A economia norte-americana superou as expectativas no terceiro trimestre e cresceu uns assinaláveis 4,3% em termos anualizados, o valor mais alto em dois anos. Esta performance refletiu sobretudo um consumo privado forte e uma recuperação externa, mas os possíveis efeitos sobre a política monetária estão a conter o entusiasmo dos investidores.
O Departamento de Análise Económica dos EUA fez saber esta terça-feira que o terceiro trimestre havia registado um crescimento de 4,3%, muito acima dos 3,8% do trimestre anterior e dos 3,3% de média das previsões dos economistas consultados pela Reuters. Em termos homólogos, foi um avanço de 2,3%, o mais elevado este ano.
O crescimento no terceiro trimestre foi sustentado num consumo privado forte, que avançou 3,5% neste período após os 2,5% do segundo trimestre, embora haja detalhes que importa realçar: boa parte deste resultado espelha a antecipação de compras de veículos elétricos, cujos benefícios fiscais expiraram no final de setembro. Outubro e novembro viu já uma redução assinalável das vendas destes bens.
Por outro lado, outra métrica para o consumo monitorizada de perto pela Reserva Federal, as vendas finais reais a compradores domésticos privados, subiu 3% no trimestre em análise, avançando apenas 0,1 pontos percentuais (pp) em reação à leitura anterior. Perante este cenário, o mercado aponta para uma desaceleração desta componente no quarto trimestre.
Esta resistência acima do esperado da maior economia do mundo não teve o impacto positivo que se podia esperar, à primeira vista, nos mercados. Ao invés, a força demonstrada no terceiro trimestre pode tornar menos prováveis ou adiar as esperadas reduções de juros diretores, deixando os investidores desiludidos com a espera mais prolongada por um alívio monetário.
Por outro lado, os dados divulgados esta terça-feira foram conhecidos com 45 dias de atraso devido ao shutdown nos EUA, que adiou divulgações de dados macro críticos.
A evolução do consumo esconde alguns detalhes que também não estão a confortar os mercados, como as assimetrias por rendimento. O banco ING fala mesmo num consumo em ‘K’, ou seja, em que há “uma bifurcação” dos consumidores: “os 20% de famílias com mais recursos continuam a gastar fortemente, impulsionadas por altos rendimentos e riqueza crescente, enquanto os 60% com menos recursos estão com sérias dificuldades no que toca à segurança laboral e às subidas de preço provocadas pelas tarifas”.
O mesmo se tem verificado cada vez mais no lado empresarial, onde as grandes empresas têm conseguido absorver os choques negativos com maior facilidade, enquanto as pequenas e médias empresas se debatem com uma subida de custos.
IA é o motor do crescimento
Outro fator com forte impacto na leitura divulgada esta terça-feira, mas que deve acalmar nos meses seguintes é o das exportações líquidas. No terceiro trimestre, as vendas ao exterior cresceram 8,7% enquanto as importações caíram 4,7%, o que significa que a procura externa contribuiu com 1,6 pp para a leitura nominal de 4,3%.
Por outro lado, o investimento desacelerou, tendo mesmo uma contribuição negativa para a leitura final, ainda que marginal. No entanto, dos 2,3% de crescimento homólogo registados no terceiro trimestre, dois terços são atribuíveis a investimento nos sectores de computação e software – um sinal claro da importância que o ramo tecnológico está a ter na economia, sobretudo a fileira da inteligência artificial (IA).
Segundo os analistas da Pantheon Macro, o investimento fixo privado “só cresce devido aos gastos em IA”, enquanto os restantes sectores se mostram em recessão há vários meses. Esta é uma ideia que tem vindo a ganhar apoio crescente, com receios cada vez mais óbvios entre investidores que o sector tecnológico possa estar a entrar numa bolha movida pela IA.
Na mesma linha, o Deutsche Bank havia já alertado que “o investimento em sectores relacionados com IA é crítico para o PIB norte-americano”, pelo que “os EUA estariam próximos de uma recessão este ano se não fossem os gastos relacionados com tecnologia, porque os restantes sectores estagnaram após a Covid”.