Os critérios ambientais, sociais e de governação tornaram-se parte integrante da análise de risco bancário em Portugal. É um caminho sem retorno, independentemente do aligeirar ou atrasar da concretização da regulação europeia.
A incorporação destes fatores influencia decisões de crédito, custo de financiamento e prioridades comerciais. Ao mesmo tempo, os dados do Banco de Portugal mostram um aumento da emissão e do stock de títulos de dívida com classificação ESG, sinalizando maior recurso das empresas a instrumentos associados a metas ambientais e sociais.
A Caixa Geral de Depósitos (CGD) indica que passou a incluir riscos ambientais, sociais e de governança (ESG, na sigla inglesa), em particular climáticos e ambientais, nos processos de decisão de crédito, alinhando-se com a sua política de financiamento sustentável e com as orientações da Autoridade Bancária Europeia. O banco aplica um rating ESG interno que abrange cerca de 400 mil empresas e aproximadamente 23 mil milhões de euros de crédito. A ferramenta integra fatores ambientais, sociais e de governação na análise de solvência e apoia a diferenciação comercial e o acompanhamento de planos de transição.
No Banco BPI, a integração de critérios ESG está enquadrada no Plano de Banca Sustentável 2025-2027, com a meta de mobilizar 4,4 mil milhões de euros no triénio. Em 2025, o banco concedeu 1,8 mil milhões de euros em financiamento sustentável, dos quais 1,3 mil milhões a empresas. Cláudia Teixeira de Almeida, diretora executiva de Sustentabilidade do BPI, afirma ao Jornal Económico que as revisões europeias visam reduzir burocracia e melhorar proporcionalidade, sem alterar a integração de fatores ESG nas decisões de financiamento.
Também a CGD refere que, independentemente de ajustamentos regulatórios europeus, mantém o apoio à transição energética e à descarbonização, privilegiando soluções compatíveis com estratégias de sustentabilidade.
O Banco Santander Totta considera que os critérios ESG assumem peso estrutural na avaliação de risco. O banco destaca a relevância da incorporação de risco físico, como fenómenos extremos, e de risco de transição, como a exposição a ativos intensivos em carbono. A integração consistente destes fatores depende da qualidade e comparabilidade de dados, da análise de planos de transição e da certificação ambiental e social de ativos, elementos que passam a integrar os modelos internos de risco.
No Crédito Agrícola, a integração de riscos ESG na avaliação de crédito mantém-se, apesar do aligeiramento regulatório para parte das empresas não financeiras. O banco refere que o supervisor exige demonstração da capacidade de gerir estes riscos e de os integrar na análise tradicional. A instituição participou na criação da SIBS ESG, solução que uniformiza indicadores e permite às empresas recolher e partilhar informação de forma comparável. Desenvolveu ainda programas de capacitação dirigidos a setores como turismo e agricultura, com foco na recolha de dados, definição de metas e adaptação a práticas associadas à transição.
Os números do mercado confirmam a tendência. Segundo as estatísticas do Banco de Portugal, o stock de obrigações ESG emitidas por entidades residentes tem vindo a aumentar de forma consistente nos últimos anos, acompanhando a expansão do mercado europeu de green bonds e sustainability-linked bonds.
A emissão destes instrumentos passou a representar uma parcela crescente do financiamento obrigacionista das empresas não financeiras, refletindo a procura por capital associado a objetivos de redução de emissões, eficiência energética e investimento sustentável. A convergência é clara: os critérios ESG estão incorporados nos modelos de risco, nas estruturas de financiamento e na própria arquitetura do mercado de capitais nacional.
ESG tem impacto no crédito, mesmo com aligeirar de regras
e
/
Banca usa critérios nos processos de avaliação para a concessão de crédito às empresas e não vai mudar. Emissão de obrigações mostra que as empresas também já interiorizaram.