A Reserva Federal reúne-se pela primeira vez este ano e no meio de uma tempestade: a inflação permanece um risco, embora contido, o emprego dá sinais de estagnação e, acima de tudo, o ataque judicial ao presidente Jerome Powell lança dúvidas sobre a independência do banco central e rumo da política monetária no médio prazo. Para já, o mercado dá como certa uma reunião sem mexidas, focando-se na tensão em torno do banqueiro.
A ferramenta de monitorização das taxas implícitas de mercado FedWatch, do CMEGroup, aponta para uma probabilidade de 97,2% de não haver mexidas na reunião desta quarta-feira, probabilidade essa que tem vindo a crescer desde há um mês, quando estava em 82,3%. Desde então, os investidores retraíram-se com a decisão alarmante da administração Trump e do Departamento de Justiça de lançarem uma investigação sobre Powell a propósito das renovações da sede da Fed, uma decisão vista como política e uma fonte de pressão no banqueiro.
Como tal, este será o foco da reunião de quarta-feira. Paolo Zanghieri, economista sénior na Generali AM, refere que “permanecem questões sobre como irá a pressão política influenciar as decisões da Fed”, lembrando que Powell abandona a presidência em abril e ainda não se sabe quem será o seu sucessor ou se este manterá o seu lugar no Comité Federal de Mercado Aberto (FOMC) até ao fim do mandato, em 2028.
“A turbulência do mercado diminuiu a probabilidade de nomear um candidato visto como demasiado permeável aos pedidos da administração por taxas mais baixas”, escreve, visitando o caso da governadora Lisa Cook, também ela visada pela administração, classificando-o como “o maior teste à independência da Fed”.
Recorde-se que o Supremo Tribunal está a deliberar a legalidade do afastamento de Cook, sendo que, caso seja considerado ilegal, isto “protege a Fed dos despedimentos arbitrários de Trump”. Em caso contrário, “tal permitiria um rápido e completo redesenhar do FOMC” favorecendo taxas baixas e minando a credibilidade do banco central.
Na mesma linha, a análise da Ebury argumenta que “os medos crescentes sobre a autonomia da Fed e a influência cada vez maior de Trump sobre as taxas dão mais um motivo ao banco central para ser hawkish, o que efetivamente melhora a sua credibilidade”. Esta foi uma visão defendida amplamente no rescaldo da investigação a Powell, com os economistas a verem mais resistência da autoridade monetária a seguir a intenção da Casa Branca.
De destacar que a economia norte-americana dá cada vez mais sinais de estar a desenvolver-se em ‘K’, ou seja, com a população com mais rendimentos a fortalecer o seu poder de compra, muito à custa dos mercados financeiros, enquanto as famílias com menor capacidade económica continuam a experienciar uma erosão real do rendimento.
Por outro lado, o mercado de trabalho aparenta estar num estado de estagnação, ‘sem despedimentos e sem contratações’, como descrevem os analistas, uma dinâmica agravada pelo aperto da administração à imigração no país.