Os produtos alimentares e bebidas não alcoólicas destacam-se, representando 20,7% do cabaz utilizado pelo Eurostat para calcular a inflação em Portugal em 2026. É o 4.º valor mais elevado da década, superado apenas pelos pesos de 2021, 2022 e 2025.
É ainda o sétimo mais elevado da UE. O peso da alimentação tende a ser maior em países de menores rendimentos: dos seis Estados-membros que surgem à frente de Portugal, apenas a Lituânia tem um PIB per capita mais elevado, depois de ajustadas as diferenças de poder de compra.
Seria de esperar que a habitação surgisse na liderança, mas este cabaz só abrange despesa monetária de consumo, pelo que não é incluído o crédito à habitação, nem se atribui aos proprietários uma renda hipotética pelo uso da casa própria (as rendas imputadas). Como cerca de 71% da população vive em casa própria, o peso relativo da habitação fica diluído no cabaz. Já quando se considera o consumo não monetário, incluindo as rendas imputadas, a habitação passa para 1.º lugar, como mostra o inquérito às despesas das famílias do INE: representava 39,3% dos gastos. O problema? Estes últimos dados são de 2022/23, período já distante.
A habitação, água, eletricidade, gás e outros gastos com a casa representam, por isso, apenas 8,25% do cabaz de consumo em 2026. Portugal é o 3.º país com o peso mais baixo na UE e há uma descida de 1,1 pontos percentuais (p.p) em relação a 2017. A queda explica-se, em grande medida, pela redução do peso conjunto da eletricidade, gás e outros gastos em 1.3 p.p., para 2,9%. Já as rendas pagas, que valem cerca de metade da categoria, subiram 0,5 p.p., para 4,2%.
Os gastos com a casa ficam atrás não só da alimentação e bebidas não alcoólicas, como também dos restaurantes e alojamento (16,7%) e dos transportes (14,9%). No caso da restauração e do alojamento, em que se incluem despesas de turistas estrangeiros, têm o 2.º peso mais elevado da década e o maior aumento percentual entre as 13 categorias (3,8 p.p).
Destaque ainda para quatro categorias que estão com o peso mais baixo dos últimos 10 anos — equipamento doméstico e manutenção da habitação (4,96%), bebidas alcoólicas, tabaco e narcóticos (3,22%), informação e comunicação (2,75%) e seguros e serviços financeiros (2,44%). A perda de peso não significa, necessariamente, que as famílias reduziram gastos. Pode ter havido uma evolução mais lenta dos preços ou uma subida mais acentuada de outras componentes do cabaz. No entanto, contactada pelo Jornal Económico, a Deco acredita que as famílias tenham cortado despesas secundárias.
Cada categoria, porém, conta a sua própria história e uma análise mais fina dá-nos pistas. Na categoria de bebidas alcoólicas, tabaco e narcóticos, que tem o 3.º peso mais baixo da UE em 2026, o tabaco explica parte da evolução: caiu de 2,2% para 1,8% em 10 anos. A cerveja, comparativamente barata em Portugal e com o peso mais baixo da UE, recuou de 0,5% para 0,3%. Já o vinho aumentou de 0,9% para 1% (7.º maior na UE).
Na informação e comunicação, Portugal tem o 2.º peso mais baixo entre os 27 e acumula quatro quedas consecutivas. As telecomunicações em “bundle” (de 1,3% em 2017 para 1% em 2026) e as comunicações móveis (de 1,2% para 1,1%) ajudam a explicar.
Na categoria de seguros e serviços financeiros, são as comissões bancárias que explicam o registo mais baixo (a proporção caiu de 1,7% para 1%).
Por outro lado, a categoria de lazer, desporto e cultura aumentou 0,2 p.p. em 10 anos. A explicação não está nos serviços culturais (caiu de 0,9% para 0,3%), nem nos jornais, livros e papelaria (de 1,4% para 0,6%), mas nos jogos de azar. O Eurostat contabiliza este gasto pela primeira vez, valendo na estreia 1,4% das despesas de consumo do país (11.º lugar na UE).
Nota final para a saúde. O peso aumentou de 5,6% para 6,4% desde 2017 e é o 7.º mais elevado da UE. Uma posição que se explica, em grande medida, pelos gastos com dentista, que passaram de 1,5% para 2,6%. Em nenhum outro Estado-membro os serviços dentários têm tanto peso.
Consumo O que tanto gastamos em Portugal?
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O consumo privado representa uma fatia considerável da riqueza produzida em Portugal, correspondendo a mais de 60% do PIB. Há dois anos, esse peso era mesmo o 3.º mais elevado na União Europeia, apenas atrás da Grécia e da Roménia. Mas de que é feito esse consumo? Como evoluiu o peso das diferentes categorias na última década? E como se compara Portugal com outros países da UE?