O mercado está fortemente inclinado para uma reunião da Reserva Federal sem novidades em termos de taxas diretoras e vai colocando o foco na reunião de dezembro, para a qual o cenário central continua a ser de uma subida de 25 pontos base (pb). Fica assim por perceber se este será um dos raros episódios de uma subida isolada de juros ou se o ciclo de aperto irá continuar para além de outubro, isto numa altura em que a inflação continua significativamente acima do objetivo de 2%.
A reunião de outubro chegou a ter uma probabilidade implícita de mercado para uma subida de 25 pb acima de 50% após a leitura de setembro do indicador de preços, que voltou a revelar uma inflação a acelerar e bastante acima de 2%, com 3,7% em termos homólogos. Mas, perante os comentários de vários governadores com direito de voto no Comité Federal de Mercado Aberto (FOMC) de que provavelmente não seria necessária pressa no aperto monetário, a expectativa recuou desde então.
A análise da ING destaca precisamente isso: apesar de “os números recentes do emprego terem sido desapontantes e vários sectores sensíveis à taxa de juro, como o imobiliário, mostrarem cada vez mais dificuldades, a economia está a crescer de forma robusta e a inflação continua acima do objetivo”, dificultando mais a tarefa do banco central.
Perante este cenário, a atenção dos investidores vai passando para a reunião de dezembro, dado que o mercado está a atribuir 90,6% de probabilidade de um encontro sem mexidas em outubro.
“A Fed pode fazer uma pausa em outubro, mas não acreditamos que o ciclo de aperto monetário tenha terminado”, escrevem os analistas da Allianz Global Investors (Allianz GI). Este seria um cenário historicamente raro, dado que, desde 1991, apenas por uma vez o banco central norte-americano optou por subir taxas numa reunião isolada, em 1997.
À altura, Alan Greenspan liderava a Fed – um banqueiro que o atual presidente Kevin Warsh já elogiou repetidas vezes e citou como um exemplo a seguir – e, tal como hoje, enfrentava uma economia aquecida por um sector tecnológico em expansão rápida. E, como aconteceu na maioria dos anteriores ciclos de aperto, a recessão não tardou a chegar.
Sell-off condiciona, mas ajuda
Outro fator que reduz a necessidade de subidas das taxas diretoras é o disparo nos juros norte-americanos de mercado, que estão a apertar as condições de financiamento na maior economia do mundo sem que o banco central tenha de tomar decisões nesse sentido.
Os juros nos títulos a 10 anos do Tesouro dos EUA tem há mais de um mês negociado em torno de 5%, uma barreira psicológica que agrava consideravelmente o serviço da crescente dívida norte-americana e se aproxima de máximos não vistos desde a crise financeira, há quase 20 anos. Isto ajuda a abrandar a economia, embora o sector que mais empurra o crescimento, o de inteligência artificial (IA), dê cada vez mais sinais de ser perfeitamente inelástica.
“Os mercados obrigacionistas continuam a fazer parte do trabalho da Fed”, resume a análise da Ebury, que argumenta que “este não será o momento ideal para arriscar agravar um sell-off, sobretudo com as eleições intercalares a uma semana de espera”.