A história da 3cket começa com um problema muito concreto identificado por quatro amigos que estudavam na Nova Information Management School (Nova IMS): Filipe Brígida, Nuno Coelho, Tiago Marques e Ricardo Pereira. Enquanto organizavam uma conferência universitária, aperceberam-se de que as soluções disponíveis para gestão de eventos eram fragmentadas e não permitiam acompanhar, em tempo real, o que estava a acontecer durante um evento. Os quatro procuravam uma plataforma que não servisse apenas para vender bilhetes, mas que também permitisse recolher dados operacionais, controlar acessos e fornecer informação útil aos organizadores.
O projeto começou assim como um protótipo criado ainda na universidade e acabou por dar origem à 3cket, fundada entre 2017 e 2018 (o desenvolvimento arrancou em 2017 mas a empresa foi formalmente constituída em 2018). A ideia inicial evoluiu de uma simples plataforma de bilhética para uma solução integrada de gestão de eventos.
Tal como a rede social criada por Mark Zuckerberg e os seus colegas de Harvard nasceu para responder às necessidades de uma comunidade universitária antes de se transformar num ecossistema digital global, também a 3cket surgiu no contexto académico para resolver um problema específico e acabou por alargar significativamente o âmbito da sua tecnologia.
A história da 3cket tem paralelismos com a do Facebook. Tal como a rede social criada por Mark Zuckerberg e os seus colegas de Harvard (Eduardo Saverin, Dustin Moskovitz, Chris Hughes e Andrew McCollum), que nasceu para responder às necessidades de uma comunidade universitária antes de se transformar num ecossistema digital global, também a 3cket surgiu no contexto académico para resolver um problema específico e acabou por alargar significativamente o âmbito da sua tecnologia.
O primeiro evento fora da universidade foi uma conferência da Alfa Romeo, recorda Nuno Coelho, um dos cofundadores. Desde então, a tecnologia da empresa passou a estar presente em alguns dos maiores eventos realizados em Portugal, como o Rock in Rio (no palco BacanaPlay Digital Stage), Millennium Estoril Open, o Chefs on Fire, a Web Summit e o NOS Alive (com marcas como a NOS, a Heineken e o Novo Banco) Também marcas como a SIC ou a Delta recorrem à plataforma para digitalizar a sua presença em festivais e outros eventos
Hoje, a 3cket reúne num único QR Code funcionalidades como a venda de bilhetes digitais, controlo de acessos, pagamentos cashless através de pulseiras ou QR Code, gestão de convidados e análise de dados em tempo real sobre entradas, consumos, stocks e comportamento do público.
Mais do que uma plataforma de bilhética e pagamentos cashless, a empresa tem vindo a afirmar-se na digitalização da operação dos eventos, distinguindo-se pela capacidade de integrar diferentes soluções numa única plataforma. Foi precisamente essa abordagem que o Jornal Económico pôde acompanhar no Millennium Estoril Open, onde testou a tecnologia desenvolvida pela empresa.
Atualmente, a 3cket posiciona-se como uma PME tecnológica sustentável, tendo crescido sempre sem recorrer a investimento externo. O modelo bootstrapped — financiado exclusivamente pelas receitas geradas pela própria empresa e pelos recursos dos fundadores — permitiu privilegiar a rentabilidade em detrimento do crescimento acelerado, apostando no desenvolvimento do produto e na resposta às necessidades dos clientes, em vez de seguir a lógica de expansão rápida comum em muitas startups. Ainda assim, os fundadores admitem analisar a entrada de um fundo de venture capital caso essa opção se revele estratégica para acelerar a internacionalização.
Em 2025, a plataforma já tinha sido utilizada em mais de 15 mil eventos, por mais de 2.000 organizadores, tendo emitido milhões de bilhetes digitais e processado milhões de transações cashless, posicionando-se como uma das principais empresas ibéricas de tecnologia para eventos.
No mesmo ano, a faturação cresceu cerca de 40%, para dois milhões de euros. Para 2026, a empresa estima atingir os 2,5 milhões de euros de receitas e ambiciona chegar aos 3,5 milhões até 2029, revelaram ao Jornal Económico os cofundadores Nuno Coelho, Filipe Brígida e Tiago Marques.
Com uma equipa de 20 pessoas, a empresa continua a privilegiar um crescimento sustentado, sendo a maioria dos novos clientes conquistada por recomendação ou após terem contactado com a tecnologia em eventos anteriores.
O Jornal Económico foi ao Millennium Estoril Open com a 3ckets e pode testar a solução da 3cket. São únicos nesse conceito e são por isso procurados para eventos internacionais.
A internacionalização é agora o próximo passo. A presença em grandes eventos e a natureza integrada da plataforma têm despertado interesse além-fronteiras, reforçando a ambição da empresa de levar a tecnologia desenvolvida em Portugal para novos mercados.
Nuno Coelho, Filipe Brígida e Tiago Marques, em entrevista ao Económico, explicam a evolução do negócio e as ambições de uma plataforma que tem crescido rumo aos 20 mil eventos e com uma base de quase dois milhões de utilizadores.
Quando é que a 3cket foi fundada e quando é que se pode dizer que começou a sério?
A fundação foi em 2018, esse foi o ano de testar alguns eventos, mas 2019 foi o primeiro ano "a sério" — e logo a seguir veio a pandemia.
A história começou na Nova IMS (Information Management School), onde organizávamos uma conferência. Usámos várias ferramentas — algumas das melhores plataformas de eventos do mundo — e nenhuma resolvia o que precisávamos. Decidimos adaptar uma plataforma de e-commerce e começar a experimentar. No final da terceira edição, marcas, agências e outras pessoas começaram a perguntar que plataforma era aquela, porque queriam usá-la nos seus próprios eventos. Percebemos que aquilo, mais do que uma ferramenta interna, podia ser um negócio, e começámos a construí-lo com uma base mais sólida.
O primeiro cliente fora da universidade surgiu através de um parceiro da conferência: uma conferência anual de um grupo automóvel. Seguiram-se outras oportunidades, nomeadamente na gestão de convites para festas de verão de empresas, e também na gestão de compliance para marcas que convidavam jornalistas — controlar quem conduzia, em que carro e a que horas, para eventuais multas recebidas meses depois. Não havia então nenhuma plataforma que resolvesse este tipo de necessidades específicas. Pouco depois fomos apresentados às primeiras marcas em festivais, através de agências parceiras, e começámos a levar tecnologia a espaços que ainda trabalhavam com ERPs antigos [softwares de gestão empresarial desenvolvidos nas décadas de 1980, 1990 ou início dos anos 2000], folhas de Excel e listas de papel à porta.
"Desde a fundação, já ultrapassámos os 15 mil eventos geridos — estamos a caminho dos 20 mil"
Quantos eventos gerem atualmente?
Em julho de 2026 — o mês de pico de atividade do ano —, temos cerca de 500 eventos ativos. Este ano deveremos fechar acima dos 5.000, talvez 6.000 eventos, mantendo a trajetória dos últimos anos. Desde a fundação, já ultrapassámos os 15 mil eventos geridos — estamos a caminho dos 20 mil.
E em termos de equipa?
Somos atualmente cerca de 20 pessoas internamente, mas estamos a crescer e vamos contratar nos próximos tempos.
Como é a gestão da 3cket?
Somos quatro e dividimo-nos em quatro áreas. Não há uma figura de proa. O Filipe [Brígida] tem a parte de gestão da empresa, a área financeira e a estratégia de crescimento e, sendo uma empresa bootstrapped (empresa que cresce sem capital externo, financiando-se unicamente com as suas próprias receitas e recursos dos fundadores), é desafiante. Não é comum uma empresa tecnológica jovem não ter recebido logo financiamento de venture capital para desenvolver a ideia. O Tiago [Marques] tem a parte comercial e de operações, é quem lidera as equipas. O Nuno [Coelho] tem o marketing e a expansão internacional. O Ricardo [Pereira] lidera a área de engenharia e de produto.
Quais são os principais segmentos de negócio?
Música, desporto e eventos corporativos ou conferências. É curioso: a distribuição por tipo de negócio é bastante equitativa — claro que o entretenimento (festas e concertos) tem um pouco mais de peso, pela componente de venda de bilhetes, mas cobrimos também corporativo, festivais, marcas, pequenos eventos, casamentos e clubes. Desde o início, quisemos manter esta distribuição equilibrada, para que, se um segmento falhar por algum motivo, o negócio não fique em risco.
No futebol, por exemplo, já tivemos oportunidades ligadas à gestão de associados de clubes, mas foi um nicho onde optámos por não acelerar, por uma questão de foco — a gestão de estádios e clubes de futebol tem necessidades muito específicas que, na altura, sentimos não ser o parceiro certo para investir. Ainda assim, um dos maiores clubes portugueses usa a nossa tecnologia para todos os seus eventos que não sejam jogos de futebol (o futebol tem tecnologia própria). Trabalhamos também com clubes mais pequenos, como o ténis do Estoril, e já colaborámos com vários municípios em festivais e conferências.
E com o Estado?
Já trabalhámos com muitos municípios. Não o estado central. Mas o poder local. Muitos municípios fazem uma série de eventos como festivais, conferências.
Quem são os vossos clientes?
Temos como clientes tanto os eventos como as marcas dentro dos eventos — as duas vertentes. Há eventos que são inteiramente nossos, com marcas patrocinadoras lá dentro, também nossas clientes.
O Millennium Estoril Open, o Chefs on Fire, a Web Summit e o NOS Alive com marcas como NOS, Heineken e Novobanco. Também marcas como a SIC ou a Delta recorrem à plataforma para digitalizar a sua presença em festivais e outros eventos.
"Em Espanha, no entanto, queremos mesmo criar uma operação local, próxima dos organizadores"
Falam em internacionalização. Quando entraram em Espanha?
Há dois anos, mas este ano é o "ano zero". Tivemos um cliente que nos pediu um projeto em Espanha, fomos experimentar como corria e, a partir daí, começámos a ter outros projetos. No ano passado abrimos escritório e equipa em Espanha. Neste momento temos três escritórios — Lisboa, Porto e Barcelona —, apesar de fazermos eventos numa série de outros países sem lá termos qualquer estrutura. Por sermos uma plataforma, não precisamos de estar fisicamente presentes.
Já fizemos eventos em Itália — e vamos repetir —, em França, no Luxemburgo, na Suíça, no Qatar, no Rio de Janeiro e em Toronto. O caso da Web Summit é um bom exemplo: a organização usou a tecnologia da 3cket não só em Lisboa, mas também no Qatar, no Rio de Janeiro e em Toronto.
Em Espanha, no entanto, queremos mesmo criar uma operação local, próxima dos organizadores. Neste momento é o Nuno [Coelho] quem lidera essa operação — esteve lá quase dois anos e meio a construir as bases: reconhecer o mercado, traduzir a plataforma, adaptá-la às regras e costumes locais. Agora já temos equipa local e o Nuno Coelho divide-se entre Portugal e Espanha. Foi um processo de aprendizagem que estamos agora a replicar noutros países: o mesmo esforço que permitiu à plataforma funcionar em Espanha permite-lhe funcionar em qualquer parte do mundo.
Quantos eventos têm atualmente em Espanha?
Fizemos 100 eventos no ano passado — ainda pouco expressivo no total. Mas é um mercado onde estamos a investir. Queremos ter a plataforma pronta nesses mercados e testar mercados menos concorrenciais, que podem tornar-se numa agradável surpresa. Ainda assim, Portugal continuará a ser central: queremos estar no top 3 da bilhética no país e continuar a alimentar a plataforma para que possa ser usada em qualquer lado.
Qual é a vossa ambição?
A nossa ambição é que a plataforma possa ser utilizada em qualquer parte do mundo. Se um cliente amanhã quiser usar a plataforma num país qualquer que consiga carregar um botão e utilizar a 3cket.
Alguma vez pensaram tornar-se um unicórnio?
É uma indústria muito de nicho — não tem a escala de utilização de uma rede social como o Instagram. Mas queremos, sem dúvida, ser a referência em tecnologia para eventos: que, quando alguém pensa em organizar um evento, pense logo em usar a 3cket para resolver os seus problemas — da bilhética à credenciação de staff, passando pela montagem do próprio evento. Somos uma startup a caminho de se tornar uma scale-up.
Fim de um ciclo, início de outro
"Queremos atingir 3,5 milhões de faturação em 2030, muito alavancados pelo desenvolvimento da nossa presença em Espanha e noutras geografias"
Cresceram 40% em faturação em 2025, para dois milhões de euros. Qual é a ambição para 2026?
A ambição é atingir os 2,5 milhões de euros, a nível global, incluindo Espanha.
E depois de 2026?
Estamos a fechar o ciclo até 2026 com o objetivo dos dois milhões e meio. Para o próximo ciclo — 2027 a 2030 — a meta é somar mais um milhão de faturação, atingindo os 3,5 milhões em 2030, muito alavancados pelo desenvolvimento da nossa presença em Espanha e noutras geografias.
Dividimos a nossa jornada em ciclos de dois a três anos. Este ano fecha um ciclo que começou em 2023 e tinha dois objetivos centrais: depois de recuperarmos da pandemia — período que, como é natural, nos trouxe dificuldades em 2020 —, relançar a empresa numa fase de expansão, quer internacionalizar, quer de novos contextos e eventos em Portugal.
Este é, por isso, um ano central para nós: é o primeiro ano com uma estrutura sólida em Espanha, um dos principais objetivos deste ciclo. Em Portugal, é um ano de continuar a afirmarmo-nos junto de projetos e clientes de maior dimensão — vimos de uma jornada em que trabalhámos sobretudo com marcas mais pequenas ou projetos emergentes.
Qual é a ambição para os próximos cinco anos?
Em Portugal, é liderar o mercado da venda de bilhetes — hoje há players mais tradicionais e mais antigos, alguns com 20 anos de mercado, mas do ponto de vista tecnológico já somos, hoje, os melhores e os únicos com esta amplitude de soluções. A nossa ambição, no espaço de cinco anos, é sermos o maior vendedor de bilhetes online em Portugal — porque temos melhor tecnologia, e os próprios organizadores sabem que precisam dela.
Sem capital externo — por opção
"Se quisermos escalar para o mundo inteiro, sabemos que é humanamente impossível fazê-lo em cinco a oito anos sem apoio de capital. Mas há um estágio intermédio perfeitamente possível"
Alguma vez pensaram em levantar capital externo?
Nunca levantámos capital. A nossa história é diferente também nesse sentido: fomos clientes das nossas próprias soluções antes de as termos, crescemos ao ritmo que o mercado nos pedia e, por vezes, vendíamos antes mesmo de as soluções estarem prontas — e depois construíamos. Chegámos a este nível, o de uma PME num ambiente altamente concorrencial em tecnologia, sem qualquer capital externo investido — o que é raro em projetos emergentes desta dimensão em Portugal. Foi trabalho, foram os parceiros certos que nos foram abrindo portas, mas o investimento veio sempre das vendas: vendíamos primeiro e investíamos ao mesmo tempo o dinheiro recebido — essa foi sempre a nossa única alavanca de crescimento.
Isto não significa que a 3cket assim continuará para sempre. Já fomos abordados várias vezes por fundos de venture capital e temos projetos com dimensão suficiente para justificar esse tipo de parceria — nomeadamente para uma internacionalização mais massiva.
Já pensámos nisso também para o desenvolvimento de produto, mas conseguimos sempre avançar com capacidade própria. Para certos tipos de projeto, olhamos para o venture capital como uma boa hipótese — mas também gostamos muito da autonomia que temos hoje: as decisões são nossas, o risco é nosso, e estamos a construir um negócio sustentável, sem dívida e sem diluição dos fundadores.
Obviamente, haverá um estágio de crescimento exponencial em que isso poderá mudar. O que estamos a fazer agora em Espanha é uma prova de conceito — para nós próprios — de que há espaço para replicar a mesma abordagem tecnológica noutros mercados.
Agora se quisermos escalar para o mundo inteiro, sabemos que é humanamente impossível fazê-lo em cinco a oito anos sem apoio de capital. Mas há um estágio intermédio perfeitamente possível: sermos líderes em Portugal e relevantes em duas ou três outras geografias, sem qualquer investidor externo.
Uma plataforma modular
"Estimamos investir, nos próximos cinco anos e à nossa dimensão, mais de um milhão de euros em desenvolvimento de produto"
Como é que a vossa plataforma se adapta a eventos tão diferentes uns dos outros?
Somos completamente modulares: a mesma tecnologia serve para vender um bilhete ou para enviar um convite, para uma marca gerir convites ou para um produtor vender bilhetes. O QR Code pode servir para pagar no bar com saldo carregado ou para controlar três bebidas oferecidas — a tecnologia adapta-se a ambas as lógicas, seja na vertente de entretenimento, pagamentos e bilhética, seja na vertente de gestão que as marcas utilizam.
Essa modularidade foi decisiva para chegarmos aqui: queremos dar resposta, sendo modulares, a muitos tipos de eventos diferentes. E isso distingue-nos, porque a generalidade dos concorrentes neste setor está muito focada apenas na venda de bilhetes para espetáculos — nós vamos muito além da bilhética.
Estamos aqui no Millennium Estoril Open. O que mudou com a 3cket?
Antes os convidados recebiam cerca de dez papéis: um para o valet parking, outro para entrar no Slice Lounge, outro para o almoço, outro para o camarote, outro ainda com o lugar na bancada. Há três anos começámos a desmaterializar tudo isto. Hoje há apenas um QR Code, com uma combinação de acessos diferente para cada convidado — o mesmo bilhete dá acesso ao parking, à entrada, ao restaurante, ao camarote, e indica o lugar na bancada.
Antes, as marcas tinham de gerir manualmente pilhas de papéis ou PDFs para decidir o que cada convidado recebia. Hoje gerem tudo através da nossa plataforma: escolhem o que querem oferecer, enviam, e o convidado recebe um único QR Code com os acessos definidos pela marca. No caso dos participantes que compraram bilhete diretamente — como este ano no Open —, o QR Code reúne tudo o que escolheram para o evento.
Além disso, conseguimos hoje comunicar diretamente com todos os participantes através dos dados recolhidos na compra de bilhetes. O ano passado, quando os jogos foram adiados por chuva, conseguimos avisar os convidados para não virem tão cedo — mas não tínhamos ainda essa capacidade para o público em geral, que chegou ao recinto três horas antes do que era necessário, porque os jogos foram adiados. Este ano, com o lançamento do OpenTour — a primeira edição —, já conseguimos evitar que isso aconteça também do lado do público.
Como conciliam esta recolha de dados com o RGPD?
Como qualquer prestador de serviços: são dados de faturação e de cliente, geridos segundo as nossas políticas de privacidade. Distinguimos duas coisas. Por um lado, a análise de padrões — de onde vêm as pessoas, que idade têm, que língua falam — é feita de forma anonimizada, em cluster e em volume, para perceber tendências de interesse. Por outro, há a comunicação transacional: a pessoa comprou um bilhete e, na hora, a nossa tecnologia permite enviar um SMS a avisar, por exemplo, de um atraso devido à chuva — tal como recebemos notificações sobre o estado de uma encomenda online.
Além disso, perguntamos a todos os participantes se querem integrar a comunidade de um evento, para depois serem impactados com promoções — por exemplo, um desconto para quem assistiu à edição anterior. Criamos estas dinâmicas para que as marcas se aproximem do seu público.
Qual o papel que a IA tem na vossa vida?
A internacionalização só conseguimos endereçá-la tão depressa graças à IA — tradução, documentação noutras línguas. Tentamos que todos os fluxos de trabalho da empresa, hoje em dia, passem por processos de inteligência artificial: tarefas rotineiras que a equipa tinha de fazer passaram a ser apoiadas pela IA. Do lado do desenvolvimento — e também porque tivemos agora um reforço na equipa —, o objetivo é desenvolver mais depressa e melhor.
Este é, provavelmente, o maior investimento que alguma vez fizemos na nossa tecnologia num curto espaço de tempo. Estamos a lançar as bases para a utilização de inteligência artificial, algoritmos de machine learning e modelos preditivos incorporados no produto — uma área onde estamos a acelerar muito.
Quanto representa esse investimento?
Estimamos investir, nos próximos cinco anos e à nossa dimensão, mais de um milhão de euros em desenvolvimento de produto.
Para quê exatamente — ferramentas internas ou para o organizador?
Para os dois. Temos uma componente analítica e preditiva muito interessante: já organizámos mais de 15 mil eventos e temos dados sobre o que as pessoas preferem, a que horas chegam, de onde vêm, o que consomem, se fez sol ou chuva, qual foi o artista que atuou. Estamos a criar uma plataforma em que o organizador introduz os dados do seu evento — concerto, artistas, etc. — e recebe respostas: a que preço deve vender o bilhete, em quanto tempo vai esgotar, qual é o seu público, o que vai consumir, a que horas vai chegar. Substituímos os "achismos" típicos do setor — "acho que vai vender depressa", "acho que devia começar nos 30 euros" — por dados concretos.
Por outro lado, quantos mais módulos um evento ativa, mais complexa fica a operação. A ideia é que a IA também ajude aí: o organizador descreve o seu evento e a inteligência artificial configura os módulos certos na plataforma.
Onde vão levantar financiamento para esse investimento?
A 3cket integrou as basket bonds – emissões de obrigações grupadas – que é um modelo de financiamento alternativo que beneficia de iniciativas de suporte e garantias públicas dinamizadas em articulação com o ecossistema do Banco Português de Fomento para apoiar a expansão. Funcionam como um acelerador financeiro para PME que queiram aceder ao mercado de capitais. O lote combinado de obrigações é disponibilizado a investidores institucionais e de retalho através de plataformas e marketplaces parceiros, nomeadamente a Raize e a Flexdeal SIMFE.
Até março a 3cket emitiu 800 mil euros ao abrigo deste mecanismo que prevê que cada PME (como a 3cket) emita obrigações individuais ajustadas às suas necessidades de investimento, com um limite máximo de 2 milhões de euros por empresa.
Para atrair investidores com segurança, o BPF assegura uma garantia pública de até 80% do capital investido. As empresas obtêm liquidez com maturidades alargadas (normalmente até 7 anos) para financiar projetos de transição digital, energética ou expansão internacional.
Têm concorrência direta?
Não temos nenhum concorrente que faça exatamente o que fazemos. Há vários concorrentes que, juntos, cobrem partes do que fazemos — mas nenhum cobre tudo. No segmento da venda de bilhetes, esse sim, é altamente concorrencial, com particularidades muito próprias: a maioria dos eventos tem bilheteiras patrocinadoras, mas nós criamos um produto de que os organizadores precisam para gerir o evento como um todo — não há alternativa para essa gestão —, e é por isso que conseguimos estar presentes mesmo quando há outras bilheteiras internacionais patrocinadoras. O organizador precisa de nós na mesma.
Costumamos descrever-nos como o "Shopify dos eventos": do bengaleiro digital (sem senha física, tudo associado ao bilhete digital) aos pagamentos — em lógica de pré-pagamento, pós-pagamento (consumir e pagar à saída) ou tap to pay —, passando pela bilhética com todas as suas ramificações: bilhetes só disponíveis por relações públicas, por embaixadores, ou desbloqueados através de código promocional.
A maioria das soluções tradicionais, nacionais ou internacionais, resolve problemas de nicho muito específicos; muitos organizadores nunca evoluíram para essa granularidade. A nossa agilidade desde o início, para nos adaptarmos a contextos diferentes, torna-nos hoje provavelmente a solução mais completa do mercado — não só na bilhética, mas na gestão do evento a 360 graus: bilhética, acessos, acreditação, pagamentos, ofertas.
O organizador também não precisa de decidir tudo à partida: pode começar por vender bilhetes connosco e, depois, ativar módulos adicionais — bengaleiro, cashless, controlo de estacionamento — como se fosse uma app store. E sempre demos prioridade à experiência do participante: não ter de andar com dez PDFs, ter um único código QR que dá acesso a tudo. O bilhete que enviamos nunca é um PDF nem obriga ao download de uma aplicação — sabemos como isso é uma chatice para quem só quer ir a um evento.
E as plataformas internacionais, são concorrentes?
No segmento específico de bilhética, sim, há muitas — mas nenhuma no mundo com a mesma abordagem integrada.
De tecnologia B2B a bilheteira para o público
"Estamos a caminho dos dois milhões de pessoas registadas na 3cket para comprar bilhetes — sem contar com eventos corporativos como este Estoril Open, cujos participantes são clientes do nosso cliente, não diretamente nossos"
Quantos utilizadores registados têm hoje? De que forma essa base de clientes é um trampolim no vosso negócio?
Estamos a caminho dos dois milhões de pessoas registadas na 3cket para comprar bilhetes — sem contar com eventos corporativos como este Estoril Open, cujos participantes são clientes do nosso cliente, não diretamente nossos.
Estamos a criar um mecanismo para entregar a estas pessoas exatamente aquilo de que gostam: se soubermos que alguém gosta de um determinado género musical e vamos lançar um evento com 500 bilhetes a preço reduzido, avisamo-la diretamente. Estamos a transformar-nos também num braço dos organizadores junto desta comunidade de quase dois milhões de pessoas em Portugal.
Nascemos como tecnologia para eventos e, ao longo dos anos, atingimos um volume de público muito grande — só que as pessoas compravam bilhetes através da 3cket sem saberem que era a 3cket: entravam através do link do festival, sem perceberem qual era a plataforma por trás. No último ano e meio mudámos isso: lançámos o 3cket.com, um agregador de eventos onde o público pode descobrir o que fazer — perto de onde está, por género de evento, de reggaeton a eletrónica, passando por museus.
Este movimento é alavancado pela nossa base de quase dois milhões de utilizadores, cujos gostos já conhecemos. Isso também nos traz mais clientes: os organizadores passam a olhar para nós não só como fornecedor de tecnologia, mas como parceiro na própria venda de bilhetes — junta-se o útil ao agradável.
Estamos a tornar-nos uma bilheteira generalista — não de nicho. Há bilheteiras focadas em música eletrónica, em reggaeton, só em desporto, só em teatro; e há as tradicionais, com 20 anos de mercado, presentes em todas as grandes arenas. É nesse espaço que nos queremos posicionar. Muitas dessas bilheteiras mais tradicionais, aliás, pedem-nos soluções e tecnologia que não têm internamente.