O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse à revista ‘The Atlantic’ que os novos líderes iranianos – sem que tenha ficado claro quem serão eles – estão interessados em dialogar com as forças que, este sábado, lançaram mais um ataque sobre o país. "Eles querem conversar, e eu concordei em conversar, então vou conversar com eles. Deveriam ter feito isso antes. Deveriam ter apresentado o que era muito prático e fácil de fazer antes. Esperaram demais", disse Trump a partir da sua residência na Flórida.
Ao mesmo tempo, o ministro das Relações Exteriores do Irão, Abbas Araqchi – que parece emergir como um dos novos líderes iranianos – disse ao seu homólogo omanita, Badr Albusaidi, em uma conversa telefónica, que Teerão está aberta a quaisquer esforços sérios de diminuição da tensão, de acordo com um comunicado do Ministério das Relações Exteriores de Omã divulgado este domingo. Omã tem-se assumido como mediador nas negociações nucleares entre os Estados Unidos e o Irão, pelo que o recurso de Teerão à via do sultanato parece ser a forma mais lógica de obter a atenção da administração Trump.
Mas os esforços de mediação podem chocar com os interesses de Israel – que, segundo alguns observadores, é, de facto, o país que lidera a estratégia comum de ataque ao regime de Teerão. E tudo indica que o Estado hebraico não estará interessado em, mais uma vez (como sucedeu no ataque de junho passado), desperdiçar um momento que pode abrir portas ao seu objetivo fundamental: acabar com a teocracia liderada pela nomenclatura religiosa xiita. É neste contexto que se pode explicar o facto de, em vez de falar em conversações, o governo de Benjamin Netanyahu ter convocado este domingo 100 mil reservistas para engrossarem as fileiras do exército – dando assim a entender que o país estará a preparar-se para uma guerra prolongada. E que, por outro lado, coloca a hipótese de estender os ataques ao solo, depois de, no fim-de-semana, ter optado pelos ataques aéreos.
Para todos os efeitos, Israel tratará de impedir a administração Trump de fazer qualquer coisa semelhante àquela que fez na Venezuela: capturou o líder do regime, mas nada fez entretanto para acabar com o próprio regime: a atual presidente interina, com quem a Casa Branca estabeleceu relações, era até há pouco vice-presidente do homem que está agora numa prisão norte-americana. Netanyahu não quer que se passe o mesmo no Irão.
Teerão faz contas à sucessão
Para além de Abbas Araqchi – que liderou todas as delegações que, indiretamente, mantiveram os contactos recentes com os Estados Unidos, outra figura surge do caos que se terá instalado no poder depois da morte do aiatola Ali Khamenei, já confirmada pelo próprio regime: Ali Larijani. O veterano político iraniano surgiu em público este domingo para adiantar que o regime irá criar um conselho de liderança temporário, reforçando a crença (externa) de que é uma das figuras mais poderosas na hierarquia de segurança. Larijani está associado a todos os principais dossiês do governo, desde as negociações nucleares até os laços de Teerão com os países da região, passando pela violenta repressão de distúrbios internos.
Membro influente do ‘establishment’ e proveniente de uma das principais famílias clericais do país, Larijani supervisionava os esforços do Irão para chegar a um acordo nuclear com os Estados Unidos – apenas um mês depois de Washington o ter sancionado em janeiro por supostamente ter ordenado a repressão violenta contra os protestos antigovernamentais. Com estes antecedentes, é bem possível que os Estados Unidos estejam pouco interessados em aceitarem Larijani como o seu próximo interlocutor – até porque recordarão com certeza que o iraniano acusou os Estados Unidos e Israel de tentarem saquear e desintegrar o Irão e alertou os "grupos separatistas" para uma dura resposta caso tentem qualquer ação contra o regime, segundo informou a televisão estatal este domingo.
Nomeado em agosto como secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional (SNSC), Larijani ocupou cargos de alto nível ao longo de uma carreira marcada pela lealdade a Khamenei e por uma reputação de relações pragmáticas com as fações rivais do sistema. O político esteve por trás das ligações com Omã, onde esteve no mês passado para preparar as negociações com os Estados Unidos. E também fez diversas viagens a Moscovo nos últimos meses, para discutir os laços de segurança que unem os dois países.
Larijani, que tinha liderado o SNSC há 20 anos, reassumiu o controlo do Conselho depois da guerra de junho (conhecida como a guerra dos 12 dias), regressando formalmente ao centro do aparato de segurança iraniano. Algumas das suas declarações públicas sobre a questão nuclear adotaram um tom pragmático: "na minha opinião, essa questão é solucionável", disse à televisão estatal de Omã no mês passado. "Se a preocupação dos americanos é que o Irã não avance em direção à aquisição de uma arma nuclear, isso pode ser resolvido". Mas talvez isso não chegue para os Estados Unidos terem confiança no veterano político. Além disso, ninguém sabe ao certo se Larijani estará ou não na lista israelita de homens de topo a abater. "Larijani foi um dos primeiros líderes iranianos a incitar a violência em resposta às preocupações legítimas do povo iraniano", afirmava um comunicado do Departamento do Tesouro dos EUA de 15 de janeiro.
Ex-membro da Guarda Revolucionária do Irão, Larijani foi ainda o principal negociador nuclear de 2005 a 2007, defendendo o que Teerão afirma ser o seu direito de enriquecer urânio. E chegou a comparar os incentivos europeus para o abandono da produção de combustível nuclear a "trocar uma pérola por uma barra de chocolate", recorda a agência Reuters. Depois disso, Larijani foi presidente do parlamento entre 2008 e 2020. Durante o seu mandato, o Irão firmou um acordo nuclear com seis potências mundiais em 2015 (com Barack Obama), após quase dois anos de negociações delicadas. Larijani foi também incumbido de impulsionar negociações com a China, o que levou a um acordo de cooperação assinado em 2021 e com uma vigência de 25 anos. Por outro lado, concorreu sem sucesso às presidências em 2005 e tentou fazer o mesmo em 2021 e 2024, mas foi impedido em ambas as ocasiões pelo Conselho dos Guardiães.
Nascido em Najaf, no Iraque, em 1958, Larijani mudou-se para o Irão ainda criança e posteriormente obteve um doutorado em filosofia. Vários dos seus irmãos ocuparam cargos importantes no Ministério das Relações Exteriores e uma das suas filhas foi demitida em janeiro de um cargo de professora de medicina na Universidade Emory, nos Estados Unidos, depois de protestos de ativistas iranianos-americanos indignados com o papel do pai na repressão das manifestações.
De qualquer modo, foi o presidente iraniano Masoud Pezeshkian quem falou sobre os planos do regime para "continuar o caminho do nosso querido líder" Ali Khamenei. “Hoje, o Conselho de Liderança Interino iniciou os seus trabalhos”, disse em mensagem transmitida pela TV estatal. O conselho governará o país até que a Assembleia dos Peritos escolha o novo líder supremo e nomeou o aiatolá Alireza Arafi como líder interino e integrante do Conselho dos Guardiões. No complicado edifício do poder no Irão, esta assembleia tem como principal função é nomear o líder supremo (Faqih), supervisionar o seu comportamento e destituí-lo caso seja necessário. É composta por 88 membros eleitos por sufrágio universal para um mandato de oito anos; todos os membros são clérigos e as candidaturas devem ser previamente aprovadas pelo Conselho dos Guardiães.
O Conselho dos Guardiães da Constituição é um órgão de controlo constitucional composto por doze juristas, sendo seis clérigos especialistas em direito religioso - nomeados pelo líder supremo - e seis juristas, nomeados pelo chefe do poder judiciário e aprovados pelo parlamento.
Mais ataques este domingo
Entretanto, no terreno, Teerão foi mais uma vez alvo, este domingo, de ataques por parte dos Estados Unidos e de Israel. O Estado hebraico lançou na manhã deste domingo uma nova onda de ataques contra a capital iraniana e outras regiões do país. Em retaliação, o Irão respondeu com uma salva de mísseis contra o território israelita.
"A Força Aérea iniciou neste momento uma ampla onda de ataques contra alvos do regime terrorista iraniano no coração de Teerão. Ao longo do último dia e da última noite, a Força Aérea realizou ataques extensivos com o objetivo de alcançar superioridade aérea e abrir caminho em direção a Teerão", afirmou o exército israelita em comunicado. Diversas explosões foram ouvidas em Teerão, e o aeroporto internacional de Mashhad, no nordeste iraniano, foi atingido por um míssil.
O Irão, por sua vez, lançou uma nova onda de mísseis contra o território israelita e também contra outros países do Médio Oriente que abrigam bases militares dos Estados Unidos. Convém não esquecer que o regime iraniano tentou atingir os interesses norte-americanos instalados nos países da região – e não atacar os próprios países, como erradamente vai ficando na retina. Segundo autoridades da região e dos Estados Unidos, mísseis e drones foram lançados contra Israel, Qatar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Omã, Arábia Saudita, Iraque e instalações militares ligadas ao Reino Unido no Chipre, além de alvos próximos do Estreito de Ormuz. Fora o caso de Israel, nos restantes países os alvos eram bases militares norte-americanas ou infraestruturas estratégicas. Nestes países, terão morrido nove pessoas e 120 ficaram feridas.
"Ontem (sábado) foram disparados mísseis iranianos contra os Estados Unidos e Israel, e foi doloroso. Hoje serão disparados de forma ainda mais dolorosa", afirmou Ali Larijani. Sirenes de ataque aéreo soaram e foram referenciadas explosões em Jerusalém e em Telavive, a capital. As autoridades anunciaram a morte de seis israelitas nos ataques iranianos deste domingo, elevando a contagem para dez, a que se acrescentam várias dezenas de feridos; do lado iraniano hou 201 mortos e cerca de 750 feridos. Há também a registar a morte de três militares norte-americanos durante as operações militares, informou o Comando Central dos Estados Unidos (Centcom).
Do seu lado, Donald Trump afirmou que os Estados Unidos destruíram nove navios iranianos e grande parte do quartel-general da Marinha: “acabei de ser informado que destruímos e afundámos nove navios da Marinha iraniana, alguns deles relativamente grandes e importantes”, disse nas redes sociais. “Em outro ataque, destruímos grande parte do quartel-general da Marinha deles”. O Irão tentou ripostar, mas sem sucesso: tinha como alvo o porta-aviões USS Abraham Lincoln , mas os mísseis lançados "nem chegaram perto", segundo uma publicação do Centcom nas redes sociais. “O Lincoln não foi atingido. “Os mísseis lançados nem chegaram perto. O Lincoln continua a lançar aeronaves em apoio à campanha incansável do Centcom para defender o povo americano, eliminando as ameaças do regime iraniano”. A Guarda Revolucionária do Irão tinha dito o Lincoln tinha sido atingido por quatro mísseis balísticos. Trump disse ainda que, ao longo do fim-de-semana, foram mortos 48 líderes do regime de Teerão. O ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad será um deles.
Reunião de emergência em Bruxelas
Ministros das Relações Exteriores da União Europeia realizam conversações de emergência sobre a guerra no Irão, tendo abordado o tema da energia e dos cidadãos retidos no exterior. Refira-se que o Governo português recebeu este domingo mais de quatro dezenas de pedidos de expatriamento. A sessão, por videoconferência, do Conselho de Negócios Estrangeiros foi aberta pela Alta Representante da UE, Kaja Kallas, com a participação de todos os Estados-membros. Segundo a agência Euronews, os ministros abordaram as dimensões políticas dos últimos acontecimentos no Oriente Médio e tentaram encontrar uma posição comum – que passa pelo apoio mais ou menos explícito à iniciativa dos Estados Unidos e de Israel, mas também por um pedido de contenção e de rápida opção pelo diálogo.
Antes do encontro, os embaixadores realizaram uma reunião preparatória do Coreper (Comité de Representantes Permanentes, o principal órgão preparatório do Conselho da União Europeia, composto pelos embaixadores dos Estados-membros junto da EU), tendo expressado solidariedade com o povo iraniano e manifestado preocupação com o respeito ao direito internacional. Os embaixadores também manifestaram apoio à região em geral e apelaram à descida da tensão regional.
No sábado, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa, emitiram uma declaração conjunta alertando contra uma maior escalada da tensão na região. Von der Leyen convocou uma reunião do Colégio de Segurança para esta segunda-feira