Os consumidores europeus continuam a não gastar o suficiente para estimular a economia como um todo, mas, ao contrário do paradigma até há pouco, as poupanças têm vindo a ser cada vez mais aplicadas em produtos financeiros com retorno, preparando o terreno para um consumo mais forte no futuro.
Uma análise do departamento de estudos económicos e financeiros do banco ING começa por denotar que os gastos das famílias se têm mantido relativamente estáveis em torno de 85% do rendimento disponível, mas a taxa de poupança subiu com a pandemia e não regressou aos níveis pré-Covid. De uma taxa de 12,5% em 2019, a poupança dos europeus chegou a 14,26%, em termos brutos, no primeiro trimestre deste ano, expondo a subida na capacidade das famílias de poupar parte dos seus rendimentos.
Isto tem contribuído negativamente para o crescimento, que permanece próximo de anémico há vários trimestres no bloco da moeda única. A nota do ING destaca que o consumo na zona euro representa tipicamente à volta de 50% do PIB, pelo que, “se a taxa de poupança caísse dos níveis do primeiro trimestre para 12,5%, isso obrigaria a mais procura por bens e serviços equivalente a 1% do PIB”.
Nos EUA, onde a taxa de poupança é tipicamente mais baixa, tal queda obrigaria a uma procura mais forte em 2% do PIB.
Uma exceção ocorreria se este desvio de consumo fosse canalizado para investimento, algo que não se tem verificado nos últimos anos na Europa, excluindo 2021. Na realidade, “o investimento imobiliário tem caído desde 2023, pesando ainda mais na procura doméstica”.
Ainda assim, há uma mudança de comportamento nos agentes europeus que permite maior otimismo em relação ao médio prazo. Tanto jovens, como idosos têm vindo a aplicar cada vez mais as suas poupanças nos mercados financeiros, procurando rendimentos que permitam aumentar as suas possibilidades de consumo futuras.
No caso das gerações mais velhas, registou-se uma considerável erosão da sua riqueza nos últimos anos, fruto sobretudo do ambiente de elevada inflação que se tem vivido desde a crise pandémica. Em linha com este facto, são precisamente os cidadãos acima de 50 anos que mais planeiam poupar nos próximos 12 meses, de acordo com os inquéritos da Comissão Europeia às famílias.
Por outro lado, são também tipicamente os consumidores mais velhos que antecipam inflações mais elevadas, contribuindo para a perceção de que é necessário poupar para fazer frente a mais meses de desvalorização da riqueza acumulada.
Nos mais jovens, precisamente as expectativas elevadas de inflação têm contribuído para esta decisão de poupar, levando a um máximo de 36 anos na percentagem de cidadãos entre os 16 e 29 anos consultados pela Comissão a indicarem a intenção de pôr de lado parte dos rendimentos nos próximos 12 meses. Mas os aforradores pós-Covid estão mais virados para os mercados.
“Desde 2024, os dados de transações financeiras mostram que uma fatia crescente [das poupanças] estão a ir para fundos de investimento, seguros, pensões ou garantias standardizadas”, lê-se na nota do banco neerlandês.
Entre 2022 e 2025, o investimento líquido subiu 9% na zona euro, enquanto os depósitos e dinheiro caíram 5%. A juntar a isto, “o efeito combinado da subida no preço dos ativos e o aumento da aplicação das famílias em várias tipologias de riqueza ajudou a subir o rácio riqueza-PIB”, o que deverá ajudar a sustentar o consumo – e, por arrasto, o crescimento – no futuro mais próximo.
“Se os europeus continuarem a aplicar as suas poupanças a produtos de investimento, a necessidade de reservas de segurança pode esmorecer gradualmente”, projetam os analistas. Em sentido inverso, “à medida que os ganhos se traduzem em riqueza e protegem contra a inflação, as famílias poderão sentir menor pressão para colocarem de parte uma fatia tão considerável do rendimento para alcançarem o nível desejado de segurança económica”.