Os fundos de investimento têm impulsionado o mercado português. Esta via tem permitido a atração de investidores para terras lusitanas, ao abrigo das ARI (Autorizações de Residência para Investimento). A Lince Capital e a BlueCrow Capital são algumas das entidades que possuem este tipo de produto. Ao Jornal Económico (JE) explicam as mais-valias que têm tido com este tipo de oferta.
Em Portugal, existem pelo menos dez fundos de investimento – Organismos de Investimento Coletivo (OIC) – geridos por associadas da APFIPP cuja política de investimento permite aos investidores estrangeiros obter a Autorização de Residência para Investimento (ARI), conhecida popularmente como golden visa. O número total de fundos elegíveis poderá ser superior, já que nem todas as associadas responderam dentro do prazo e é possível que existam OIC com estas características geridos por entidades fora da associação.
Ao contrário do que alguns poderão imaginar, não existem fundos exclusivamente dedicados a investidores que pretendam a atribuição do ARI. Estes OIC, embora estruturados de forma a cumprir os requisitos legais para o golden visa, estão disponíveis para todos os investidores, nacionais e estrangeiros.
No final de 2025, os dez fundos identificados geriam um total de 648 milhões de euros. Deste montante, sete fundos captaram mais de 146 milhões de euros diretamente relacionados com investidores a solicitar ARI. Os três fundos restantes não conseguiram detalhar a componente associada a golden visas, mas as subscrições registadas nesses veículos ultrapassaram os 320 milhões de euros, incluindo também investimentos sem o objetivo de obtenção de ARI.
A informação disponibilizada pela APFIPP permite concluir que, embora o investimento através de OIC seja uma via consolidada para a obtenção do golden visa, não se trata de um produto exclusivo e que os valores indicados representam uma mistura de investidores com e sem interesse na residência por investimento.
O tema dos fundos associados ao Golden Visa tem, de facto, ganho um peso muito relevante no ecossistema de investimento em Portugal. De forma geral, existe hoje um número significativo de fundos de investimento nacionais estruturados para serem elegíveis ao Golden Visa. Desde as alterações legais que eliminaram a via do investimento imobiliário direto, os fundos passaram a ser uma das principais portas de entrada para investidores internacionais que procuram o programa, o que levou a uma clara profissionalização e especialização da oferta", assinala a Lince Capital.
A mesma entidade refere que ao nível de fluxos de capital o canal dos fundos "tem vindo a captar montantes crescentes" ao longo dos últimos anos, com tickets médios relativamente "elevados" quando comparados com outras modalidades de investimento. "Uma parte relevante do capital que anteriormente era direcionada para ativos imobiliários diretos migrou para estruturas de fundos, mantendo a exposição à economia portuguesa, mas beneficiando de maior diversificação e de um enquadramento regulatório mais sofisticado", assinala a Lince Capital.
As áreas que mais têm atraído capital através dos Vistos Gold, no que diz respeito à Lince Capital, são sobretudo as Pequenas e Médias Empresas (PME) industriais e exportadoras, bem como projetos ligados à economia circular.
"Do ponto de vista do apetite dos investidores, é claro que o Golden Visa funcionou como um catalisador para o desenvolvimento do segmento de fundos junto de investidores internacionais", considera a Lince Capital. "Muitos investidores que inicialmente procuravam apenas o Visto Gold passaram também a valorizar a componente financeira do investimento, a diversificação e a gestão profissional, o que impulsionou a procura por veículos mais estruturados. Em paralelo, o próprio mercado português de gestão de ativos evoluiu, adotando melhores práticas de governação, reporte e gestão de risco, de forma a responder a um investidor cada vez mais sofisticado", acrescenta.
"Em síntese, embora os fundos continuem, em muitas situações, a ser um meio para obtenção do Golden Visa, têm vindo progressivamente a afirmar-se como uma classe de ativo relevante na estratégia patrimonial destes investidores. Em vários casos, estes investidores já reinvestem connosco, gerando um impacto muito positivo no financiamento da economia real portuguesa", afirma a Lince Capital.
A BlueCrow Capital tem atualmente seis fundos em subscrição elegíveis para investimento ao abrigo do regime ARI, que cobrem diferentes estratégias e perfis de risco: Portuguese Agrobusiness Fund, Finance Fund, Football Strategies Fund, Next Tech Fund I, Portugal Short Term Fund e Portugal Select Fund.
"Do ponto de vista qualitativo, o que podemos partilhar é que o interesse por fundos no contexto do Golden Visa tem-se mantido consistente, sobretudo após as alterações ao programa", assinala a BlueCrow Capital.
A BlueCrow Capital adianta que se está a observar uma "procura por estratégias com diferentes perfis de risco e horizontes temporais", bem como um "foco crescente" na solidez da estrutura dos fundos, na governação e nos processos de Compliance.
"No caso da BlueCrow, essa diversidade de interesses reflete-se na variedade de fundos elegíveis, que abrangem desde estratégias mais defensivas a abordagens com maior componente de crescimento, sempre dentro do enquadramento legal aplicável ao ARI", acrescenta a organização.
"O que podemos afirmar é que os investidores que nos procuram através desta via tendem a estar cada vez mais informados e atentos à qualidade do produto e do enquadramento regulatório, mais do que motivados exclusivamente pelo benefício do visto", sublinha a BlueCrow Capital.
O Country Manager da Baloise Portugal, João Marmelo, considerou que os investimento através de fundos "foi uma boa ideia.
João Marmelo sublinhou que algumas entidades, com as quais a Baloise trabalhava, alteraram a sua direção para criar este tipo de fundos, "adaptado e direcionado" a esses tipo de investimento para esses clientes.
"Conheço casos com carteiras de 50 milhões de euros, e acredito que há casos em que podem ir aos 500 milhões de euros, O que para a nossa dimensão é imenso", refere João Marmelo.
João Marmelo refere que esta opção [dos fundos de investimento] "correu bem" para as empresas que fizeram essa mudança levando a que conseguissem captar clientes que estão em Portugal e que de outra foram não conseguiriam captar. "Se não existisse essa autorização de residência provavelmente esse dinheiro nunca teria vindo cá parar", diz o Country Manager da Baloise Portugal.
"Das situações que conheço esse dinheiro é altamente escrutinado. A maior parte desses fundos tem custódia em banca portuguesa. Também não é um dinheiro que esteja fora de Portugal. Esses fundos estão depositados em banca portuguesa. Acho que era um capital que não seria de outra forma atraído para Portugal", reforça João Marmelo.