Os impactos económicos provocados pelo contexto de incerteza no Estreito de Ormuz tem levado a um aumento dos preços da energia e a perturbações nas cadeias de abastecimento. Um cenário que a manter-se vai colocar maior pressão nos países mais dependentes do turismo e onde a economia portuguesa surge como uma das mais expostas da Europa, principalmente para o período do verão que se aproxima. A conclusão é do relatório 'European Economic Outlook' da KPMG divulgado esta segunda-feira, que antecipa um novo choque energético para a Europa, com potenciais efeitos na inflação e no consumo.
"A economia portuguesa está entre as que poderão ser mais expostas da Europa a uma eventual perturbação da época turística de verão, com uma redução de voos e cancelamentos ou quebra nas reservas turísticas, num cenário de constrangimentos no abastecimento de combustível para aviação", indica o documento.
Este problema é mais acentuado nas economias em que o turismo internacional tem um peso significativo nas exportações de serviços e no suporte à atividade económica, como é o caso do nosso país.
"Uma perturbação sustentada na mobilidade aérea, seja através da redução da oferta de voos, seja por uma alteração do comportamento dos consumidores, com mais turistas a optarem por férias mais próximo de casa, poderia penalizar as receitas de exportação de serviços e retirar dinamismo a um dos principais motores de resiliência económica de países como Portugal", pode ler-se no relatório.
Por outro lado, o relatório da KPMG projeta um crescimento económico em Portugal de 2,0% em 2026, acima da previsão para a zona euro de 0,9%, antecipando para o próximo ano um crescimento de 1,7% para Portugal, continuando acima da média prevista para a zona euro, de 1,2%, "embora com riscos acrescidos caso a crise energética se prolongue e afete a mobilidade aérea, o turismo e a confiança dos consumidores".
Miguel Afonso, partner e head of clients & markets da KPMG Portugal, refere que "o turismo tem sido um dos pilares da resiliência económica portuguesa nos últimos anos e continua a ser uma vantagem competitiva muito relevante para o nosso país. A eventual pressão sobre o combustível para a aviação deve, por isso, ser acompanhada com atenção, não apenas pelo impacto direto no setor turístico, mas também pelos efeitos indiretos que poderá ter no consumo, no emprego, nas receitas externas e na confiança empresarial".
Em relação ao choque energético, o documento aponta diferenças face à crise de 2022, marcada sobretudo pela dependência europeia do gás russo. "A exposição direta da Europa ao gás associado ao Estreito de Ormuz é mais limitada, o que reduz o risco de escassez física semelhante ao que foi registado em 2022, mas o impacto nos preços globais da energia e em matérias-primas críticas poderá ser mais disseminado", indica o relatório.
O petróleo, o gás natural liquefeito, o alumínio, o hélio, o amoníaco e os fertilizantes são alguns dos produtos mais afetados por esta crise, com a KPMG a deixar o alerta de que muitos destes bens são essenciais para setores industriais estratégicos e que a possibilidade de substituição no curto prazo é limitada.
No que diz respeito ao setor industrial, o relatóro aponta que a pressão sobre o alumínio poderá aumentar custos na indústria automóvel, enquanto eventuais restrições no hélio, utilizado na produção de semicondutores, poderão criar riscos adicionais para centros avançados de produção na Europa.