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Fed prepara-se para deixar juros inalterados no canto do cisne de Powell

Os juros deverão ficar novamente inalterados na reunião de abril, isto apesar das tensões no Médio Oriente, e o mercado focar-se-á na última conferência de imprensa de Powell como presidente, mantendo-se a questão: o atual presidente fica como governador até 2028?

A Reserva Federal reúne esta terça e quarta-feiras naquela que será a última reunião presidida por Jerome Powell, atual presidente do banco central, antes de deixar o cargo. Com o futuro ainda em aberto quanto à sua permanência no Comité Federal de Mercado Aberto (FOMC), a Fed deve manter os juros inalterados, mas alertar para os efeitos na economia real das tensões geopolíticas no Médio Oriente.

O mercado antecipa largamente uma reunião sem mexidas nos juros, o que marcaria o terceiro encontro de política monetária consecutivo em que a taxa de referência permanece entre 3,5% e 3,75% – de acordo com a FedWatch Tool, do CME Group, a probabilidade implícita de não haver mexidas é mesmo de 100%, sublinhando a certeza dos investidores com a projeção para esta quarta-feira.

Olhando para as projeções macro mais recentes do banco central, de março, os juros ainda deveriam descer mais 25 pontos base (pb) até final do ano, enquanto o consenso entre os analistas é ainda mais precavido, com dois cortes de igual magnitude. Para o banco ING, estes deverão ocorrer em setembro e dezembro, mas a incerteza voltou a adensar-se nas últimas semanas.

Na mesma linha, o diretor de Investimento Global de Mercados Públicos da Allianz GI, Michael Krautzberger, projeta que o presidente da Fed “reconheça um cenário mais desafiante para a Fed no curto prazo, com os riscos de inflação inclinados para cima e os riscos para o emprego inclinados para baixo”, embora as decisões no imediato não se devam desviar do cenário base.

Por outro lado, Álvaro Peró, diretor de investimentos de rendimento fixo no Capital Group, destaca que, precisamente numa eventualidade de novo disparo da inflação, “o dot-plot [gráfico de projeções para a taxa de juro baseado nas projeções dos membros do FOMC] sublinha a vontade da Fed de priorizar fraquezas no mercado laboral”, que foi, durante largos trimestres, o ponto mais positivo da economia norte-americana.

Sai Powell presidente, fica Powell governador?

O foco do mercado cairá assim na última intervenção de Powell enquanto presidente da Fed e sobretudo no papel do banqueiro após a sua saída da liderança da instituição. Recorde-se que o seu mandato como presidente termina a 1 de maio e, embora historicamente os líderes do banco central se retirem do FOMC após o fim da presidência, o seu papel como governador só termina a 31 de janeiro de 2028.

Após inúmeros episódios de tensão entre a Casa Branca e a Fed, o Senado parece cada vez mais próximo de confirmar Kevin Warsh como próximo presidente da Fed, abrindo a porta à saída de Powell. Contudo, e dados os ataques recorrentes de Trump ao banco central e os medos com uma possível perda de independência da autoridade monetária, Powell já sugeriu que poderá manter-se como governador com direitos de voto nas reuniões de política monetária.

“Não tenho qualquer intenção de deixar o FOMC enquanto a investigação [às obras na sede da Fed] estiver concluída, em linha com a transparência”, afirmou o ainda presidente em março. Caso não abandone o Comité do banco central, Powell bloqueará nova nomeação a Trump durante 20 meses.

O caso das remodelações na sede da Fed, que Powell usou para criticar diretamente Trump e os seus ataques constantes à independência do banco central, conheceu novo capítulo na passada semana, quando a procuradora-geral de Washington, DC, Jeanine Pirro, fez saber que iria remeter a investigação ao organismo interno encarregue destas situações na Reserva Federal. No entanto, a procuradoria (liderada por Pirro, acérrima apoiante de Trump) deixou no ar a ameaça de voltar a virar a sua mira para Powell, isto apesar de um juiz federal ter, por duas vezes, evitado intimações sobre o atual presidente da Fed, argumentando que estas se baseavam exclusivamente numa tentativa de pressão para que baixasse juros em linha com a vontade de Trump.