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Depois de BCE e Japão, seguem-se Fed e Banco de Inglaterra

A Fed deve destoar dos seus homólogos europeu e japonês ao manter as taxas inalteradas em junho, quando Kevin Warsh se estreia à frente do banco central e dos microfones dos jornalistas. Semana prossegue com reunião no Banco de Inglaterra, que deve optar por uma pausa, mas com um debate animado.

Depois de o Banco Central Europeu (BCE) ter arrancado duas semanas intensas de reuniões dos bancos centrais com uma subida de 25 pontos base (pb) e de o Banco do Japão (BoJ) ter dado seguimento com igual mexida, agora é a Reserva Federal dos EUA que se reúne, isto um dia antes do Banco de Inglaterra (BoE). No entanto, em ambos os casos, a expectativa é de uma manutenção do atual nível, sobretudo face à assinatura iminente do acordo de paz entre os EUA e o Irão.

O mercado está a dar como praticamente adquirido que a reunião desta quarta-feira não trará alterações nos juros diretores da maior economia do mundo, isto apesar do disparo recente da inflação que levou o indicador a 4,2% em maio, o valor mais alto desde abril de 2023. O acordo iminente entre norte-americanos e iranianos para pôr fim à guerra começada em fevereiro está a fazer descer os preços do barril de petróleo, mas, nos EUA, um corte de juros nunca foi o cenário base para os investidores.

Olhando para as taxas implícitas de mercado fornecidas pela FedWatch Tool, do CME Group, é constatável que o mercado atribui atualmente, na véspera do anúncio da decisão de política monetária, uma probabilidade de 99,6% à manutenção do atual intervalo entre 3,5% e 3,75%, mas, há um mês, essa probabilidade era de 98,7%. Ou seja, um mês não alterou as perspetivas dos investidores, pelo que o memorando de entendimento entre Washington e Teerão não é o fator chave nesta equação.

Ainda assim, os analistas antecipam que a Fed “elimine o viés acomodatício adotado desde o início do atual ciclo de cortes de juros”, mostrando assim uma “crescente preocupação com a inflação persistente”, explica Michael Krautzberger, diretor de Investimento Global de Mercados Públicos da AllianzGI.

“As atas sugerem que o equilíbrio interno se deslocou para uma postura mais restritiva, dada a crescente incerteza sobre a duração e os efeitos económicos do conflito no Médio Oriente”, acrescenta. Tal ficaria também em linha com a postura do novo presidente, Kevin Warsh, conhecido por ser agressivo contra a inflação.

Além da leitura mais recente do índice de preços no consumidor (IPC), o índice de gastos pessoais de consumo (PCE), a medida preferida da Fed na avaliação da inflação, mostra o indicador subjacente acima do objetivo de 2% desde 2021 e com uma tendência crescente nos últimos meses, reforçando a necessidade de lidar com a pressão cada vez mais abrangente nos preços.

Por outro lado, o novo presidente do banco central “herda o Comité mais dividido em mais de três décadas, com três membros votantes a já discordarem do viés acomodatício em Abril, enquanto o governador cessante, Stephen Miran, voltou a votar a favor de um corte na taxa de juro”. Isto combinado com os comentários de Warsh no passado sobre ‘mudança de regime’ na Reserva Federal podem complicar os primeiros tempos do banqueiro.

Daniel Murray, diretor interino de investimentos e líder da unidade de pesquisa da EFGAM, argumenta precisamente que a conferência de imprensa será “mais animada do que habitual”, dados os comentários passados de Warsh, o ambiente em que se estreia na presidência do banco central e a sua vontade explícita de reduzir a comunicação da Fed.

“Apesar de Warsh ser altamente educado e um antigo governador da Fed, a vontade de comunicar menos pode estar relacionada com o facto de que não é um economista treinado, pelo que poderá ficar desconfortável com as questões de jornalistas experientes em política monetária norte-americana”, escreve.

Japão e Austrália divergem

A reunião da Fed finaliza dois dias após o BoJ ter seguido o rumo do BCE e ter subido taxas em 25 pb, levando o indicador de referência a 1% – o valor mais alto dos juros diretores nipónicos em 31 anos. E as subidas não devem ficar por aqui.

O governador interino, Shinichi Uchida, sinalizou que o banco central continuará a combater a pressão nos preços e voltará a subir taxas, dado o risco de espiral inflacionista. O acordo entre EUA e Irão dá algum alívio, mas a pressão nos custos das empresas tem sido transmitida à economia via preços e também salários, arriscando uma inflação mais entrincheirada e persistente.

A decisão era tomada como adquirida pelos mercados, que já precificavam a subida, mas nem por isso foi unânime, com um dissidente entre os oito votantes. Ainda assim, com os juros em 1% e a taxa de inflação a chegar a 1,4% na leitura mais recente, a taxa real permanece negativa.

Como tal, e dada a fraqueza do iene nos mercados cambiais aliada a ganhos salariais consideráveis, o mercado inclina-se para nova subida este ano, independentemente do desfecho do conflito americano-israelita no Médio Oriente. O banco ING aponta para outubro para esta nova subida.

Mais a sul, o Banco da Reserva da Austrália (RBA) optou por manter esta terça-feira as taxas sem mexidas, embora sinalizando prováveis novas subidas no horizonte. Foi a primeira reunião este ano do banco central australiano sem mexidas nos juros, isto após três subidas que deixaram os juros de referência em 4,35%.

Mais de metade dos analistas ouvidos pelo Canal 9 australiano apostam em pelo menos mais uma subida de juros até final do ano e mais de 60% destes apontam para a próxima reunião, em agosto.

Falcões ingleses perdem fôlego

Além do Japão, também o Reino Unido vê o banco central reunir esta semana, sendo improvável uma mexida em junho – e até mesmo no resto do ano.

Os investidores chegaram a equacionar uma subida perante novo choque energético, embora se dividissem entre junho e julho, mas o entendimento entre norte-americanos e iranianos já pressiona a cotação do petróleo em baixa, sendo expectável uma certa normalização do mercado energético nos próximos meses.

Como tal, a possibilidade de uma subida esta quinta-feira deixou de estar em cima da mesa e o mercado antecipa agora apenas 25% de probabilidades de tal acontecer em julho, além de ter ajustado em baixa as previsões para as mexidas nos juros de referência de três para apenas uma este ano.

Ainda assim, e olhando para a tendência recente nas votações do banco, não seria surpreendente ver dissidentes. O banco ING antecipa pelo menos dois votos a favor de nova subida, o que deixaria o resultado em 7-2 no Comité do BoE.