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Donald Trump na China com terras raras, tecnologia e equilíbrio comercial na agenda

A vista começa esta quarta-feira, mas a agenda económica não é tudo: o presidente norte-americano precisa da ajuda do seu homólogo Xi Jinping para fechar a aventura militar no Médio Oriente antes que o caos tome conta de tudo.

Há um ano, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, lançou tarifas comerciais exorbitantes sobre os produtos exportados da China para os Estados Unidos, prevendo que seriam necessárias e suficientes para colocar o seu principal rival económico em apuros. Aparentemente, tudo isso falhou: as tarifas baixaram substancialmente depois de Washington perceber que tinha mais a perder que a ganhar, a retórica sobre Taiwan cedeu lugar à realpolitik e as exportações chinesas para o resto do aumentaram. Tudo isto leva vários comentadores a salientar, como refere, citado pela agência Reuters, Alejandro Reyes, professor especializado em política externa chinesa na Universidade de Hong Kong, que “Trump precisa mais da China que a China precisa de Trump.

Com a guerra no Médio Oriente contra o Irão – um aliado antigo de Pequim – a correr mal, Trump chega esta quarta-feira a Pequim numa posição que muitos duvidam que seja de superioridade em relação ao anfitrião. Pelo contrário, Trump sabe que o seu homólogo Xi Jinping é ouvido atentamente em Teerão – ao contrário dos malabarismos retóricos e mal-educados que lança sobre o regime teocrata nas redes sociais – e que por isso terá de ser diplomata (uma ciência que lhe é fundamentalmente estranha) na abordagem do tema. Trump quer ajuda no ‘dossiê Irão’, mas sabe que isso lhe custará caro no ‘dossiê Taiwan’ – e Xi Jinping com certeza não se esquecerá de dizer ao seu homólogo norte-americano que travar essa batalha por interposta pessoa (a primeira-ministra japonesa) também não levará a lado nenhum.

O resto é economia: Trump chega à China com uma agenda cheia de temas que implicam nessa área, de onde sobressaem o comércio e tarifas aduaneiras, a Inteligência Artificial e exportação de chips, o acesso da China a tecnologia norte-americana, minerais raros e cadeias de abastecimento, e a compra de produtos norte-americanos (aviões, soja, carne e energia). Taiwan e segurança no Indo-Pacífico, a guerra no Irão e a estabilidade global e as armas nucleares e segurança estratégica são o que está à margem, mas não é menos importante.

Donald Trump chega a Pequim com uma ambição de superioridade frustrada por decisões judiciais e uma aposta inconsequente no fim da globalização, tendo que se lançar nos braços do seu rival para tentar resolver problemas que ele próprio criou. Para além da questão do Médio Oriente, Trump percebeu de forma dura que as tarifas levaram a contraparte a restringir a exportação de terras raras para os Estados Unidos, numa manobra que foi desastrosa para os Estados Unidos – e só não foi pior porque, depois do encontro de ambos na Coreia do Sul, Xi Jinping acedeu a levantar essas restrições. Mas ficou com um ‘trunfo’ poderoso nas mãos: afinal, cerca de 60% a 70% da produção mineira mundial de terras raras vem da China, percentagem que sobre para os 90% se se acrescentar o processamento e refinação; só no caso dos ímanes permanentes de terras raras (usados em carros elétricos, mísseis, turbinas e telemóveis), a China controla cerca de 90% a 94% da produção global. Ter Pequim como inimigo é, para Washington, pouco menos que um suicídio.

“Trump precisa de uma espécie de vitória em política externa: uma vitória que mostre que ele tenta garantir a estabilidade no mundo e que não está apenas a perturbar a política global", acrescentou Reyes.

De qualquer modo, Xi Jinping parece não se poupar a esforços para ser um bom anfitrião: a cimeira terá lugar no Grande Salão do Povo, haverá visitas o Templo do Céu (património Mundial da UNESCO) e um banquete de Estado. Pelo meio, dois encontros ‘a doer’ entre os dois líderes, que também hão de tomar chá juntos.

Trump estará acompanhado por um conjunto de CEOs das mais importantes empresas caseiras, entre eles incluindo o da Tesla, Elon Musk, e o a Apple, Tim Cook. Mas, segundo a imprensa norte-americana, a delegação empresarial será menor que quando visitou Pequim pela última vez em 2017. A razão parece clara: os CEO’s norte-americanos têm uma relação com a Casa Branca – desde logo pela possibilidade de contribuir financeiramente para as campanhas eleitorais dos candidatos à presidência – que não diz nada a Xi Jinping, que com certeza tem uma forte repulsa pelo sistema.

Trump afirmou que discutirá com Xi a venda de armas para Taiwan e o caso do magnata octogenário dos media Jimmy Lai, que está preso. As famílias de dois norte-americanos detidos na China há mais de uma década também pressionaram Trump para que tente a sua libertação. E depois há sempre a questão dos direitos humanos e do povo uigur – mas o caos lançado por Trump com as suas decisões de colocar nas ruas a ICE, a agência federal de imigração e alfândegas, é capaz de servir de elemento dissuasor.