Foram necessárias menos de 29 horas para que os CEO das 100 maiores empresas cotadas na bolsa do Reino Unido (FTSE 100) ganhassem mais do que o salário médio anual dos seus colaboradores, pelas contas feitas pelo jornal The Guardian, baseando-se no relatório do think thank High Pay Center [focado nas causas e consequências da desigualdade económica], assumindo que estes executivos trabalhem cerca de 62,5 horas por semana.
Fonte: High Pay Center[/caption]Remuneração dos CEO aumentaram 6,8%
Os dados do High Pay Center indicam que a remuneração dos CEO das maiores empresas britânicas subiu 6,8% em 2024/25.
"A remuneração mediana de um CEO do FTSE 100 subiu de 4,29 milhões de libras (4,96 milhões de euros à taxa de câmbio atual) em 2023/24 para 4,58 milhões de libras (5,29 milhões de libras) em 2024/25. Este é o nível mais elevado já registado para a remuneração dos CEO do FTSE 100 e o quarto ano consecutivo de crescimento salarial. Os últimos três anos foram todos recordes", indicam o documento do High Pay Center.
Já a remuneração média das empresas do FTSE 100 aumentou de 5,12 milhões de libras (4,95 milhões de euros) para 5,91 milhões de libras (6,82 milhões de euros), o que representa um crescimento de 15,4%, superando o anterior máximo de 5,79 milhões de libras (6,69 milhões de euros) vindo de 2017/2018.
Os dados do High Pay Center referem ainda que o salário mediano de um CEO do FTSE 100 é agora "122 vezes superior" ao salário mediano de um trabalhador a tempo inteiro no Reino Unido, "quase o mesmo nível de 123:1 em 2023/24".
O documento destaca também que o número de empresas do FTSE 100 que pagam aos seus CEO 10 milhões de libras (11,5 milhões de euros) ou mais teve um crescimento de 30%, ao passar de 10 empresas em 2023/24 para 13 empresas em 2024/25.
"As empresas do FTSE 100 gastaram mil milhões de libras (1,1 mil milhões de euros) com a remuneração de 217 cargos executivos. Isto representa um aumento em relação aos 757 milhões de libras (874,1 milhões de euros) em 2023/2024 – no entanto, grande parte deste aumento reflecte as bonificações de remuneração dos executivos da Melrose Industries, onde os executivos receberam 212 milhões de libras (244,8 milhões de euros)", explica o High Pay Center.
É referido também que 2024/2025, 84% das empresas do FTSE 100 pagaram aos seus CEO um Pagamento de Incentivo de Longo Prazo (LTIP), um crescimento face aos 81% registados em 2023/2024.
"O pagamento médio do LTIP aumentou de 2.008 mil libras (2.320 mil euros) em 2023/2024 para 2.258 mil libras (2.610 mil libras) em 2024/2025", adianta o High Pay Center.
Homens receberam mais do que mulheres
"No total, dez mulheres CEO exerceram funções durante pelo menos uma parte do ano, e todas se mantiveram em funções no final do ano fiscal. Nove empresas tiveram uma liderança feminina durante todo o ano fiscal, com a sua remuneração mediana a totalizar 3,27 milhões de libras (3,78 milhões de libras). Para as empresas que tiveram um CEO do sexo masculino durante todo o ano fiscal, a remuneração mediana foi de 4,64 milhões de libras (5,36 milhões de libras) – ligeiramente superior à remuneração mediana geral do FTSE 100", revela o documento divulgado pelo High Pay Center.
Think Thank pede mudanças na política salarial
O High Pay Center defende que os gastos excessivos com os colaboradores mais bem remunerados por parte das empresas líderes "ocorrem frequentemente" à custa de aumentos salariais para o resto da força de trabalho. Face a isto a organização apela a que se procedam a reformas nos regulamentos que afetam o processo de definição dos salários das empresas.
Aqui o High Pay Center defende medidas tais como: "Implementar integralmente o Projeto de Lei dos Direitos Laborais, incluindo medidas que garantam que os trabalhadores são informados pelos empregadores sobre os seus direitos sindicais e que garantam aos sindicatos um acesso razoável aos locais de trabalho. As sondagens mostram que uma maior filiação sindical e cobertura de negociação colectiva estão ligadas à redução da desigualdade salarial".
Outra medida sugerida pelo High Pay Center passa por incluir administradores representantes dos trabalhadores nos conselhos de administração das empresas. "O direito dos trabalhadores de eleger pelo menos dois administradores para os conselhos de administração das empresas melhoraria a compreensão operacional dos negócios a nível do conselho de administração, aumentaria a responsabilidade e incentivaria o foco no sucesso da empresa a longo prazo em vez do lucro dos acionistas a curto prazo", defende a organização.
"Reformar a divulgação corporativa sobre a remuneração – embora os relatórios anuais das empresas tenham normalmente centenas de páginas, raramente contêm informações fundamentais sobre quem trabalha na empresa e quanto recebem. As regulamentações devem exigir a divulgação consistente da remuneração dos colaboradores mais bem pagos, para além do CEO, e uma maior transparência nos níveis salariais de toda a força de trabalho, incluindo o número de trabalhadores que recebem menos do que um salário digno. Se os trabalhadores, investidores e outras partes interessadas tiverem informações mais transparentes sobre as práticas de remuneração, provavelmente poderão influenciá-las para garantir resultados mais justos", afirma o High Pay Center.
Diferenças salariais permaneceram estáveis no FTSE 350
O High Pay Center já tinha publicado outra análise, em junho de 2025, referente ao FTSE 350 [índice que incorpora o FTSE 100 e o FTSE 250, ou seja reúne as 350 maiores empresas cotadas no Reino Unido], onde concluía que as diferenças salariais entre os CEO e os trabalhadores permaneceram estáveis de 2019 a 2024, destacando-se a redução ocorrida durante a pandemia da Covid-19.
A análise do High Pay Center referia que a proporção mediana entre o salário do CEO e o salário do funcionário a tempo inteiro mediano no Reino Unido foi de 52:1 nas empresas do FTSE 350 em 2023/2024, um valor mais baixo face ao rácio de 54:1 registado em 2022/2023.
"A proporção mediana entre o salário dos CEO do FTSE 350 e o dos seus homólogos com salários mais baixos, no 25º percentil (ou limite inferior do quartil) da população de empregados do Reino Unido, foi de 71:1 em 2023/2024, uma queda em relação aos 75:1 em 2022/2023", adiantou a organização.
Remuneração do CEO como múltiplo da remuneração dos colaboradores no Reino Unido (equivalente a tempo inteiro)
[caption id="attachment_15126" align="aligncenter" width="632"]
Fonte: High Pay Center[/caption]
Rácios são mais elevados no FTSE 100
Em junho de 2025, a análise do High Pay Center referia que os rácios eram mais elevados para as empresas do FTSE 100, em que a "proporção mediana entre CEO e colaborador mediano foi de 78:1, e a proporção mediana entre CEO e colaborador do quartil inferior foi de 106:1 (80:1 e 119:1 em 2022/23)".
A análise concluiu ainda que "18% das empresas do FTSE 350 apresentaram uma proporção entre CEO e colaborador mediano superior a 100:1, enquanto em 5% dos casos esta proporção foi superior a 200:1", e que o rácio salarial entre o CEO e o 25º percentil "foi superior a 100:1 em 28% das empresas e superior a 200:1 em 9%".
A remuneração média dos trabalhadores no 25º percentil, nas dez empresas com os limiares mais baixos do quartil inferior, "aumentou em 2.094 libras (2.420 libras) desde o ano passado, um aumento de 11,46%, referem os dados do High Pay Center.
"Isto sugere que houve algum progresso no sentido de aumentar os níveis salariais dos trabalhadores com rendimentos mais baixos (pelo menos para aqueles classificados como empregados diretos e, portanto, incluídos nos dados do rácio salarial)", considera a organização.
"No entanto, as alterações podem também refletir alterações na população de empregados utilizada para o cálculo – se o tamanho da força de trabalho foi reduzido, ou se os empregos foram externalizados ou realocados, isso pode alterar significativamente a remuneração no 25º percentil da população de empregados do Reino Unido, sem que os trabalhadores experimentem uma alteração significativa nos seus níveis salariais. Observamos que a baixa qualidade dos relatórios das empresas dificulta a avaliação das causas das alterações na remuneração dos colaboradores", assinala o High Pay Center.
Salários mais baixos para os colaboradores com baixos rendimentos em 2023/24

Face a estes dados, o relatório deixou algumas recomendações. Entre elas: "As empresas fornecem informações mais detalhadas sobre a quantidade de empregos que oferecem nos diferentes níveis salariais. Os trabalhadores terceirizados, que frequentemente realizam trabalhos com uma remuneração muito baixa, sejam incluídos nos cálculos do rácio salarial. As empresas são obrigadas a comunicar diretamente aos seus colaboradores informação sobre a diferença salarial entre CEO e trabalhadores, além de publicar os dados nos seus relatórios anuais".
O relatório aborda também o "potencial hipotético" de existir um "salário máximo", que seria expresso como um rácio salarial, para "aumentar" o rendimento através do "reequilíbrio" da distribuição. "Observámos os elevados níveis de desigualdade e concentração de rendimentos no Reino Unido, em comparação com os padrões internacionais e históricos, e verificámos que uma proporção máxima poderia revelar-se uma forma mais eficaz e politicamente popular de reduzir a desigualdade do que depender exclusivamente de impostos e transferências", diz o High Pay Center.
O High Pay Center adianta que se a remuneração dos CEO em 112 empresas do FTSE 350 que não estão atualmente acreditadas pela Living Wage Foundation "fosse limitada" a dez vezes o salário do seu funcionário mediano no Reino Unido, isso "geraria uma poupança de 267 milhões de libras (308,3 milhões de euros) nessas empresas, o equivalente ao custo de aumentar o salário de quase 87 mil trabalhadores" que recebiam o salário mínimo nacional em 2023/24 para o salário mínimo real. "Mesmo após esta redistribuição, a remuneração média dos CEO nestas empresas manter-se-ia próxima de meio milhão de libras", salienta a organização.
Maiores diferenças entre a remuneração do CEO e a do colaborador mediano em 2023/24

Maiores diferenças entre a remuneração do CEO e a do colaborador em 2023/24 (colaboradores = colaborador do Reino Unido no 25º percentil da distribuição salarial em regime de tempo completo equivalente)

O High Pay Center assinala também a importância de se impedir que estas desigualdades surjam em primeiro lugar. É referido também que a investigação levada a cabo pelo High Pay Center sugere que uma relação máxima entre a remuneração do CEO e a dos colaboradores "poderia ajudar a garantir" que todos os trabalhadores recebem uma "recompensa justa" pela sua contribuição para o sucesso da empresa. "É tempo de os decisores políticos considerarem esta ideia seriamente", desafiou o High Pay Center.