faça login ou subscreva o Jornal Económico