A aposta no biometano vai permitir reduzir a dependência energética de Portugal face ao estrangeiro. O biometano é um gás renovável obtido através dos resíduos da atividade agropecuária, como o estrume, o lixo urbano ou resíduos agroindustriais, como o caroço da azeitona. É esta a visão da Floene, empresa distribuidora de gás em Portugal.
"Sem dúvida nenhuma que o biometano nos países onde está mais desenvolvido gera um maior conforto, uma menor exposição a estes riscos geopolíticos e de segurança de abastecimento do gás natural. Estaríamos menos dependentes de qualquer crise de abastecimento", disse o presidente da Floene Gabriel Sousa em entrevista ao Jornal Económico.
"Apesar de tudo o que estamos a assistir nesta crise em termos de impacto de preço, em concreto o gás natural, é significativamente menor o impacto, que estamos a assistir até à data, quando comparado com aquilo que aconteceu em 2022, quando chegámos a ter os preços spot do gás em cerca de 300 euros por megawatt hora", acrescenta.
A empresa - detida em 75% pelos alemães da Allianz - já conta com um total de 18 contratos de biometano firmados, com a Floene a destaca que a rede de gás não precisa de grande investimento para receber este gás renovável.
"Portugal tem a rede de gás mais moderna da Europa. Começámos a ter gás em 1997, portanto, quando outros países tinham gás desde 1930/1940. Hoje em dia são países que confrontam-se com o desafio de renovar as suas redes, de substituir materiais mais antigos por materiais mais modernos. Mas 95% da rede de gás está construída em polietileno e não temos de fazer grandes investimentos, não temos de fazer quase investimento nenhum para fazer esta adaptação", segundo o gestor.
"Eu costumo fazer a analogia com a eletricidade. Nós, em nossa casa, quando ligamos o interruptor, não temos a mínima ideia se aquele eletrão é verde ou é cinzento. O biometano é a mesma coisa, é uma molécula igual ao gás natural. Portanto, no nosso fogão, nos esquentadores, nos queimadores industriais, ninguém vai notar diferença nenhuma se hoje a rede está a receber 100% de biometano, se amanhã tiver a receber apenas 70%, ninguém vai notar", afirmou, destacando o projeto-piloto no concelho do Seixal, distrito de Setúbal, que fornece hidrogénio verde a 82 clientes residenciais, comerciais e industriais desde 2023, misturando 20% de hidrogénio com gás.
Gabriel Sousa destaca que é possível "substituir 60% do gás que hoje em dia circula nas redes de distribuição" com biometano, segundo um estudo feito pela Roland Berger.
O objetivo em Portugal é atingir os 2,7 TWh em 2030, "cerca de 9% da quantidade de gás que hoje em dia é distribuído". A companhia já tem "cerca de 20 contratos assinados para a injeção de gás renovável na rede".
"Quando olhamos para os contratos que já estão assinados, quando olhamos para os processos que estão em pipeline, nos contatos que já tivemos, nos pedidos de informação, estaremos com um conjunto de projetos que nos parece perfeitamente alcançável chegar a 2030 com 2,4 TWh. Estamos lá quase", estimou.
Gabriel Sousa foi eleito este ano presidente da Gas Distributors for Sustainability (GD4S), a associação que representa os principais operadores de redes de distribuição de gás na Europa.
Terminou esta semana a consulta pública sobre os planos de desenvolvimento e investimento das redes de distribuição de gás para o período 2027-2031 (PDIRD-G 2026), que foram apresentadas pelos 11 operadores das redes de distribuição, com nove a pertencerem à Floene.
O plano apresentado pelos diversos operadores propõe o investimento de 407 milhões de euros, com 250 milhões a destinarem-se à expansão das redes e à criação de 113 mil novas ligações, com, pelo menos, 1.150km de nova rede e quase 42 mil ramais.
"Os investimentos propostos pelos operadores de rede de distribuição do Grupo Floene refletem uma abordagem prudente, incremental e centrada na melhor utilização da rede já existente. Não correspondem a uma lógica expansionista, apesar de persistirem 68 concelhos sem acesso ao gás nas áreas de concessão do grupo. A prioridade está na manutenção e adaptação de uma infraestrutura consolidada, assegurando simultaneamente a coesão territorial", argumenta a Floene.
Sobre as perspetivas de consumo, a Floene considera "não existir evidência que suporte uma redução significativa da procura de gás. Mesmo num cenário conservador, estima-se que a diminuição do consumo até 2040 seja inferior a 2%, valor que poderá inclusive sobrestimar a redução efetiva. A Floene alerta ainda que assumir uma quebra do consumo sem fundamentos sólidos pode levar a decisões erradas sobre os investimentos necessários na rede".
E também veio alertar para os "efeitos adversos de uma eventual limitação excessiva do investimento. Tal opção poderá conduzir ao aumento dos custos suportados pelos consumidores de gás e pelos consumidores de eletricidade, devido às necessidades acrescidas de eletrificação dos consumos atualmente assegurados pela rede de gás. Por essa razão, a Floene considera que a análise económica deve centrar-se na procura das soluções mais eficientes para a descarbonização, valorizando o contributo de uma infraestrutura de gás preparada para integrar gases renováveis e complementar o sistema elétrico".
A Floene defende assim que a "descarbonização do setor energético português deve assentar numa abordagem tecnológica equilibrada, capaz de combinar a eletrificação dos consumos com o desenvolvimento dos gases de origem renovável, em linha com as orientações definidas no Plano Nacional Energia e Clima 2030 e no Plano de Ação para o Biometano 2024-2040".
"Num contexto de crescente exigência em matéria de transição energética, a Floene considera que as redes de distribuição de gás têm um papel essencial na concretização dos objetivos nacionais de descarbonização, contribuindo simultaneamente para a segurança do abastecimento, a flexibilidade do sistema energético e a sua resiliência face a situações de instabilidade climática ou geopolítica", de acordo com a empresa.
A distribuidora tem defendido nos últimos anos mais apoios para a produção nacional de biometano disparar mais de 15 vezes até 2050 de 0,9 TWH para quase 14 terawatts hora (TWh) por ano.
Até 2050, a maioria da produção deste gás renovável deverá ter como fonte a biomassa (3 Twh), o metano sintético (2,8 TWh), a agropecuária (2,7 TWh), os aterros (2,5 TWh), a agroindústria (2,4 TWh) e as ETAR (0,5 TWh).
A companhia tem defendido apoios ao investimento, melhoria nas condições à tarifa de apoio (FiT), incentivar a conversão das unidades de biogás em biometano e a partilha de investimentos entre o produtor de gás e o operador da rede de distribuiçãom, como a Floene.
Ambientalistas criticam planos de investimento
Esta semana, o GEOTA - Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente - criticou os planos de desenvolvimento e investimento nas redes de distribuição de gás para 2027-2031, pedindo ao regulador liderado por Pedro Verdelho para chumbar o plano de investimentos. A ERSE emite um parecer não-vinculativo, mas a decisão final cabe à ministra do Ambiente e da Energia, após o plano ser debatido no Parlamento.
"Não é coerente investir em mais de cem mil novas ligações de gás quando a política energética europeia aponta para uma meta de 46% de eletrificação do consumo final até 2040 e quando o próprio Governo português aposta na eletrificação das habitações. Esta expansão prende novos consumidores a uma infraestrutura fóssil durante décadas e cria o risco de estes investimentos perderem utilidade muito antes do fim da sua vida económica", disse Miguel Macias Sequeira, vice-presidente do GEOTA e investigador em energia e clima no CENSE NOVA-FCT.
"Expandir uma infraestrutura cuja utilização tenderá a diminuir aumenta o risco de ativos encalhados e de uma espiral tarifária, em que custos fixos cada vez mais elevados são repartidos por um número cada vez menor de consumidores", alerta o GEOTA.
O Grupo avisa que esta estratégia "agrava também a vulnerabilidade energética de Portugal, que continua a importar todo o gás natural que consome. A crise energética desencadeada pela invasão da Ucrânia e as recentes perturbações nos mercados internacionais demonstram os riscos económicos associados à dependência de combustíveis fósseis importados. A Comissão Europeia estima que a eletrificação poderá reduzir as importações europeias de gás em mais de 70% até 2040".
Apesar de reconhecer o potencial do biometano para "valorizar resíduos, reduzir emissões e promover a economia circular", com as estimativas a apontarem para uma produção equivalente a 9% do consumo nacional de gás previsto para 2030, o GEOTA considera que "que não justifica a expansão generalizada das redes. O biometano e o hidrogénio renovável deverão ser prioritariamente direcionados para os setores onde a eletrificação é mais difícil".
No estudo da Roland Berger para a Floene, analisando os diversos caminhos de descarbonização até 2050, concluiu que uma descarbonização equilibrada (eletrificação com gases renováveis) vai ser a que implica menores custos de investimentos na rede de distribuição de gás, na rede de transporte de gás e na rede elétrica: entre 1.120 a 1.740 milhões de euros de Capex.
No cenário de eletrificação intensiva, o Capex previsto deverá situar-se entre os 1.920 – 3.200 milhões de euros. No cenário de hidrogénio extensivo, o Capex deverá atingir os 1.430 a 2.200 milhões de euros. Um valor de Capex superior implica mais valor de investimento em redes, logo um maior peso nas tarifas da eletricidade e de gás natural para famílias e empresas.
O estudo argumenta que o cenário de descarbonização equilibrada é o que permite maiores poupanças de custos: poupança de 1.400 milhões de euros por não implicar investimentos na adaptação dos consumidores; poupança de 1.130 milhões de euros por reduzir significativamente a necessidade de investimentos no sistema.