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Falta de chips foi principal obstáculo à construção de carros em 2025. Nunca tinha sido assim

A insuficiência de materiais e equipamento foi apontada como o problema mais recorrente na indústria automóvel nos três últimos trimestres do ano passado.

O maior obstáculo à produção automóvel no ano passado foi, de longe, a falta de componentes, de acordo com os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE). No último trimestre de 2025, 80,8% das empresas identificaram obstáculos à atividade no fabrico de carros, sendo a insuficiência de materiais e/ou equipamentos apontada como o problema mais recorrente, com 88% de respostas. Valores que são iguais aos que tinham sido registados nos dois trimestres anteriores.

Os dados fazem parte do Inquérito qualitativo de conjuntura à indústria transformadora, feito pelo INE desde a década de 80, e mostram que construir um carro nunca mais foi o mesmo. O problema parece ter sido temporariamente sanado entre o final de 2024 e o início do ano passado, tal como de setembro a dezembro de 2023, mas desde o primeiro trimestre desse ano que esta dificuldade se tornou persistente no setor, após os primeiros sinais de problemas no final de 2021, ainda durante a pandemia.

Nada se assemelha nos últimas quatro décadas. Ainda houve alguns constrangimentos neste capítulo na década de 90, sobretudo, mas longe dos valores registados neste momento.

O maior problema no setor até aqui tinha sido a insuficiência da procura, com especial incidência durante a crise financeira global e, logo a seguir, na crise do Euro. Quanto às dificuldades em contratar pessoal qualificado, dificuldades de tesouraria ou em obter crédito bancário nunca foram realmente problemas sérios para a indústria automóvel em Portugal, segundo os dados do INE.

Chips e tempestades

O setor automóvel, e nomeadamente a indústria europeia, vive tempos de turbulência, com uma crescente concorrência da China, a transição para modelos mais sustentáveis, maiores custos com mão de obra e, entre outros problemas, a tal instabilidade no fornecimento de componentes.

Estão em causa, sobretudo, os chips, cuja crise teve um dos seus picos em setembro do ano passado, quando o governo dos Países Baixos tomou conta de uma fábrica chinesa em território neerlandês, dizendo estarem em causa riscos para a segurança nacional e europeia.

A Wingtech tenta recuperar o controlo, mas o braço de ferro ainda se arrasta, ameaçando o fornecimento mundial destes componentes.

A Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (AFIA) já se mostrou preocupada com esta crise no final do ano passado, porque “basta duas ou três empresas pararem por falta de  componentes, para toda a cadeia ser afetada”.

No entanto, este choque em cadeia não é o único risco no que aos componentes diz respeito. No mês passado, na sequência das tempestades que assolaram a zona Centro, vários “players” do setor, como a Volkswagen Autoeuropa, a Stellantis e a Bosh, mostravam-se cautelosos relativamente aos riscos de disrupção no fornecimento por parte de empresas da zona de Leiria, uma das mais afetadas pela depressão Kristin. Só que, umas semanas mais tarde, Thomas Hegel Gunther, até aqui diretor-geral da fábrica de Palmela, foi mais longe, reconhecendo ao Expresso que as tempestades provocaram interrupções em Marrocos, gerando problemas na cadeia logística de abastecimento
de componentes para o T-Roc, o único veículo produzido na Autoeuropa no ano passado.

Feitas as contas às tempestades, a Associação Automóvel de Portugal indicou que houve uma quebra de perto de 8% na produção em janeiro, quando comparado com o mesmo mês do ano passado.

Para já, a fábrica de Palmela não espera que o objetivo de produção para este ano não seja posto em causa. Mas também não faltam alertas para uma maior ocorrência deste tipo de fenómenos  climáticos no futuro.