O discurso do presidente da Reserva Federal norte-americana (Fed), Jerome Powell, em Jackson Hole, na sexta-feira, fez com que o mercado colocasse em 86% (face aos anteriores 75%) a chance de existir uma baixa da taxa de juro, na reunião marcada para 17 de setembro. Contudo, os analistas consultados pelo Jornal Económico (JE) divergem sobre os efeitos dessa esperada baixa dos juros. Hoje pode também ser um dia estrondoso para os mercados financeiros, tendo em conta que a Nvidia reporta resultados após o final da sessão bolsista de Wall Street.
Os analistas consultados pelo JE divergem entre uma postura que aponta para a continuação do rally nas bolsas e uma posição mais conservadora, com a baixa da taxa de juro, a concretizar-se a 17 de setembro, a ter um efeito limitado, tendo em conta que o mercado já antecipou essa mesma descida dos juros.
Recorde-se que, na sexta-feira, Jerome Powell disse que as atuais condições "podem justificar" um corte nas taxas de juro, citado pela CNBC. Durante o seu discurso em Jackson Hole, o presidente da Fed admitiu ainda que tarifas mais elevadas "estão a começar a puxar os preços para cima" em algumas categorias de bens.
Na sua intervenção, Jerome Powell também alertou para o "aumento" dos "riscos negativos" sobre o emprego, sublinhando que, num cenário em que esses riscos se concretizem, isso poderá ter reflexo num maior número de despedimentos e no crescimento do desemprego.
"A perspetiva básica e a mudança no equilíbrio de riscos podem justificar o ajustamento da nossa postura política", disse Powell, citado pela CNN.
Baixa das taxas de juro pode prolongar rally das bolsas
O analista da ActivTrades, Henrique Valente, considera que o discurso de Jerome Powell em Jackson Hole "trouxe a confirmação" que os investidores precisavam para "retomar" a tomada de risco, depois de uma leitura inesperadamente alta do índice de preços ao produtor (PPI) "ter abalado" a confiança num corte de juros em setembro.
"A valorização dos índices tem estado muito dependente das grandes tecnológicas. No entanto, cortes de juros podem estender o rally a uma parte mais ampla do mercado no curto prazo, beneficiando do menor custo de financiamento", antecipa Henrique Valente.
Henrique Valente já tinha assinalado, antes da reunião em Jackson Hole, que, caso Jerome Powell demonstrasse maior abertura a cortes de juros, isso iria "pesar sobre a moeda americana e beneficiar os índices acionistas. E foi o que acabou por acontecer. Na sexta-feira, o índice norte-americano S&P 500 fechou com uma valorização superior a 1%."
Já o economista sénior do Banco Carregosa, Paulo Monteiro Rosa, assinala que o discurso de Jerome Powell em Jackson Hole "não teve grande impacto" nas perspetivas para a reunião da Fed a 17 de setembro.
"O mercado já atribuía uma forte probabilidade de um corte de 25 pontos base, e essa expectativa manteve-se praticamente inalterada. Atualmente, os futuros da Fed Funds apontam para cerca de 86% de probabilidade de a taxa passar para o intervalo de 4% a 4,25%", explica Paulo Monteiro Rosa.
Para Paulo Monteiro Rosa, Jackson Hole serviu para "consolidar o cenário já descontado" pelos mercados.
"A leitura dos investidores é que a Fed está confortável com a tendência de desaceleração da inflação e disponível para ajustar a política monetária caso a atividade económica enfraqueça, mas sem pressa para cortes mais agressivos", considera Paulo Monteiro Rosa.
Impacto da baixa dos juros pode ser limitado
Se se confirmar o cenário de corte da taxa de juro pela Fed em 25 pontos base em setembro, Paulo Monteiro Rosa antecipa que o impacto imediato da decisão "poderá ser limitado", porque este movimento já está "amplamente descontado" pelo mercado.
"No mercado obrigacionista, sobretudo nas Treasuries, o efeito sentir-se-á sobretudo na parte curta da curva, que reage diretamente às expectativas de política monetária, enquanto a parte longa tenderá a mexer menos, salvo se o mercado entender que o ciclo de cortes altera estruturalmente as perspetivas de inflação e crescimento", refere o economista sénior do Banco Carregosa.
Paulo Monteiro Rosa considera que setores sensíveis a mexidas nas taxas de juro, como acontece com a tecnologia e o imobiliário, "podem ter algum suporte". O economista sénior do Banco Carregosa assinala também que uma reação "mais expressiva" dependerá do guidance da Fed e da abertura a cortes adicionais, face aos "atuais níveis dos mercados acionistas em máximos históricos, refletindo avaliações relativamente altas, limitando o potencial de ganho" dos mercados.
No mercado cambial, Paulo Monteiro Rosa considera que o dólar "só perderá tração de forma relevante" se o discurso for claramente dovish. Nas matérias-primas, e indo ao caso concreto do ouro, este "tende a beneficiar de juros mais baixos e um dólar potencialmente mais fraco".
Na energia, e no caso do petróleo, Paulo Monteiro Rosa diz que este "reagirá sobretudo à perceção sobre crescimento global".
Dados sobre emprego e inflação podem trazer surpresas
Paulo Monteiro Rosa assinala também que indicadores macroeconómicos, que serão divulgados antes da reunião da Fed a 17 de setembro, serão "catalisadores inevitáveis" para a evolução dos mercados. Aqui ganham relevo os dados do emprego (referentes a agosto) que serão publicados a 5 de setembro e os dados da inflação que sairão a 11 de setembro.
"Caso tragam surpresas significativas face ao esperado, poderão mesmo constituir verdadeiros game changers, capazes de redefinir as expectativas em torno da política monetária da Fed no curto prazo, sobretudo na próxima reunião de 17 de setembro", alerta o economista sénior do Banco Carregosa.