Em Portugal, o modo como as pessoas se relacionam com os animais de companhia atingiu um nível de proximidade que, há apenas uma década, seria difícil de imaginar. Hoje, os “pets” são mais do que companheiros. São família. E essa ligação afetiva está a transformar comportamentos, hábitos, investimentos e até setores da economia.
Segundo o estudo PetPulse Insights — Laços, Rotinas & Consumo, realizado pela UPPartner, Agência de Comunicação Estratégica, através da área de Marketing Intelligence & Consulting, 95% dos tutores portugueses consideram o seu animal como membro da família. Não se trata apenas de carinho; trata-se de integração plena. Os tutores reorganizam horários, ajustam hábitos e reconhecem no seu animal de estimação um contributo direto para o bem-estar emocional. Para muitos, é o animal que ajuda a equilibrar o dia, a reduzir a ansiedade e a tornar o regresso a casa mais leve.
A investigação internacional confirma a mesma tendência. A Boston Consulting Group num estudo publicado este ano revela que cerca de 80% dos tutores globais veem os seus animais de estimação como membros da família, percentagem reforçada após a pandemia e com o aumento de lares sem filhos. Em Portugal, esse valor chega aos 81%. E a Euromonitor com dados de 2024 mostra que a humanização e a procura por produtos premium impulsionaram um crescimento global de 5,9% nas vendas de pet care em 2023.
O vínculo não é apenas emocional: é comprovado. O Human Animal Bond Research Institute indica que 74% dos tutores registam melhorias na saúde mental e 85% sentem menos solidão graças à convivência com os animais. A Mars Petcare citada no estudo da UPPartner acrescenta que os animais de companhia reduzem a ansiedade e o isolamento social.
“Cuidar de um animal é, cada vez mais, uma extensão de cuidar de nós. Este estudo mostra que o bem-estar animal, humano e ambiental estão profundamente interligados — e que esta relação tem impacto real na saúde, no consumo e na forma como vivemos em sociedade”, afirma em comunicado Bernardo Soares, médico veterinário e One Health Diretor da UPPartner.
Rotinas que mudam — casas, agendas e até escritórios
A presença de um animal de companhia deixou de ser um detalhe. Em Portugal, estudos mostram que os tutores acordam mais cedo para passeios, ajustam horários de trabalho ou reorganizam as atividades familiares em função das necessidades dos animais.
No contexto profissional, as políticas pet-friendly ganham terreno. Empresas que permitem a presença de animais no escritório relatam maior bem-estar entre os colaboradores, como confirma a Purina Europe citada no estudo da UPPartner. Com 44% dos europeus a viver com um animal de estimação, cresce a normalização destas políticas.
Também o lazer se transformou. Cafés, parques, hotéis e até viagens são cada vez mais pensados para acolher animais. Os amigos de quatro patas tornaram-se um participante ativo da rotina pública dos seus donos, e não apenas uma presença doméstica.
Alimentação: da ração básica à nutrição premium
A alimentação pet vive uma verdadeira revolução. Segundo a NielsenIQ, a categoria de luxo cresceu 11,7% em valor, enquanto a Euromonitor, dados de 2024, estima que o mercado global de comida para animais tenha superado os 200 mil milhões de USD — aproximadamente 172 mil milhões de euros.
Mesmo num contexto de inflação, os tutores mantêm o investimento em produtos de maior qualidade, com foco em alimentos naturais, funcionais e nutricionalmente aprimorados. A consultora BCG reforça que muitos donos desejam proporcionar aos seus animais o mesmo nível de cuidado que aplicam à sua própria alimentação.
Saúde: prevenção, digitalização ainda com margem para crescer
A preocupação com a saúde dos animais cresce em Portugal. Há maior adesão a consultas preventivas, vacinação, desparasitação e programas de controlo de peso. Os dados mostram que 35% dos cães e 33% dos gatos apresentam excesso de peso, o que tem levado clínicas a oferecer programas especializados.
Globalmente, os gastos em saúde animal não param de subir. Nos Estados Unidos, a American Veterinary Medical Association indica que o setor atingiu 38 mil milhões de USD — cerca de 32,6 mil milhões de euros em 2023, crescendo, 9% ao ano desde 2018.
Seguros: mercado em transição
Na Europa, o mercado de seguros para animais deverá duplicar até 2029, com um crescimento anual de 13%. Mas em Portugal, a realidade é bem distinta: apenas 15% dos tutores têm seguro, com intenção de adesão apenas moderada. Persistem barreiras como preço, desconhecimento e pouca adequação das ofertas às necessidades reais.
A digitalização está a acelerar no setor. O mercado global de telemedicina veterinária, avaliado em 528 milhões de USD, ou seja, cerca de 454 milhões de euros, em 2023, deverá crescer 13,7% ao ano até 2032. Consultas remotas, apps de triagem e plataformas de acompanhamento tornaram-se ferramentas cada vez mais procuradas, sobretudo por tutores urbanos.
Tecnologia e wearables: um mercado jovem, pronto para crescer
A tecnologia entrou definitivamente na vida dos animais. Wearables, coleiras inteligentes, dispositivos GPS e apps de bem-estar são cada vez mais utilizados. Em Portugal, 23% dos tutores já usam tecnologia wearable, e 40% mostram interesse em aderir — um sinal claro de que o mercado tem margem para crescer.
A BCG, dados de 2025, estima que um em cada quatro tutores europeus utilize atualmente algum tipo de dispositivo inteligente para monitorizar a saúde do seu animal. Os mais jovens lideram esta tendência, impulsionados pela conveniência e pela confiança crescente nos dados.
“Estamos perante uma mudança de paradigma: o pet deixou de ser um elemento acessório e passou a ser um agente ativo de equilíbrio emocional, social e até económico. Isso desafia marcas, profissionais e políticas públicas a pensar o bem-estar de forma integrada”, conclui Bernardo Soares.