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Fórum BCE: Lagarde não dá sinais quanto ao futuro e Warsh "adora-a" ainda mais por isso

"Quando a conheci [Lagarde] há 20 anos como ministra das Finanças, gostei dela; agora adoro-a", atirou o presidente da Fed depois da sua homóloga europeia ter recusado dar sinais quanto ao futuro dos juros. Ainda assim, a inflação é para combater em ambos os lados do Atlântico, convergem.

As indicações quanto ao futuro dos juros não farão parte da comunicação do Banco Central Europeu (BCE) nem da Reserva Federal dos EUA, mas nem por isso as autoridades monetárias deixarão de manter o foco na inflação, que continua demasiado elevada. Do lado europeu, Christine Lagarde voltou a frisar que a decisão de subir em junho foi acertada, enquanto o presidente da Fed pré-anunciou novidades quanto às task-forces para revolucionar o banco para a próxima semana.

A 13ª edição do Fórum do BCE terminou esta quarta-feira com o painel de política monetária, o prato quente do encontro de verão em Sintra, e, apesar de os banqueiros se terem esquivado a dar quaisquer sinais quanto ao futuro, garantiram que a estabilidade de preços continuará a ser a palavra de ordem.

Christine Lagarde começou por argumentar que a subida de junho foi adequada, dado que estavam reunidas “as condições monetárias perfeitas para tal” olhando para indicadores como a tendência implícita da inflação ou a subjacente. Ainda assim, o BCE abandonou a forward guidance e não pretende recuperá-lo.

“O que fazemos agora é informar os participantes de mercado como chegamos à nossa decisão”, explicou, classificando esta abordagem como “orientações de enquadramento”.

“Quando a conheci [Lagarde] há 20 anos como ministra das Finanças, gostei dela; agora adoro-a”, retorquiu Kevin Warsh em jeito de concordância com a sua homóloga europeia e mantendo a sua postura de que orientações quanto ao futuro são prejudiciais e algo que a autoridade monetária norte-americana deve evitar.

O novo presidente da Fed, que fez as primeiras declarações públicas após a primeira conferência de imprensa à frente do banco central norte-americano, reconheceu que “havia uma tendência […] de ‘alimentar à mão’ os mercados” na altura da grande crise financeira, uma visão que ele, à altura, também apoiava, mas que a situação se alterou e tal já não se verifica.

Apesar de não querer abrir o jogo, Warsh deixou algumas garantias. A inflação continua demasiado elevada, pelo que a Fed continuará atenta a esta dinâmica, que continua a ser prioritária para o banco central.

“Estamos no ramo da estabilidade de preços, ainda que esse não seja o nosso único ramo”, atirou. Para o final do mês, quando o Comité Federal de Mercado Aberto (FOMC) se volta a reunir, o presidente projetou “um bom debate”, mas sem adiantar mais. No entanto, fica a garantia: a independência da Fed não está em causa.

"Somos um banco central independente há muito tempo e vamos continuar a sê-lo, não verão mudanças nisso", afirmou. O homem nomeado por Trump para liderar a Reserva Federal foi visto inicialmente por muitos como possivelmente permeável à pressão do presidente para cortar taxas, algo que vem defendendo há muito, mas tem reforçado que a luta contra a pressão nos preços será uma prioridade.

Questionada sobre a economia real e o risco de a zona euro cair em estagflação, Lagarde repetiu respostas passadas afastando esta possibilidade.

“A estagflação é um conceito dos anos 70. Agora estamos em níveis historicamente baixos de desemprego […] e estamos a tomar todos os passos para assegurar a estabilidade de preços”, atirou. “Não vamos deixar o génio escapar.”

Após o painel que juntou Lagarde e Warsh a Andrew Bailey, governador do Banco de Inglaterra, e Tiff Macklem, o homólogo canadiano, Lagarde deixou um agradecimento ao Banco de Portugal (BdP) e ao governador Álvaro Santos Pereira, anunciando um regresso para o ano.

“É este o espírito em que Sintra nos deixa todos os anos: saudade. Mas voltamos todos os anos, por isso era este o anúncio que queria deixar: haverá outro Fórum”, anunciou na despedida da 13ª edição, projetando já a 14ª novamente na Penha Longa.

Inflação desceu mais do que esperado

O Fórum encerrou no dia em que foi conhecida a leitura preliminar da inflação na zona euro em junho, quando a pressão nos preços acabou por abrandar mais do que se esperava. O indicador ficou em 2,8% em termos homólogos depois dos 3,2% de maio e abaixo dos 3% projetados pelo mercado, uma notícia que o BCE certamente receberá com agrado.

A inflação energética abrandou após subidas sucessivas desde fevereiro, quando os EUA e Israel decidiram bombardear o Irão, e ajudou no recuo do indicador nominal. A componente energética passou de uma subida de 10,8% em maio para 8,7% em junho, enquanto os serviços e a componente alimentar também viram desacelerações.

O indicador subjacente, que descarta as categorias energética e alimentar, também desceu de 2,6% para 2,4%.

“Estes dados cimentam a visão agora consensual de que o BCE irá aguardar este mês, dado que a inflação está a mover-se para o cenário moderado [das projeções do BCE] ou até mesmo abaixo deste nível”, escrevem os analistas da Pantheon Macro.

A autoridade monetária europeia volta a reunir-se a 22 e 23 de julho, quando o mercado antecipa, por enquanto, que deixe os juros inalterados. Já a Reserva Federal reúne 28 e 29 do mesmo mês, com o mercado dividido entre nova reunião sem mexidas ou uma subida de 25 pontos base (pb).